Na eleição proporcional, existe uma moeda política que aparece em quase todas as conversas de bastidor: o apoio do prefeito. Candidato anuncia dobradinha, prefeito sobe no palanque, fotografia circula nas redes e, imediatamente, começa a conta. “Com esse prefeito, tantos votos estão garantidos.” Mas será que estão mesmo?
A resposta curta é: não.
Prefeito não entrega voto. Prefeito entrega, no máximo, acesso, estrutura, confiança e capacidade de mobilização. O voto continua sendo do eleitor.
E essa diferença pode ser decisiva em 2026.
Santa Catarina tem mais de 5,7 milhões de eleitores distribuídos pelos 295 municípios. O peso eleitoral de uma cidade, evidentemente, depende do tamanho de seu eleitorado. Um prefeito de um grande centro urbano não pode ser comparado, em números absolutos, ao prefeito de uma pequena cidade. Mas, quando falamos de eleição proporcional, tamanho não é a única variável que importa.
É aí que o interior ganha importância estratégica.
O interior catarinense não é apenas um conjunto de municípios menores espalhados pelo mapa. É uma rede política. São 295 realidades municipais, com prefeitos, vereadores, ex-prefeitos, lideranças comunitárias, empresariais e setoriais que conhecem o eleitor pelo nome e, muitas vezes, sabem exatamente onde aquele voto pode ser encontrado.
Nas cidades menores, a política costuma ser mais próxima. O prefeito conhece lideranças, vereadores, empresários, entidades, comunidades e famílias que têm influência local. Em muitos municípios, a distância entre o eleitor e quem exerce o poder político é medida em poucas pessoas.
Isso cria uma capacidade de mobilização que não aparece necessariamente em uma pesquisa estadual.
E existe uma vantagem estratégica adicional: o interior permite construir concentração de votos. Para um candidato proporcional, não basta ter presença pulverizada pelo Estado. É preciso encontrar territórios onde consiga transformar relacionamento político em votação relevante. Uma sequência de municípios em que o candidato tenha prefeitos aliados, vereadores comprometidos e lideranças trabalhando pelo mesmo projeto pode produzir uma eficiência eleitoral muito maior do que uma presença genérica em dezenas de cidades.
Um prefeito com 20 mil eleitores no município pode, em determinadas circunstâncias, ser eleitoralmente mais eficiente para um candidato do que uma liderança muito conhecida em uma cidade dez vezes maior. Não porque seus votos valham mais. Mas porque sua capacidade de organizar, indicar, convencer e mobilizar pode ser maior.
É a diferença entre ter eleitorado e ter rede.
Por isso, as famosas “dobradinhas” precisam ser analisadas com algum ceticismo. Uma fotografia ao lado do prefeito não representa automaticamente milhares de votos. Uma declaração de apoio não significa que todos os eleitores daquele município seguirão a orientação. E uma aliança política pode ser forte no gabinete e fraca na urna.
O eleitor pode votar no prefeito para governador e escolher outro candidato para deputado. Pode gostar da administração municipal e não conhecer o deputado apoiado. Pode respeitar a liderança local e, ainda assim, seguir uma indicação familiar, religiosa, profissional ou simplesmente votar em quem conhece.
O prefeito abre a porta. Quem precisa entrar por ela é o candidato.
E existe ainda uma segunda questão: quantos candidatos estão disputando a mesma porta?
Em algumas regiões, vários deputados e pretendentes trabalham com prefeitos diferentes, mas disputam exatamente o mesmo eleitorado. É aí que começa a fragmentação. O apoio municipal, que isoladamente parece enorme, pode perder força quando colocado dentro de um mapa regional cheio de candidatos.
Por isso, para medir a força de uma candidatura, não basta perguntar quantos prefeitos estão com ela. É preciso perguntar onde estão esses prefeitos, quantos eleitores representam, qual é a aprovação deles, qual é a estrutura política que possuem e, principalmente, se conseguem transformar apoio em voto.
Essa é uma diferença fundamental entre a política que aparece nas redes sociais e a política que acontece no território.
Na internet, uma fotografia com dez prefeitos parece uma avalanche.
Na urna, pode ser apenas uma fotografia.
VEREDITO SOBRETUDO
O prefeito é um dos ativos eleitorais mais importantes de uma campanha, mas também um dos mais superestimados quando transformado em número de votos. Não existe transferência automática de voto. Existe capacidade de transferência. E ela depende de confiança, estrutura, território e relacionamento.
Mas há uma questão que a eleição de 2026 torna ainda mais evidente: o interior é um ativo estratégico da política catarinense. Não porque o voto de uma cidade pequena valha mais, mas porque a proximidade entre liderança e eleitor pode produzir algo que dinheiro, propaganda e presença digital nem sempre conseguem comprar: densidade eleitoral.
Quem domina um território não precisa necessariamente ser o candidato mais conhecido do Estado. Precisa ser o candidato mais forte naquele território.
É por isso que uma eleição proporcional pode ser decidida muito antes de o eleitor apertar a urna — na capacidade de cada candidato construir redes municipais capazes de transformar apoio político em voto.
No fim, candidato que coleciona prefeitos pode ter uma boa fotografia. Candidato que consegue transformar prefeitos, vereadores e lideranças municipais em densidade eleitoral tem uma eleição.
A PERGUNTA QUE FICA
Quando um candidato anuncia o apoio de dez, vinte ou trinta prefeitos, quantos votos ele realmente recebeu — e quantos ainda precisa conquistar?

























