A nova Quaest produz uma tentação óbvia: olhar para os números de Gelson Merísio e concluir que ele encontrou o caminho para ocupar o espaço da esquerda em Santa Catarina.
Calma.
A pesquisa mostra que Merísio cresceu. Não mostra, porém, que ele tenha “reunido a esquerda”. Também não mostra que os seis pontos que ganhou tenham saído de João Rodrigues.
O que ela mostra é algo mais incômodo para João: a vantagem que parecia consolidada na segunda colocação praticamente desapareceu.
João caiu de 17% para 13%. Merísio subiu de 4% para 10%. A diferença, que era de 13 pontos, agora é de apenas três, dentro da margem de erro.
Isso não transforma Merísio no novo segundo colocado. Mas transforma João em um candidato que precisa explicar por que sua posição está deixando de ser confortável.
E essa talvez seja a informação mais importante da pesquisa.
O crescimento de Merísio ainda precisa ser decifrado
Há uma narrativa circulando de que a visita de Lula teria produzido o salto de Merísio.
É uma hipótese.
Mas transformar hipótese em fato é fazer da pesquisa uma coisa que ela não é.
Os números não identificam a origem dos votos. Não dizem que seis pontos de João migraram para Merísio. Não dizem que seis pontos vieram da esquerda. E não permitem afirmar que Lula tenha sido o responsável direto pelo crescimento.
O que se pode dizer é que Merísio ganhou exposição e passou a ter uma identidade política mais clara.
Isso importa.
Um candidato desconhecido precisa primeiro ser reconhecido. E Merísio ainda tem um problema considerável nesse aspecto: 60% dos entrevistados dizem não conhecê-lo.
Portanto, os 10% podem representar crescimento. Mas também podem representar apenas o início de um processo de conhecimento que ainda está longe de terminar.
É aí que começa a parte difícil para Merísio.
Ser o candidato de Lula organiza um campo político. Mas também coloca um teto possível para sua expansão em um Estado onde o presidente enfrenta forte rejeição eleitoral.
A pergunta não é apenas quanto Merísio consegue ganhar com Lula.
É quanto consegue ganhar apesar de Lula.
João tem um problema maior do que Merísio
A questão mais delicada da pesquisa não é saber se Merísio consegue chegar a 13%.
É entender por que João chegou aos 13%.
Até aqui, João ocupava um espaço relativamente confortável: era o principal nome da oposição e estava claramente à frente dos demais candidatos.
Agora, essa vantagem evaporou.
E isso acontece enquanto Jorginho Mello não apenas permanece na liderança, mas cresce de 50% para 54%.
Esse detalhe desmonta uma interpretação possível de que Merísio estaria simplesmente tornando a eleição mais competitiva contra o governador.
Não está.
Por enquanto, Merísio está tornando a disputa da oposição mais competitiva.
Essa é uma diferença enorme.
Jorginho ampliou sua vantagem. João perdeu espaço. Merísio ocupou parte do espaço disponível.
Se existe uma crise eleitoral revelada pela pesquisa, ela está muito mais na segunda posição do que na primeira.
O problema de João é político, não apenas numérico
João Rodrigues pode olhar para os 13% e dizer que continua em segundo.
É verdade.
Pode olhar para os três pontos de vantagem sobre Merísio e dizer que ainda está à frente.
Também é verdade.
Mas essa leitura seria confortável demais.
A questão política é outra: João perdeu a exclusividade do lugar de principal adversário de Jorginho.
E uma campanha precisa de um motivo para o eleitor escolher determinado candidato.
Se João não consegue transformar sua candidatura em uma referência clara de oposição, alguém ocupará esse espaço.
Merísio está tentando fazer exatamente isso.
A diferença é que Merísio já encontrou uma marca nacional para sua candidatura. João ainda precisa responder qual é a sua marca política capaz de produzir o mesmo efeito.
Não se trata de dizer que um está certo e outro está errado.
Trata-se de reconhecer que, numa eleição polarizada nacionalmente, identidade política também é ativo eleitoral.
E Merísio ganhou um ativo que não tinha.
O perigo da euforia de Merísio
Mas também seria um erro transformar os 10% em uma consagração.
Merísio ainda está longe de demonstrar que consegue atravessar a fronteira do eleitorado que já se identifica com Lula.
O desafio dele agora é maior do que crescer seis pontos.
É crescer sem ficar confinado ao campo que já está organizado em torno de Lula.
Se não conseguir, pode ter encontrado um eleitorado suficiente para ultrapassar João, mas insuficiente para transformar sua candidatura numa alternativa mais ampla.
Essa diferença é decisiva.
Porque chegar à segunda posição e construir uma candidatura competitiva são coisas diferentes.
E Jorginho agradece
Enquanto João e Merísio disputam o segundo lugar, Jorginho olha para uma situação bastante confortável.
Foi de 50% para 54%.
No segundo turno testado pela Quaest, aparece com 58% contra João e 66% contra Merísio.
Ou seja: a briga pelo segundo lugar não está, neste momento, ameaçando a liderança de Jorginho.
Ela pode até produzir o efeito contrário.
Quanto mais João e Merísio gastarem energia para provar quem é o verdadeiro adversário do governador, menos espaço sobra para construir uma alternativa ao próprio governador.
Esse talvez seja o paradoxo desta Quaest.
Merísio fez o movimento mais expressivo da pesquisa.
Mas quem mais se beneficia da briga que esse movimento provocou pode ser justamente quem está na frente.
A fotografia mudou
A pesquisa não autoriza dizer que haverá segundo turno.
Também não autoriza dizer que Merísio já capturou a esquerda ou que seus votos vieram de João.
Mas autoriza uma conclusão política bastante objetiva:
João Rodrigues deixou de ter uma posição confortável na eleição.
Merísio saiu de 4% para 10% e entrou no campo de visão do eleitorado.
João saiu de 17% para 13% e perdeu a gordura que tinha sobre o adversário.
Jorginho saiu de 50% para 54% e ampliou sua distância.
Portanto, a fotografia mudou em três direções diferentes.
O governador se fortaleceu. João enfraqueceu. Merísio ganhou espaço.
O erro seria olhar apenas para o crescimento de Merísio.
A notícia realmente importante da Quaest talvez seja outra:
pela primeira vez, João Rodrigues precisa disputar o direito de ser o principal adversário de Jorginho.
E, numa eleição, perder uma posição antes mesmo de perder o lugar na tabela pode ser o começo de um problema muito maior.




























