Há uma coisa curiosa acontecendo na eleição de Santa Catarina: enquanto os candidatos tentam transformar a disputa em uma escolha sobre o futuro do Estado, Brasília trabalha para transformá-la, novamente, em uma escolha sobre o Brasil.
A crise que tomou conta do Supremo Tribunal Federal, com decisões conflitantes entre ministros, o afastamento e posterior reintegração do diretor-geral da Polícia Federal e até o cancelamento da sessão do Plenário desta quarta-feira, deixou de ser apenas uma crise institucional. Ela passou a produzir efeitos políticos.
E Santa Catarina é um dos Estados onde esse efeito pode ser maior.
O eleitor não separa mais as eleições
A eleição para governador, Senado e Presidência acontece no mesmo dia, mas o eleitor não necessariamente enxerga três eleições diferentes.
Quando Brasília entra em combustão, ela contamina Florianópolis.
A polarização nacional está novamente ocupando o espaço central da conversa política. E os números ajudam a explicar por quê: a nova pesquisa nacional coloca Lula e Flávio Bolsonaro em situação de empate técnico, tanto no primeiro turno quanto em uma simulação de segundo turno.
Isso muda o ambiente.
Em Santa Catarina, um candidato não precisa necessariamente falar sobre Brasília para ser beneficiado ou prejudicado pelo que acontece lá. Basta que o eleitor enxergue a eleição estadual como parte da mesma disputa nacional.
E esse é o ponto que merece atenção.
Jorginho pode ganhar sem precisar pedir
Para Jorginho Mello, a nacionalização da eleição pode ser especialmente confortável.
O governador já ocupa um espaço político claramente identificado com a direita e com o bolsonarismo. Se a eleição presidencial voltar a ser organizada pelo confronto entre Lula e Bolsonaro, ou entre Lula e um candidato apoiado por Bolsonaro, o ambiente nacional pode funcionar como uma espécie de amplificador para sua candidatura estadual.
Não significa que a eleição esteja decidida. Muito menos que Brasília escolha o governador de Santa Catarina.
Significa que Jorginho pode receber um vento eleitoral que não foi produzido pela campanha estadual.
E seus adversários terão de decidir se enfrentam esse ambiente ou se tentam escapar dele.
O problema dos adversários
João Rodrigues precisa disputar uma eleição catarinense em um momento em que a eleição brasileira está ficando cada vez mais nacionalizada.
Isso é particularmente difícil porque sua estratégia precisa ser construída em torno de uma narrativa estadual, enquanto a polarização nacional tende a simplificar a escolha do eleitor: de que lado você está?
A mesma lógica vale para o Senado.
Nomes como Esperidião Amin, Carlos Bolsonaro e Carol de Toni precisam conquistar duas coisas diferentes: o primeiro voto e o segundo voto. E quanto mais a eleição presidencial ocupar a cabeça do eleitor, maior será a tendência de o voto para o Senado seguir a mesma lógica de pertencimento político.
A eleição pode estar ficando simples demais
Esse talvez seja o maior risco para quem disputa uma eleição estadual.
Quando a política nacional esquenta, o eleitor começa a fazer escolhas mais simples. Menos sobre propostas, mais sobre identidade. Menos sobre quem administrará melhor Santa Catarina, mais sobre quem representa melhor o meu lado.
É uma eleição dentro da outra.
E quem conseguir transformar sua candidatura estadual em extensão da identidade nacional terá uma vantagem enorme. Quem precisar explicar por que sua eleição é diferente da eleição presidencial terá de trabalhar muito mais.
Sobretudo, a crise de Brasília pode estar produzindo um efeito silencioso em Santa Catarina.
Enquanto os candidatos olham para pesquisas, programas de televisão, alianças e palanques, o eleitor pode estar olhando para outro lugar.
Para Brasília.
E quando Brasília entra na eleição catarinense, a pergunta deixa de ser apenas quem será o próximo governador. Começa a ser: de que lado você está?
Essa é uma pergunta muito mais poderosa.
E, em uma eleição apertada, pode ser também muito mais perigosa.



























