Mal começou a campanha eleitoral em Santa Catarina e uma velha fórmula já começa a aparecer novamente: atacar o adversário, levantar acusações, explorar contradições e transformar cada episódio em munição política. A proposta, muitas vezes, fica para depois. É como se parte das campanhas ainda estivesse seguindo uma cartilha escrita em outro tempo, quando televisão, rádio e comícios concentravam a comunicação e o eleitor recebia a política de maneira muito mais passiva.
A pergunta que fica é simples: por que é tão difícil apresentar propostas sem precisar desconstruir alguém?
Ataque eleitoral é uma ferramenta antiga. Pode funcionar para mobilizar quem já está convencido, provocar a militância, gerar repercussão nas redes e manter a própria torcida em campo. O problema começa quando a estratégia passa a ser confundida com convencimento. Fazer barulho não é necessariamente convencer. Produzir engajamento não significa conquistar voto.
E talvez esteja aí uma das maiores mudanças do eleitor.
O eleitor de hoje recebe informação de todos os lados, compara versões, assiste a um vídeo de poucos segundos, pesquisa um assunto, pula para outro e, principalmente, está menos disposto a aceitar que uma campanha diga apenas quem é o inimigo. Ele quer saber o que será feito quando a eleição terminar.
Saúde. Segurança. Educação. Infraestrutura. Emprego. Impostos. Gestão pública. Desenvolvimento. São problemas reais, que não desaparecem porque uma campanha conseguiu transformar o adversário no assunto principal do dia.
Mesmo assim, a velha estratégia continua.
E existe uma explicação para isso. O Fla x Flu político é confortável. É simples. Divide o mundo entre nós e eles, bons e maus, certos e errados. Para quem já escolheu um lado, é combustível. Para a militância, é estímulo. Para as redes sociais, muitas vezes, é conteúdo que provoca reação.
Mas eleição não é torcida organizada.
Uma campanha pode passar semanas comemorando que seus apoiadores estão indignados com o adversário e, ainda assim, não conseguir responder à pergunta mais importante: por que o eleitor que ainda não decidiu deveria escolher esse candidato?
É nesse ponto que a estratégia começa a parecer defasada.
Não porque a crítica ao adversário tenha deixado de fazer parte da política. É legítimo confrontar ideias, questionar decisões, apresentar fatos, cobrar resultados e mostrar diferenças. Democracia pressupõe confronto. O problema é quando o confronto substitui o conteúdo.
Quando a campanha sabe mais sobre o que o adversário fez de errado do que sobre o que pretende fazer certo, alguma coisa está fora do lugar.
Talvez os estrategistas estejam olhando demais para as redes e de menos para o eleitor. Afinal, uma postagem que provoca milhares de comentários pode ser um sucesso de comunicação dentro da bolha e, ao mesmo tempo, não mudar absolutamente nada na decisão de quem está fora dela.
A política descobriu há algum tempo que a indignação gera audiência. Agora precisa descobrir que audiência e voto são coisas diferentes.
Santa Catarina ainda terá uma longa campanha pela frente. Haverá tempo para propostas, debates, confrontos e explicações. Mas o início já oferece uma oportunidade de reflexão para quem pensa as campanhas: será que ainda estamos tentando conquistar o eleitor ou apenas animar a nossa própria torcida?
Porque o eleitor pode até assistir ao Fla x Flu.
Mas, na hora de escolher quem vai administrar o Estado, ele pode estar procurando outra coisa.
Pode estar procurando alguém que fale menos do adversário e mais sobre o futuro.
A velha cartilha continua sendo usada. A pergunta é se o eleitor de 2026 ainda quer lê-la.



























