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A matemática invisível que pode decidir a eleição

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Não basta ter votos. É preciso transformar votos em cadeiras

Depois de radiografar partidos, nominatas, candidatos e projetar as 56 cadeiras em disputa em Santa Catarina, a SOBRETUDO entra agora em um território que costuma aparecer pouco nas análises eleitorais, mas que pode decidir quem vai para Brasília e quem chega à Assembleia Legislativa.

A matemática da eleição proporcional.

O eleitor olha para o candidato. A campanha olha para os votos. Os partidos olham para a votação das suas chapas. E, no fim, a Justiça Eleitoral transforma essa montanha de votos em um número limitado de cadeiras.

É aí que muita coisa pode mudar.

Um candidato pode fazer uma votação expressiva e não se eleger. Outro pode fazer menos votos e ocupar uma cadeira. Um partido pode ter uma nominata cheia de candidatos competitivos e, ainda assim, converter menos votos em cadeiras do que se imaginava. Uma legenda que parecia fora da disputa pode entrar pelas sobras.

E existe uma conclusão que deveria estar no centro de qualquer análise da eleição proporcional:

o resultado não é definido apenas por quem tem mais votos. É definido por como esses votos se transformam em representação.

Santa Catarina terá 16 deputados federais e 40 deputados estaduais. São 56 cadeiras. O número de candidatos é muito maior. Portanto, a pergunta fundamental não é apenas quem consegue votar.

É:

quem consegue transformar sua votação em cadeira?

PRIMEIRO VEM O VOTO. DEPOIS VEM A CONTA

Na eleição proporcional, os votos válidos são utilizados para calcular o chamado quociente eleitoral. De maneira simplificada, ele estabelece uma referência a partir da qual se começa a distribuir as cadeiras.

Depois vem o quociente partidário, que relaciona a votação de cada partido ou federação com esse número.

É nesse momento que os votos começam a virar cadeiras.

Mas a divisão raramente fecha perfeitamente.

E é justamente aí que começa a parte mais interessante.

Sobram cadeiras.

E essas cadeiras precisam ser distribuídas.

É o que conhecemos como sobras eleitorais.

É nesse momento que uma diferença aparentemente pequena de votação pode mudar a composição de uma bancada inteira.

A ÚLTIMA CADEIRA É OUTRA ELEIÇÃO

Imagine que determinado partido tenha força suficiente para conquistar duas cadeiras e esteja muito próximo de uma terceira.

Outro partido aparece logo atrás.

Não estamos mais falando de uma disputa entre o primeiro e o segundo colocado.

Estamos falando de uma disputa pela última cadeira disponível.

E essa é uma eleição dentro da eleição.

Uma diferença relativamente pequena na votação coletiva pode fazer com que uma legenda conquiste uma cadeira adicional.

E, se uma legenda ganha uma cadeira, outra necessariamente perde.

São 16 vagas federais.

São 40 estaduais.

Não existe uma 17ª cadeira esperando por alguém.

Por isso, quando uma legenda cresce, outra é deslocada.

Essa é a lógica que muitas vezes desaparece quando a análise se limita a dizer que determinado candidato “está forte”.

O VOTO DO CANDIDATO NÃO É APENAS DELE

Essa é uma das características mais importantes do sistema e talvez uma das menos compreendidas pelo eleitor.

Na eleição proporcional, a votação dos candidatos de uma legenda contribui para a votação coletiva do partido ou federação.

Isso significa que o voto em um candidato não eleito pode, ainda assim, contribuir para que outro candidato da mesma chapa conquiste uma cadeira.

É uma situação que parece estranha para quem pensa na eleição como uma corrida individual.

Mas é exatamente assim que funciona.

Você escolhe um candidato.

O voto entra na conta coletiva.

O partido conquista determinada quantidade de cadeiras.

E então os candidatos mais votados daquela legenda ocupam essas posições, respeitadas as regras eleitorais aplicáveis.

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Por isso, uma candidatura que não consegue chegar à cadeira pode, paradoxalmente, ter sido importante para que outro candidato da mesma chapa chegasse.

É POR ISSO QUE UMA NOMINATA FORTE PODE SER UMA VANTAGEM E UM PROBLEMA

Quanto mais candidatos competitivos uma legenda possui, maior tende a ser sua capacidade de produzir votos.

Mas existe uma segunda face.

Esses candidatos também podem disputar o mesmo eleitorado.

Uma chapa pode ter muitos nomes conhecidos, mas distribuir sua votação de maneira pouco eficiente.

Outra pode concentrar seus votos em poucos candidatos e alcançar uma relação mais favorável entre votação e cadeiras.

Não existe uma regra simples dizendo que “mais candidatos fortes significam mais cadeiras”.

A questão é:

quantos votos a chapa consegue produzir e como esses votos se distribuem?

É por isso que a análise das nominatas é tão importante.

E é também por isso que a fotografia de uma eleição proporcional pode mudar muito rapidamente.

O CANDIDATO MAIS VOTADO NÃO RESOLVE A CONTA

Outro erro comum é imaginar que basta olhar para os candidatos mais votados.

Não basta.

Um candidato pode ser o campeão de votos da sua legenda e ajudar seu partido a conquistar várias cadeiras.

Mas a definição de quem será eleito depende da combinação entre a votação coletiva da legenda, a quantidade de cadeiras conquistadas e a votação individual dos candidatos que disputam essas vagas.

Da mesma forma, um candidato pode fazer uma votação razoável, mas estar em uma chapa que não consegue produzir cadeiras suficientes.

Voto individual e força coletiva caminham juntos.

Essa é a essência da eleição proporcional.

E AS FEDERAÇÕES TORNAM A CONTA AINDA MAIS INTERESSANTE

Quando partidos disputam a eleição proporcional em uma federação, a conta começa no conjunto.

Os votos das legendas que integram a federação são considerados conjuntamente para a conquista das cadeiras.

Depois aparece uma segunda disputa.

Quem ficará com essas cadeiras?

É aí que a matemática coletiva encontra a força individual dos candidatos.

Um partido pode ter poucos candidatos competitivos, mas um deles pode concentrar uma votação extraordinária.

Outro pode ter uma nominata mais extensa.

A cadeira conquistada pela federação será apenas uma parte da história.

A outra será descobrir quem conseguiu transformar seu voto individual em posição dentro dela.

A SOBRA É ONDE A ELEIÇÃO FICA MAIS IMPREVISÍVEL

O quociente ajuda a definir as primeiras cadeiras.

As sobras podem definir algumas das últimas.

E é justamente por isso que a última cadeira de uma eleição proporcional costuma ser tão diferente da primeira.

Quem está confortável na primeira posição de uma legenda provavelmente não está fazendo a mesma conta de quem está brigando pela última.

Para quem está na fronteira, cada voto importa.

Cada município pode importar.

Cada liderança pode importar.

Cada dobradinha pode importar.

Cada movimento de campanha pode alterar a relação entre as chapas.

É por isso que não existe cadeira garantida antes da urna.

A ELEIÇÃO PROPORCIONAL É UMA DISPUTA DE EFICIÊNCIA

Essa é, talvez, a principal conclusão desta análise.

Não basta perguntar:

“Qual partido é maior?”

É preciso perguntar:

“Qual partido consegue ser mais eficiente eleitoralmente?”

Não basta perguntar:

“Quem tem mais candidatos conhecidos?”

É preciso perguntar:

“Essa força está produzindo votos suficientes para gerar mais cadeiras?”

Não basta perguntar:

“Quem está em quinto lugar?”

É preciso perguntar:

“Qual é a distância entre o quinto e o sexto? E qual é a votação coletiva das respectivas chapas?”

É nesse espaço aparentemente pequeno que uma eleição inteira pode mudar.

A CADEIRA QUE MUDA DE PARTIDO

Existe uma imagem que ajuda a entender tudo isso.

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Imagine que, na nossa fotografia atual, uma legenda esteja projetada para conquistar cinco cadeiras.

Durante a campanha, ela cresce.

Não precisa necessariamente dobrar sua votação.

Pode bastar um crescimento suficiente para alterar sua média e conquistar uma sexta cadeira.

Mas aquela sexta cadeira não surge do nada.

Ela precisa sair de algum lugar.

Outro partido perde a posição.

E é justamente por isso que uma pequena mudança na votação de uma legenda pode produzir um efeito muito maior na composição final da Câmara ou da Assembleia.

A eleição proporcional funciona como uma espécie de cadeia.

Uma cadeira entra de um lado e sai de outro.

E EXISTE O EFEITO DOMINÓ

Essa talvez seja a parte mais interessante.

Imagine que uma legenda conquiste uma cadeira adicional.

Isso altera a distribuição.

A legenda que estava logo abaixo pode perder uma posição.

Outra pode passar a disputar uma sobra.

Um candidato que estava fora pode entrar.

Outro que parecia eleito pode cair.

E a mudança continua.

Por isso, não devemos olhar apenas para quem está próximo de uma cadeira.

Precisamos olhar também para quem está próximo de produzir uma cadeira adicional para sua legenda.

É uma diferença pequena na aparência, mas enorme no resultado.

O QUE A SOBRETUDO VAI ACOMPANHAR

A partir das nossas projeções, a SOBRETUDO passa a observar quatro distâncias.

A distância entre o partido e a próxima cadeira.

A distância entre a última cadeira de uma chapa e o candidato que está logo atrás.

A distância entre duas legendas que disputam a mesma posição na distribuição.

E, principalmente:

a distância entre a fotografia atual e a votação necessária para que ela mude.

Esse é o verdadeiro termômetro da eleição proporcional.

Não basta dizer que alguém está “forte”.

Queremos saber:

forte o suficiente para quê?

Para ser o mais votado?

Para conquistar uma cadeira?

Para puxar outra?

Para garantir uma segunda?

Ou para tomar a última cadeira de outra legenda?

A GRANDE ARMADILHA DAS PESQUISAS

Pesquisas eleitorais são fundamentais para compreender o ambiente político.

Mas uma pesquisa de intenção de voto individual não entrega, sozinha, a composição final da eleição proporcional.

Porque o resultado depende da relação entre candidatos e legendas.

Um candidato pode crescer cinco pontos.

Mas o que isso representa para a votação coletiva da chapa?

Outro pode perder três.

Quanto isso muda a posição do partido?

Essa é a pergunta que raramente aparece nos levantamentos apresentados ao público.

A eleição proporcional não é uma pesquisa de nomes.

É uma equação.

VEREDITO SOBRETUDO

Depois de semanas olhando para partidos, candidatos e nominatas, chegamos a uma conclusão importante.

A eleição proporcional de 2026 será decidida não apenas por quem conseguir mais votos.

Será decidida por quem conseguir transformar melhor esses votos em cadeiras.

E isso muda completamente a maneira de acompanhar a campanha.

O candidato que hoje parece confortável pode estar sentado sobre uma cadeira que depende de uma sobra.

O partido que hoje parece distante pode estar a poucos milhares de votos de conquistar uma posição.

Uma nominata pode crescer e puxar uma cadeira.

Outra pode perder eficiência e entregar uma.

E o candidato que aparece fora da nossa fotografia pode entrar não porque tenha se tornado o mais votado do Estado, mas porque sua legenda encontrou a combinação matemática que faltava para transformar votos em representação.

É por isso que, daqui para frente, a SOBRETUDO não vai olhar apenas para quem está dentro das 56 cadeiras.

Vamos olhar para a distância entre as cadeiras.

Porque é ali que a eleição realmente está sendo disputada.

E talvez o resultado de outubro esteja escondido justamente nos poucos milhares de votos que hoje parecem não fazer diferença.

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