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SOBRETUDO Duas pesquisas, dois retratos: o que o eleitor precisa entender

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Duas pesquisas divulgadas com poucos dias de diferença colocaram uma pergunta importante na mesa da eleição para o Governo de Santa Catarina: afinal, o que está acontecendo com o eleitorado?

A pergunta ganhou força principalmente por causa de Gelson Merísio. Na pesquisa AtlasIntel, realizada entre 4 e 9 de setembro, ele apareceu com 17,6% das intenções de voto, praticamente empatado com João Rodrigues, que tinha 18,5%. Jorginho Mello aparecia com 51,6%.

Poucos dias depois, uma nova pesquisa, desta vez do Real Time Big Data, realizada entre 12 e 16 de setembro, apresentou outro retrato: Jorginho com 49%, João Rodrigues com 15% e Merísio com 8%. Foram 1.600 entrevistados, com margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de confiança.

É aí que começa a dúvida do eleitor.

Jorginho variou 2,6 pontos entre os levantamentos. João, 3,5 pontos. Merísio, 9,6 pontos. Por que uma diferença tão grande para um candidato e tão menor para os outros?

A primeira coisa a entender é que a margem de erro não explica sozinha essa diferença. A Atlas trabalhou com margem de três pontos, enquanto a Real Time trabalhou com dois. São margens relativamente próximas, mas nenhuma delas explica, isoladamente, uma distância de quase dez pontos entre os resultados de Merísio.

Isso, porém, também não significa que Merísio tenha necessariamente perdido 9,6 pontos em poucos dias.

Essa é uma distinção importante.

Pesquisa eleitoral é uma estimativa feita a partir de uma amostra. Não é uma contagem de todos os eleitores. E duas pesquisas podem utilizar amostras diferentes, métodos diferentes de coleta, momentos diferentes e procedimentos estatísticos diferentes para representar o eleitorado.

A AtlasIntel, por exemplo, informa utilizar tecnologia própria de coleta de dados e pós-estratificação da amostra. O levantamento catarinense teve 1.211 entrevistados e margem de erro de três pontos. A Real Time Big Data ouviu 1.600 eleitores entre 12 e 16 de setembro, por abordagens eletrônicas e digitais, com margem de erro de dois pontos.

Pense em duas fotografias de uma mesma praça. Uma foi tirada de um lado e outra do lado oposto. Ambas podem ser verdadeiras, mas não necessariamente mostram exatamente as mesmas pessoas, na mesma posição e no mesmo momento.

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É mais ou menos isso que acontece com pesquisas diferentes.

E há um detalhe ainda mais importante. Os eleitores de cada candidato não estão distribuídos de maneira idêntica pelo estado. Se a composição da amostra muda, mesmo dentro dos critérios estatísticos de representatividade, o impacto sobre cada candidatura também pode ser diferente.

Isso pode ajudar a explicar por que Jorginho e João apresentaram oscilações menores enquanto Merísio apareceu com uma variação maior.

Mas atenção: pode ajudar a explicar não significa que esteja comprovado que foi isso que aconteceu.

Também existe a possibilidade de que o cenário tenha mudado entre os períodos de campo. A Atlas terminou suas entrevistas em 9 de setembro. A Real Time começou três dias depois e terminou em 16. Em campanha eleitoral, acontecimentos políticos, exposição na mídia, propaganda e movimentações de candidatos podem produzir mudanças.

Mas, novamente, não há como afirmar, apenas comparando esses dois levantamentos, que Merísio efetivamente perdeu 9,6 pontos.

Há ainda um terceiro dado que recomenda cautela.

A pesquisa Neokemp, encerrada em 11 de setembro, encontrou Jorginho com 51,2%, João Rodrigues com 24% e Merísio com 15,1%. Ou seja, temos três fotografias recentes e três resultados diferentes para a mesma disputa.

Isso não permite simplesmente escolher a pesquisa que mais agrada ou a que confirma determinada narrativa.

Permite, sim, perceber que existe uma divergência relevante entre os levantamentos, especialmente na disputa pela segunda colocação.

E existe outro dado que ajuda a entender a dimensão dessa incerteza. Na pesquisa Real Time, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, Merísio aparece com 4%. Na pesquisa estimulada, quando os nomes são apresentados, vai a 8%. João passa de 8% na espontânea para 15% na estimulada, enquanto Jorginho passa de 22% para 49%. Além disso, 56% dos entrevistados não souberam ou não responderam na pergunta espontânea.

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Isso mostra que uma coisa é o eleitor lembrar espontaneamente de um candidato. Outra é escolher um nome quando todos são apresentados.

É justamente por isso que o eleitor precisa tomar cuidado com frases como “fulano cresceu dez pontos” ou “fulano despencou dez pontos” baseadas na comparação de pesquisas diferentes.

Talvez tenha acontecido uma mudança real. Talvez parte da diferença venha das características das amostras. Talvez exista uma combinação dos dois fatores. Com esses levantamentos, isoladamente, não é possível separar exatamente uma coisa da outra.

E essa talvez seja a principal lição.

Pesquisa não é resultado de eleição. É uma fotografia estatística de um determinado momento.

Quanto mais pesquisas comparáveis são feitas ao longo do tempo, mais condições existem para identificar uma tendência. Uma sequência de levantamentos com metodologia semelhante dizendo a mesma coisa é muito mais informativa do que uma comparação isolada entre institutos diferentes.

Para o eleitor catarinense, portanto, há fatos que aparecem com mais consistência e fatos que ainda precisam de acompanhamento.

Jorginho aparece na liderança nos dois levantamentos mais recentes, com 51,6% na Atlas e 49% na Real Time. João aparece com 18,5% e 15%, respectivamente. Já a situação de Merísio apresenta uma divergência muito maior: 17,6% em um levantamento e 8% no outro.

O que esses números não permitem afirmar, sozinhos, é que Merísio tenha perdido efetivamente 9,6 pontos do eleitorado em poucos dias.

Essa diferença precisa ser observada nas próximas pesquisas.

E talvez essa seja a melhor forma de o eleitor olhar para qualquer levantamento: não perguntar apenas “quem está na frente?”, mas também como a pesquisa foi feita, quando foi feita, quantas pessoas foram ouvidas e se outros levantamentos confirmam aquela fotografia.

No fim, pesquisas ajudam a compreender uma eleição. Não substituem a escolha.

Porque pesquisa mede intenção.

Quem decide é o eleitor.

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