O governador Mauro Mendes (União) causou polêmica ao afirmar que não é doloroso para uma mulher vítima de violência doméstica em Várzea Grande atravessar a ponte até Cuiabá para registrar um boletim de ocorrência. A declaração foi feita nesta quinta-feira (25), durante entrevista à imprensa, no evento de assinatura de um protocolo entre o Governo do Estado, o Tribunal de Justiça e o Ministério Público, que promete reforçar as ações de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher em Mato Grosso.
A fala de Mendes gerou repercussão imediata, pois mexe diretamente com uma questão sensível e amplamente debatida e na dificuldade e no sofrimento enfrentados diariamente por mulheres em situação de vulnerabilidade. O evento, embora marcado por promessas de reforço nas políticas de proteção, acabou sendo ofuscado pelo impacto das palavras do governador, que provocaram críticas e debates sobre a percepção do governo em relação às vítimas de violência doméstica.
Ao justificar por que a Delegacia da Mulher de Várzea Grande não funcionará 24 horas, o governador afirmou que a distância não pode ser um problema para efetuar a denúncia.
“Não é muito doloroso sair de Várzea Grande e vir para Cuiabá. Nós estamos em um Estado muito grande, o governo não consegue manter uma delegacia 24 horas em todos os municípios. Seriam necessários quase 700 delegados, e isso tem um custo muito alto para a sociedade. Por isso precisamos de razoabilidade”, revelou.
Mendes defendeu que, além das unidades físicas, as vítimas de violência podem recorrer à Delegacia Virtual e a outros canais de denúncia que acionam a Patrulha Maria da Penha. A justificativa, porém, esbarra na dura realidade. Em agosto, a major Raíssa Helena, responsável pela Patrulha em Várzea Grande, revelou que 146 medidas protetivas estavam ativas, com visitas constantes às famílias — um cenário que já evidencia a sobrecarga do atendimento.
Enquanto o governo fala em “razoabilidade de custos”, mulheres que buscam proteção em Várzea Grande continuam limitadas a uma delegacia que funciona apenas em horário comercial, de segunda a sexta-feira. Nos demais períodos, a alternativa é atravessar a ponte até Cuiabá, enfrentando deslocamentos e inseguranças adicionais.
O evento também expôs outra fragilidade grave como a estrutura de monitoramento eletrônico de agressores. O sistema, que integra tornozeleiras e botões de pânico em tempo real, opera atualmente com apenas dois técnicos em plantão. Questionado sobre a precariedade da equipe, Mendes minimizou o atual cenário.
“Se hoje são duas pessoas, é porque a demanda pede duas. Se houver necessidade de mais, vamos cobrar dos secretários e ampliar. Isso precisa vir de avaliação técnica”, afirmou.
O contraste entre a retórica oficial e a realidade das vítimas reforça a sensação de descaso e deixa claro que, para muitas mulheres, a proteção ainda é limitada e vulnerável.
Os desafios enfrentados pelas mulheres em Várzea Grande se mostram ainda mais graves diante dos números alarmantes de violência. Este ano, Mato Grosso já registrou 39 feminicídios, contra 47 no ano passado, evidenciando que, apesar das promessas e justificativas do governo, a proteção efetiva ainda é limitada. Entre restrições de horários, sobrecarga da Patrulha Maria da Penha e estrutura precária no monitoramento eletrônico, muitas vítimas seguem expostas, deixando claro que a retórica ainda precisa se traduzir em resultados concretos.




































