A eleição de Santa Catarina tem uma característica que pode passar despercebida no início da campanha: o eleitor vai às urnas para escolher governador, dois senadores, deputados e presidente, mas pode não estar fazendo essas escolhas de forma independente.
A política nacional começa a ocupar o espaço da política estadual. E, quando isso acontece, a pergunta sobre quem será o próximo governador pode acabar sendo influenciada por uma pergunta muito mais simples: de que lado você está?
A eleição dentro da eleição
Santa Catarina sempre teve uma identidade política bastante particular. O eleitor costuma cobrar gestão, infraestrutura, saúde, segurança, impostos e desenvolvimento. Mas essa lógica pode perder espaço quando a disputa presidencial volta a produzir uma polarização capaz de dominar a conversa nacional.
O eleitor passa a carregar para a cabine uma identidade política construída muito antes de começar a campanha estadual.
É aí que a eleição muda de natureza.
Um candidato pode apresentar o melhor programa para Santa Catarina, mas, se o eleitor estiver escolhendo principalmente pelo campo político que representa, a proposta passa a disputar espaço com algo muito mais forte: pertencimento.
O efeito Jorginho
É nesse ambiente que Jorginho Mello pode encontrar uma vantagem importante.
O governador já está claramente associado a um campo político nacional. Se a disputa presidencial se consolidar novamente em torno de uma polarização entre esquerda e direita, a eleição estadual pode ser contaminada por essa mesma lógica.
Jorginho não precisará necessariamente nacionalizar sua campanha. A própria nacionalização do eleitorado pode fazer parte do trabalho.
Isso não significa que sua reeleição esteja garantida. Governadores são avaliados também pelo governo que fizeram, e uma eleição estadual continua tendo suas próprias variáveis.
Mas significa que Jorginho pode ter uma identidade eleitoral pronta para um cenário que favorece escolhas nacionais.
E João Rodrigues?
É justamente aí que a situação de João Rodrigues fica mais delicada.
Para vencer, ele precisa convencer o eleitor de que a eleição para governador deve ser decidida olhando para Santa Catarina, não para Brasília.
Precisa transformar sua experiência, sua gestão e seu projeto em uma narrativa capaz de competir com a força da polarização nacional.
Não é impossível. Mas é mais difícil.
Porque quanto mais o eleitor votar pensando no presidente, mais difícil será apresentar uma terceira narrativa exclusivamente estadual.
E isso vale também para a disputa pelo Senado.
O Senado pode ser ainda mais afetado
O Senado tem uma particularidade: cada eleitor poderá escolher dois nomes.
Isso abre espaço para uma combinação de votos que pode seguir muito mais a lógica política nacional do que a estadual.
Um eleitor pode escolher seu primeiro senador por identificação direta e o segundo por estratégia, rejeição ou equilíbrio entre os campos políticos.
Por isso, nomes com forte identidade nacional podem ganhar uma vantagem importante. E aqueles que dependem principalmente de reconhecimento regional precisarão trabalhar para transformar essa lembrança em voto.
A pergunta que ninguém pode ignorar
Existe, portanto, uma disputa silenciosa acontecendo por trás da eleição oficial.
De um lado, os candidatos tentando convencer o eleitor sobre o futuro de Santa Catarina.
Do outro, a política nacional oferecendo ao eleitor uma escolha muito mais simples, emocional e conhecida.
Quem conseguir juntar as duas coisas terá vantagem.
Quem representar uma identidade nacional e, ao mesmo tempo, convencer que é a melhor escolha para Santa Catarina estará jogando nos dois campos.
Quem depender apenas da discussão estadual pode descobrir, tarde demais, que o eleitor já chegou à campanha com sua decisão parcialmente formada.
Sobretudo
Talvez a eleição de 2026 não seja apenas sobre quem vai governar Santa Catarina.
Pode ser sobre quem conseguirá fazer o eleitor separar, por alguns minutos, a eleição do Estado da eleição do Brasil.
E essa separação está ficando cada vez mais difícil.
Porque o eleitor pode até escolher seis ou sete cargos diferentes na urna.
Mas pode estar fazendo uma única escolha política.




























