Jorginho e o primeiro turno: quando uma possibilidade começa a virar cenário
Há pesquisas que apenas registram uma liderança. E há pesquisas que começam a mudar a própria conversa sobre uma eleição.
A nova pesquisa do Instituto Veritá, divulgada neste sábado, faz parte da segunda categoria.
O levantamento ouviu 1.525 eleitores catarinenses entre 14 e 19 de setembro, tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Registrado na Justiça Eleitoral sob os números SC-02704/2026 e BR-09322/2026, o estudo apresenta Jorginho Mello com 66,1% dos votos válidos, contra 17,2% de João Rodrigues e 13,4% de Gelson Merísio.
O número, por si só, já seria expressivo. Mas ele ganha outra dimensão quando colocado ao lado das pesquisas realizadas nas últimas semanas.
A Real Time Big Data, com campo entre 12 e 16 de setembro, encontrou Jorginho com 64% dos votos válidos. João Rodrigues apareceu com 20% e Merísio com 11%. No cenário estimulado, antes da conversão para votos válidos, Jorginho tinha 49%, contra 15% de João e 8% de Merísio.
Poucos dias antes, a AtlasIntel havia encontrado Jorginho com 51,6% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 18,5% de João Rodrigues e 17,6% de Merísio.
São metodologias diferentes, amostras diferentes e períodos de campo diferentes. Portanto, não se deve transformar os números em uma média matemática nem tratar percentuais de votos válidos e intenção estimulada como se fossem exatamente a mesma coisa.
Mas existe algo que pode ser observado independentemente dessas diferenças metodológicas: Jorginho aparece isolado na liderança em todos esses levantamentos recentes e com uma vantagem muito ampla sobre os demais candidatos.
É isso que começa a alterar o debate eleitoral.
A pergunta já não é apenas quem está na frente.
A pergunta passa a ser: há tempo e espaço eleitoral suficientes para que os adversários impeçam uma vitória no primeiro turno?
Essa é uma questão diferente.
Não significa dizer que a eleição está decidida. Pesquisa eleitoral não é resultado de urna. O cenário pode mudar, campanhas podem ganhar ou perder força, fatos novos podem interferir na percepção do eleitor e ainda existe uma parcela do eleitorado que pode mudar de posição.
Mas também não seria correto tratar a possibilidade de primeiro turno como algo meramente especulativo.
Quando um levantamento encontra 64% dos votos válidos para um candidato e, poucos dias depois, outro encontra 66,1%, estamos diante de duas pesquisas diferentes apontando para o mesmo fenômeno: Jorginho está acima da metade dos votos válidos nas fotografias mais recentes da eleição.
E existe uma diferença importante entre estar acima de 50% em uma pesquisa e estar próximo desse patamar.
Acima de 50% dos votos válidos significa que, se aquele cenário fosse reproduzido nas urnas, não haveria segundo turno. A legislação eleitoral estabelece que, para governador, vence no primeiro turno quem obtiver a maioria absoluta dos votos válidos.
Portanto, quando uma pesquisa apresenta Jorginho com 64% ou 66,1% dos votos válidos, não estamos falando simplesmente de uma vantagem confortável sobre o segundo colocado. Estamos falando de um cenário matematicamente suficiente para uma vitória no primeiro turno.
É claro que existe uma diferença entre ter votos suficientes para vencer no primeiro turno na fotografia da pesquisa e estar garantido para vencer no primeiro turno.
A primeira afirmação é matemática.
A segunda seria uma previsão, e pesquisas não autorizam essa conclusão.
Essa distinção é fundamental.
O que os números permitem dizer hoje é que o primeiro turno entrou definitivamente no radar da eleição catarinense.
E isso também muda a estratégia de quem está atrás.
Se a liderança estivesse apertada, a disputa seria essencialmente pelo primeiro lugar. Quando um candidato aparece muito acima dos demais e acima da marca de 50% dos votos válidos, a lógica muda: os adversários precisam não apenas crescer, mas crescer o suficiente para retirar do líder a maioria necessária para uma definição imediata.
Em outras palavras, a disputa deixa de ser simplesmente para alcançar Jorginho.
Passa a ser, antes de tudo, para impedir que ele ultrapasse a barreira necessária para encerrar a eleição no primeiro turno.
Essa diferença é importante para entender o momento.
Também ajuda a explicar por que ataques, acusações e disputas pelo segundo lugar podem ter um efeito limitado se não forem acompanhados de uma capacidade real de alterar o quadro eleitoral. Uma eleição em que o primeiro colocado está próximo dos 30% é uma eleição. Outra, em que o líder aparece com aproximadamente dois terços dos votos válidos em pesquisas sucessivas, é outra completamente diferente.
E há um dado político ainda mais relevante.
Na pesquisa Real Time, além dos 64% dos votos válidos, Jorginho aparece com 57% contra 26% de João Rodrigues em uma simulação de segundo turno e 66% contra 18% diante de Merísio.
Ou seja, mesmo quando o instituto retira a possibilidade de primeiro turno e apresenta cenários de segundo turno, a vantagem permanece ampla.
Isso não significa que os números de segundo turno possam ser somados aos do primeiro ou usados como previsão. São perguntas diferentes.
Mas ajudam a dimensionar a fotografia atual: o governador não aparece apenas liderando a corrida de primeiro turno. Ele também aparece com vantagem expressiva nos cenários de segundo turno testados pelo instituto.
O eleitor, portanto, precisa olhar para as pesquisas com equilíbrio.
Não há razão para transformar levantamento em resultado antecipado. Mas também não há razão para ignorar uma tendência que aparece repetidamente.
Hoje, o dado mais importante da eleição para o Governo de Santa Catarina não é a diferença entre o segundo e o terceiro colocados.
É a distância entre o primeiro e todos os demais.
E essa distância é grande.
Muito grande.
A nova pesquisa Veritá não encerra a eleição. Mas reforça uma possibilidade que, a esta altura, já precisa ser tratada como parte central da análise: Jorginho pode vencer no primeiro turno.
O que ainda está em aberto é se os adversários conseguirão produzir uma mudança de magnitude suficiente para impedir isso.
Essa é a verdadeira disputa que os números colocam na mesa.
Não se trata de declarar vencedor antes da hora.
Trata-se de reconhecer o que as pesquisas estão dizendo.
Hoje, o primeiro turno não é apenas uma possibilidade matemática. É um cenário eleitoral concreto.
E quanto mais pesquisas apontarem nessa direção, maior será a importância de acompanhar não apenas quem cresce ou cai, mas principalmente se alguém conseguirá reduzir a distância necessária para levar a eleição ao segundo turno.
Porque, neste momento, a pergunta central da eleição catarinense parece ser menos quem vai chegar ao segundo turno e cada vez mais quem conseguirá impedir que ele aconteça.





























