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O debate mostrou uma eleição que começa a sair do discurso e entrar na realidade

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O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Santa Catarina, realizado nesta segunda-feira pelo SCC SBT, teve uma característica que merece ser observada com atenção: pela primeira vez, os principais nomes da disputa estiveram frente a frente durante um longo período, obrigados a responder perguntas, apresentar propostas e, principalmente, reagir aos ataques dos adversários.

Jorginho Mello, João Rodrigues, Gelson Merísio e Ralf Zimmer ocuparam espaços diferentes no debate. E talvez essa seja a principal leitura do encontro: mais do que mudar o cenário eleitoral, o debate ajudou a mostrar qual é o caminho que cada campanha pretende seguir daqui para frente.

Jorginho entrou no debate na condição de governador e candidato à reeleição. Por isso, sua estratégia foi essencialmente a defesa da gestão. Universidade Gratuita, Estrada Boa e Estrada Boa Rural apareceram como vitrines de um governo que pretende transformar a eleição em uma discussão sobre resultados e continuidade.

João Rodrigues fez o movimento contrário. Em vez de aceitar a narrativa de continuidade, procurou questionar os resultados apresentados pelo governo e mostrar problemas que, na sua visão, permanecem sem solução.

O momento mais emblemático dessa disputa aconteceu justamente em torno do Estrada Boa Rural.

Jorginho perguntou se João manteria o programa. João respondeu questionando os números apresentados pelo governo, citando problemas em rodovias do Oeste e defendendo que os prefeitos possam optar, em determinadas situações, por receber recursos ou máquinas para executar as melhorias.

Ali ficou evidente que a disputa entre os dois tende a passar cada vez mais por uma pergunta simples: o que Santa Catarina deve continuar fazendo e o que precisa mudar?

Não é uma discussão menor.

Para quem está no governo, a eleição é naturalmente uma oportunidade de mostrar o que foi entregue. Para quem está na oposição, é a oportunidade de dizer que aquilo que foi feito não foi suficiente, que existem problemas e que há uma maneira diferente de administrar.

O eleitor é quem terá de separar uma coisa da outra.

Outro tema que produziu uma diferença objetiva foi o saneamento.

João defendeu a privatização da Casan como alternativa para melhorar os índices de saneamento. Jorginho respondeu que não pretende privatizar a companhia e falou em parcerias com a iniciativa privada.

Aqui apareceu uma diferença de concepção que interessa muito mais ao eleitor do que uma simples troca de acusações: qual modelo de saneamento Santa Catarina deve adotar nos próximos anos?

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É esse tipo de discussão que deveria ocupar cada vez mais espaço na campanha.

Merísio, por sua vez, tentou explorar outro flanco. Cobrou de Jorginho uma relação mais madura com o governo federal e defendeu a necessidade de articulação política para buscar recursos para Santa Catarina.

A crítica faz parte da estratégia do candidato, mas o debate também mostrou que a discussão sobre Brasília continuará inevitavelmente presente na eleição estadual.

Até porque Santa Catarina não vive isolada do restante do país.

Rodovias federais, portos, saneamento, infraestrutura, saúde, segurança e investimentos dependem, em diferentes graus, da relação entre o Estado e a União.

Ralf Zimmer tentou construir uma posição diferente. Falou em independência das alianças nacionais, criticou a dependência política de Brasília e defendeu mais tecnologia na segurança pública, com câmeras e valorização salarial dos policiais, ao mesmo tempo em que afirmou não pretender ampliar os efetivos por meio de novos concursos.

Foi também quem levou para o debate uma frase que resume uma preocupação legítima, ainda que a conclusão seja dele: Santa Catarina precisa aumentar sua capacidade de negociação com Brasília.

É uma discussão que merece ser feita independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.

O debate também mostrou que a eleição continua personalista

Nem tudo, porém, conseguiu escapar da velha política.

A discussão sobre a secretária de Turismo, Catiane Seif, foi um exemplo. João Rodrigues aproveitou a pergunta para criticar a escolha de Jorginho, enquanto o governador defendeu sua secretária e as entregas da pasta.

Merísio também explorou gastos com publicidade para questionar as prioridades do governo e criticou a educação catarinense. Nesse caso, é importante separar discurso eleitoral de indicador objetivo: enquanto o candidato classificou a situação da educação como ruim, os dados oficiais do Ideb 2025 registraram avanço em todas as etapas da educação básica em Santa Catarina.

Essa talvez seja uma das grandes contribuições de um debate eleitoral: permitir que as afirmações sejam confrontadas com os fatos.

Não basta dizer que a educação está ruim. É preciso mostrar em que indicador, em que área, em comparação com qual período.

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Não basta dizer que uma estrada foi entregue. É preciso saber quantos quilômetros, onde, em que condições e qual foi o investimento.

Não basta prometer privatização. É preciso explicar como, quando, quanto custa e quais resultados se pretende alcançar.

E é justamente aí que a campanha precisa avançar.

Menos adversários. Mais Santa Catarina.

O debate do SCC SBT mostrou que a eleição está entrando em uma fase diferente.

A disputa começa a deixar um pouco de lado as convenções, as alianças partidárias, os movimentos internos e os ataques preliminares para entrar numa questão muito mais concreta: o que cada candidato fará com o Estado a partir de 2027?

É aí que está a verdadeira eleição.

Jorginho terá de defender seu governo e explicar o que pretende entregar em um segundo mandato.

João terá de mostrar que sua proposta vai além da crítica à administração atual e apresentar de forma cada vez mais clara o que faria diferente.

Merísio precisará transformar a crítica em proposta e mostrar como pretende colocar em prática sua visão de governo.

E Zimmer terá o desafio de transformar suas ideias de independência, tecnologia e renovação em um projeto capaz de dialogar com as diferentes realidades de Santa Catarina.

O eleitor não precisa apenas saber quem é contra quem.

Precisa saber quem pretende fazer o quê.

O debate de hoje mostrou diferenças importantes entre os candidatos. Mas também mostrou que ainda existe espaço para uma cobrança maior.

Porque Santa Catarina tem problemas concretos demais para transformar uma eleição inteira em uma disputa sobre adversários.

Estradas, saneamento, saúde, educação, segurança, turismo, agricultura, prevenção de desastres, portos, infraestrutura e a relação com Brasília não são assuntos de campanha.

São os assuntos de Santa Catarina.

E, daqui para frente, seria bom que os debates fossem cada vez menos sobre quem é melhor em atacar o outro e cada vez mais sobre quem consegue explicar, com clareza, como pretende governar.

A eleição começa a ficar interessante quando o eleitor deixa de perguntar apenas “quem está contra quem?” e passa a perguntar:

“O que cada um fará com Santa Catarina?”

É essa resposta que deveria definir o centro da campanha daqui para frente.

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