As convenções partidárias realizadas em Santa Catarina até este domingo (2) foram tratadas, em grande parte, como simples atos de homologação de candidaturas e alianças. A cobertura ficou concentrada nos nomes anunciados, nas fotos de palco e nos discursos protocolares. Mas quem observou apenas esse roteiro deixou passar o principal movimento político deste início de campanha. As convenções de 2026 não serviram apenas para oficializar candidatos. Elas revelaram como cada partido pretende disputar a eleição, quais são suas prioridades estratégicas, como administraram seus conflitos internos e, principalmente, o nível de maturidade política com que chegam à maior disputa eleitoral da história recente do Estado.
O primeiro aspecto que chama atenção é que praticamente nenhum grande partido levou suas divergências para o palco. As negociações mais difíceis aconteceram antes da abertura das convenções. Quando as lideranças subiram para homologar candidaturas, as decisões já estavam tomadas. Isso representa uma mudança importante na cultura política catarinense. As convenções deixaram de ser palco de disputas internas para se transformarem em demonstrações de organização, método e capacidade de articulação.
Cada partido revelou uma estratégia diferente
Embora todos tenham seguido o mesmo rito legal, cada convenção transmitiu uma mensagem política distinta.
O PSD apresentou João Rodrigues como líder de uma frente de oposição construída ao longo dos últimos meses. A convenção consolidou uma candidatura que deixa de representar apenas o partido e passa a carregar um projeto coletivo formado por PSD, MDB e Federação União Progressista. A partir de agora, o maior desafio será manter a coesão de uma aliança formada por partidos com histórias, lideranças e interesses regionais bastante diferentes.
O MDB fez talvez a escolha mais pragmática entre as grandes siglas. Ao abrir mão de uma candidatura própria ao Governo e ocupar a vice na chapa, preservou espaço político, fortaleceu sua estratégia proporcional e manteve influência nas decisões da coalizão. Foi uma decisão baseada menos na emoção e mais no cálculo eleitoral.
O PL, por sua vez, realizou uma convenção voltada para reforçar a ideia de estabilidade. Como partido do governador Jorginho Mello, entrou na campanha sem necessidade de reconstruir seu discurso. Sua mensagem foi de continuidade administrativa e confiança em um projeto que já ocupa o governo. A estratégia é evidente: fazer com que o debate eleitoral seja uma comparação entre a gestão atual e as alternativas apresentadas pela oposição.
A centro-esquerda também merece uma leitura mais atenta. PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PV e Rede compreenderam que disputar separados significaria reduzir ainda mais sua competitividade em Santa Catarina. A construção de uma frente única em torno de Gelson Merísio ao Governo e das candidaturas de Décio Lima e Afrânio Boppré ao Senado demonstra uma mudança de postura. Independentemente do resultado das urnas, o campo progressista optou por trocar protagonismos individuais por uma estratégia de sobrevivência e fortalecimento político.
Partidos como Republicanos e Podemos seguiram outro caminho. Ambos concentraram esforços na organização de chapas competitivas para a eleição proporcional, preservando identidade partidária e ampliando sua capacidade de negociação para o próximo ciclo político. Em um sistema eleitoral cada vez mais dependente da força das bancadas, essa decisão pode se mostrar tão relevante quanto disputar cargos majoritários.
A convenção mais sofisticada
Entre todas as convenções realizadas até agora, nenhuma exigiu uma engenharia política tão refinada quanto a do Progressistas.
O partido precisava homologar sua participação na coligação com PSD, MDB e União Brasil, reafirmar a candidatura de Esperidião Amin ao Senado como prioridade absoluta da legenda e, ao mesmo tempo, preservar a convivência entre lideranças que têm posicionamentos distintos na disputa pelo Governo do Estado.
Foi justamente nesse ambiente que surgiu a expressão mais repetida entre prefeitos, vereadores e dirigentes partidários presentes ao evento: maturidade eleitoral.
Sob a condução do secretário nacional Aldo Rosa, o Progressistas construiu uma unidade possível, sem tentar impor uma unanimidade que hoje simplesmente não existe. O discurso foi cuidadosamente elaborado para deixar claro que o partido reconhece a existência de diferentes posicionamentos na eleição majoritária, mas que existe uma linha considerada inegociável: a reeleição de Esperidião Amin, o fortalecimento das chapas proporcionais e a preservação do protagonismo do Progressistas.
Mais do que isso, a convenção reafirmou a disposição da legenda em reeleger Esperidião Amin por entender que o senador representa uma das maiores lideranças nacionais do Progressistas. Sua trajetória política, sua capacidade de articulação em Brasília e os serviços prestados a Santa Catarina e ao Brasil foram apresentados como patrimônio político do partido. Na avaliação da direção, manter Amin no Senado significa manter o Progressistas ocupando um espaço estratégico nas grandes decisões nacionais.
Ao mesmo tempo, o silêncio em torno da disputa pelo Governo foi tão eloquente quanto os discursos. Mesmo após a homologação da coligação, não houve pedido de votos para João Rodrigues. A opção foi claramente estratégica. O partido sabe que uma parcela expressiva de seus prefeitos, vereadores e lideranças municipais permanece alinhada ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello. Levar essa discussão para o palco significaria expor uma divergência que a direção trabalhou durante meses para administrar.
Mais coordenação, menos ideologia
Outro aspecto comum a praticamente todas as convenções foi a mudança de linguagem. Os discursos ideológicos perderam espaço para conceitos como gestão, experiência, resultados, representatividade, articulação e governabilidade. Isso indica que a campanha catarinense tende a ser menos marcada por debates ideológicos e muito mais pela capacidade de coordenação política, organização territorial e eficiência das alianças.
A eleição de 2026 começa com uma característica bastante diferente das anteriores. Os grandes partidos compreenderam que administrar conflitos internos passou a ser tão importante quanto conquistar votos. Quem chegar ao fim da campanha mantendo sua estrutura unida terá uma vantagem competitiva significativa.
Sobretudo
As convenções de Santa Catarina deixaram uma lição que talvez passe despercebida para quem olhar apenas os atos formais. Nenhum partido saiu delas exatamente igual ao que entrou. Uns consolidaram alianças, outros reorganizaram prioridades e alguns aprenderam que sobreviver politicamente exige mais capacidade de coordenação do que discursos de efeito.
A convenção do Progressistas talvez tenha sintetizado melhor esse novo momento ao transformar a chamada maturidade eleitoral em método de condução política. Não se tentou apagar divergências, mas administrá-las. E essa lógica apareceu, em maior ou menor grau, nas demais legendas.
Há, porém, uma leitura que merece atenção. Em praticamente todos os partidos, o verdadeiro trabalho aconteceu antes das convenções. Foi nos bastidores que se definiram alianças, candidaturas, acomodações e limites políticos. Os eventos deste fim de semana apenas oficializaram decisões já amadurecidas. Isso demonstra que a política catarinense entra em uma fase de maior profissionalização, na qual estratégia pesa mais do que improviso.
Agora começa outra eleição. A dos palanques regionais, da transferência de votos, da resistência das alianças e da capacidade de cada partido transformar a unidade demonstrada nas convenções em votos nas urnas. É nesse terreno que se descobrirá quais legendas apenas realizaram bons eventos e quais realmente construíram projetos eleitorais capazes de chegar vitoriosos ao mês de outubro.
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