A nova pesquisa AtlasIntel muda uma coisa importante na eleição de Santa Catarina. Não muda o líder. Não transforma a disputa pelo Governo em uma eleição apertada. Mas muda a fotografia logo atrás de Jorginho Mello.
E, em política, isso pode ser suficiente para mudar o comportamento dos candidatos, dos partidos e, principalmente, das lideranças que ainda estão escolhendo onde colocar suas fichas.
Jorginho aparece com 51,6%, João Rodrigues com 18,5% e Gelson Merisio com 17,6%. A diferença entre João e Merisio é de apenas 0,9 ponto, dentro da margem de erro de três pontos. Em março, pelo mesmo instituto, João tinha 21,4% e Merisio 13,8%. A distância que era de 7,6 pontos praticamente desapareceu.
A pergunta que a pesquisa coloca, portanto, não é se Jorginho está na frente. Isso está claro.
A pergunta é outra: quem será reconhecido pelo eleitor como o principal adversário do governador?
Jorginho está em outro patamar
Antes de olhar para a briga pelo segundo lugar, é preciso entender o tamanho da vantagem de Jorginho.
O governador chega a 55,5% dos votos válidos. Nos cenários de segundo turno, vence João por 55,1% a 32,4% e Merisio por 62,6% a 24,2%.
Há ainda outro dado importante: 60% aprovam sua administração e 55,5% dizem que ele merece um novo mandato.
Portanto, seria exagero interpretar a pesquisa como uma ameaça à liderança de Jorginho.
Hoje, o governador disputa a manutenção de uma vantagem. João e Merisio disputam a possibilidade de construir uma eleição.
E são jogos completamente diferentes.
A segunda disputa
O dado mais politicamente relevante está na comparação entre João e Merisio.
João caiu 2,9 pontos desde março. Merisio cresceu 3,8. Não é apenas uma diferença numérica. É uma mudança de percepção possível.
João vinha sendo tratado como o adversário natural de Jorginho. Essa condição lhe dava algo que nenhuma pesquisa consegue medir diretamente: a sensação de competitividade.
Merisio agora está suficientemente perto para colocar essa condição em dúvida.
E eleição majoritária depende muito de percepção.
Prefeitos, vereadores, candidatos a deputado e lideranças locais não olham apenas para quem está em segundo. Olham para quem parece ter condições de chegar ao primeiro.
O paradoxo de Merisio
Merisio cresceu, mas a pesquisa também mostra seu principal problema: ele é o mais rejeitado entre os três principais candidatos.
Tem 32,2% de rejeição, contra 27,6% de Jorginho e apenas 15,2% de João.
Isso significa que o empate pelo segundo lugar não representa necessariamente igualdade de potencial.
Merisio tem mais movimento.
João tem mais espaço para crescer.
E há um dado que reforça essa diferença: em um segundo turno sem Jorginho, João vence Merisio por 54,6% a 17,8%.
Ou seja, o eleitor que hoje coloca os dois quase lado a lado no primeiro turno não necessariamente os enxerga como equivalentes em uma disputa direta.
Essa é uma informação importante para os dois lados.
Três cenários possíveis
O primeiro cenário é o da consolidação de Jorginho. Se a avaliação positiva do governo continuar sustentando sua candidatura e a oposição permanecer dividida, a eleição pode caminhar para uma vitória no primeiro turno. Com 51,6% nas intenções e 55,5% dos votos válidos, essa possibilidade não pode ser ignorada.
O segundo é o da reação de João. Se a grande aliança construída por PSD, MDB e Federação União Progressista começar a funcionar efetivamente nos municípios, João pode recuperar terreno. O tamanho de sua rejeição mostra que existe espaço para crescimento. Mas ele precisa transformar estrutura partidária em percepção de competitividade rapidamente.
O terceiro é o cenário que hoje mais mexe com o tabuleiro: Merisio ultrapassar João. Não significa necessariamente que ele tenha condições de vencer Jorginho. Mas mudaria a narrativa da eleição. O candidato que hoje é apresentado como principal adversário deixaria de ter essa exclusividade. E isso poderia provocar movimentos políticos muito antes de qualquer mudança significativa nas pesquisas.
O verdadeiro alerta para João
Por isso, talvez o número mais importante para João não seja os 18,5%.
É a distância de 0,9 ponto para Merisio.
Porque João precisa convencer o eleitor de que pode vencer Jorginho. Mas, antes disso, precisa convencer aliados e lideranças de que continuará sendo o principal nome da oposição.
Sua aliança é grande. Tem PSD, MDB, Federação União Progressista, prefeitos, vereadores, candidatos proporcionais e dois candidatos ao Senado.
Mas uma aliança política começa a valer muito mais quando seus integrantes acreditam que aquela candidatura é competitiva.
Se João voltar a abrir distância, fortalece sua posição.
Se Merisio passar à frente, mesmo por pouco, a conversa muda.
E Jorginho?
O governador pode assistir a essa disputa com relativa tranquilidade.
Quanto mais João e Merisio dividirem o espaço de oposição, menor a possibilidade de um único adversário concentrar o voto contrário ao governo.
Essa é uma das maiores vantagens de quem lidera com folga: os outros precisam correr atrás uns dos outros antes de correr atrás dele.
Jorginho, por enquanto, tem o cenário que qualquer candidato à reeleição gostaria de ter: liderança elevada, aprovação positiva e adversários disputando entre si a condição de principal alternativa.
Sobretudo, a AtlasIntel não anuncia uma reviravolta na eleição de Santa Catarina.
Ela revela algo talvez mais interessante: a eleição ganhou uma segunda disputa.
Jorginho continua olhando para a frente.
João e Merisio agora precisam olhar um para o outro.
E existe uma diferença enorme entre ser o segundo colocado e ser reconhecido como o candidato que pode derrotar o primeiro.
Nas próximas semanas, essa percepção pode valer tanto quanto alguns pontos na pesquisa.
Porque, em eleição majoritária, voto puxa voto.
Mas competitividade também.

























