A disputa pelo Senado em Santa Catarina ganhou um novo ingrediente justamente quando a campanha entrou em sua fase mais decisiva: Esperidião Amin e Carlos Bolsonaro decidiram colocar um ao outro no centro da campanha.
E talvez o mais interessante dessa briga não esteja naquilo que os dois dizem um sobre o outro, mas no efeito que um está produzindo sobre o eleitor do outro.
Carlos atacou Amin, inicialmente sem sequer precisar citar diretamente seu nome. Amin respondeu de forma direta, colocando Carlos no centro da resposta e cobrando sua presença nos debates.
A discussão cresceu.
E aqui aparece uma questão que merece atenção: ao responder a Carlos, Amin também pode estar ajudando Carlos a chegar justamente a um eleitor que ainda não prestava atenção nele.
É o velho efeito colateral da política: quando você coloca seu adversário no centro da sua comunicação, você também ajuda a apresentá-lo.
Carlos precisava ser conhecido
Esse talvez seja o ponto mais importante da discussão.
Carlos Bolsonaro já possui um sobrenome nacionalmente conhecido. Mas isso não significa que todo eleitor catarinense conheça sua candidatura, sua trajetória política ou tenha decidido colocá-lo entre suas duas escolhas para o Senado.
A pesquisa Quaest divulgada nesta semana mostra exatamente o tamanho do espaço ainda aberto.
Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, 71% dos entrevistados não sabem ou ainda não decidiram em quem votar. Carlos aparece com 5%, enquanto Amin tem 7%. (Gazeta do Povo)
Na estimulada, com os nomes apresentados, Carol de Toni aparece com 17%, Carlos Bolsonaro com 16% e Amin com 15%. Os três estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais. (UOL Notícias)
Isso significa que existe uma enorme distância entre conhecer um nome e ter decidido votar nele.
E a briga pode justamente diminuir essa distância para Carlos.
O eleitor de Amin também passa a olhar para Carlos
Imagine um eleitor que vinha acompanhando Amin, mas não tinha Carlos Bolsonaro como uma de suas opções.
Carlos faz um ataque.
Amin responde.
O eleitor de Amin, que talvez não tivesse motivo para procurar informações sobre Carlos, passa a ouvir o nome, conhecer seus argumentos, entender que ele é candidato ao Senado e perceber que existe uma disputa direta entre os dois.
A partir daí, pode simplesmente continuar com Amin.
Mas também pode pensar:
“Quem é esse Carlos?”
“Será que ele representa melhor aquilo que eu penso?”
“Será que posso votar nos dois?”
E essa última pergunta é especialmente importante.
São duas vagas para o Senado.
Carlos não precisa necessariamente tirar todo o eleitor de Amin.
Basta conseguir entrar na segunda escolha de uma parcela dele.
É aí que a briga pode se tornar eleitoralmente interessante.
Carlos pode ganhar mesmo sem Amin perder tudo
Essa é talvez a sutileza mais importante dessa disputa.
Carlos pode crescer sem necessariamente provocar uma migração integral de votos de Amin.
Um eleitor que hoje pensa em Amin e outro candidato pode passar a pensar em Amin e Carlos.
Outro pode trocar Amin por Carlos.
Outro pode simplesmente colocar Carlos entre suas opções.
Portanto, o ganho de Carlos não precisa ser proporcional à perda de Amin.
E isso torna a resposta de Amin ainda mais delicada.
Ao responder diretamente, Amin impede que o ataque fique sem resposta. Politicamente, isso é compreensível.
Mas, ao mesmo tempo, ele concede a Carlos algo que todo candidato procura na reta final de uma eleição: atenção.
E Carlos também está dando algo a Amin
A conta não é unilateral.
Amin também está ganhando exposição.
Carlos colocou em discussão a trajetória, as votações e o posicionamento de Amin. Amin respondeu levando a conversa para sua experiência, sua relação com Santa Catarina e sua disposição de participar dos debates.
No debate da NSC TV, realizado na sexta-feira, Amin esteve presente e voltou a criticar a ausência de Carlos. A ausência virou assunto entre os candidatos presentes. (NSC Total)
Amin, portanto, também conseguiu transformar a briga em uma oportunidade para reforçar sua própria narrativa.
O problema é que os dois podem estar fazendo isso ao mesmo tempo.
Carlos apresenta-se ao eleitor de Amin. Amin apresenta-se como o adversário que Carlos precisa enfrentar.
Quem está levando vantagem?
Não há como dizer que a briga já produziu um vencedor eleitoral.
A pesquisa mais recente foi realizada entre 20 e 23 de setembro, antes dos acontecimentos mais recentes, e portanto não mede o efeito da troca de ataques. (UOL Notícias)
Mas, no campo da comunicação, há uma diferença.
Carlos conseguiu provocar Amin. Amin conseguiu responder. Mas, ao responder, Amin também ampliou a exposição de Carlos.
Esse é o paradoxo da disputa.
Carlos precisava de atenção.
Amin precisava se defender.
Os dois conseguiram o que queriam em alguma medida.
Mas Carlos pode ter conseguido uma vantagem adicional: passou a ser apresentado ao eleitor de Amin pelo próprio adversário.
E é aí que entra Carol de Toni
Existe ainda um terceiro elemento que torna essa disputa mais delicada.
Enquanto Amin e Carlos concentram energia um no outro, Carol de Toni aparece numericamente à frente na pesquisa mais recente, com 17%, contra 16% de Carlos e 15% de Amin. Os três, entretanto, estão tecnicamente empatados. (UOL Notícias)
Não é possível afirmar que a briga entre Amin e Carlos esteja beneficiando Carol.
Também não seria correto atribuir qualquer movimento da pesquisa ao confronto, já que o levantamento terminou antes da escalada mais recente da discussão.
Mas existe um risco político evidente.
Enquanto dois candidatos disputam entre si a atenção do mesmo eleitor, um terceiro pode permanecer menos exposto ao desgaste desse confronto.
E isso, numa eleição em que os dois primeiros colocados serão eleitos, torna a disputa ainda mais imprevisível.
A pergunta que fica
Amin precisava responder a Carlos?
Provavelmente, do ponto de vista político, deixar um ataque sem resposta também teria um custo.
Mas a questão não é essa.
A questão é o que acontece depois da resposta.
Porque toda vez que Amin fala de Carlos, mais eleitores de Amin têm contato com Carlos.
E toda vez que Carlos fala de Amin, mais eleitores de Carlos têm contato com Amin.
A briga, portanto, pode estar aproximando os dois do eleitor que ainda não havia escolhido nenhum deles.
E existe uma possibilidade particularmente interessante: parte do eleitor de Amin pode passar a considerar Carlos não para substituir Amin, mas para ocupar a segunda vaga.
É uma hipótese, não um fato comprovado.
Mas é uma hipótese que merece ser observada.
Porque, numa eleição para duas cadeiras, o adversário não precisa necessariamente tomar o seu voto. Às vezes, basta conseguir o segundo voto do seu eleitor.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro risco para Amin.
A briga que ele travou para se defender pode estar, ao mesmo tempo, ajudando Carlos Bolsonaro a se apresentar para uma parcela do eleitor catarinense que ainda não havia parado para olhar para ele.
No fim, talvez a pergunta não seja quem ganhou a discussão.
A pergunta é quem conseguiu transformar a discussão em voto.
E essa resposta só aparecerá quando houver uma pesquisa feita depois da briga.



























