A poucos dias do início oficial da campanha, a eleição catarinense começa a deixar de ser uma disputa de apresentação e passa a ser uma corrida pela sobrevivência no primeiro turno. Jorginho tenta preservar uma vantagem expressiva, João Rodrigues precisa transformar a segunda colocação em competitividade e os demais candidatos lutam contra o risco de ficarem presos a nichos eleitorais.
A eleição catarinense ainda não começou oficialmente nas ruas, mas a fotografia do momento já permite enxergar uma coisa com bastante clareza: a primeira batalha não é pela liderança. É pelo segundo turno.
As convenções terminaram, os nomes estão definidos e o prazo para registro das candidaturas termina nesta sexta-feira, 15 de agosto. No domingo, dia 16, começa oficialmente a campanha. A partir daí, cada candidato terá pouco menos de dois meses para tentar alterar uma fotografia que, até aqui, mostra uma vantagem importante para o governador Jorginho Mello. (Sitdoc)
A pesquisa mais recente da Neokemp, realizada nos dias 22 e 23 de julho, mostra Jorginho com 52,8%, João Rodrigues com 20,3% e Gelson Merisio com 8,2%. Os demais candidatos aparecem abaixo de 3%. O dado mais importante, porém, talvez não esteja apenas na liderança do governador, mas na distância entre o primeiro e o segundo colocado. (Gazeta do Povo)
Em outro levantamento, realizado pelo IPC em julho, Jorginho apareceu com 53,3%, João com 26,2% e Merisio com 8,6%. São pesquisas diferentes, com metodologias e períodos de coleta distintos, mas ambas apontam para a mesma fotografia geral: Jorginho larga na frente e João aparece como o principal nome na disputa pela segunda posição. (Santa Catarina em Pauta)
Isso não significa que a eleição esteja definida.
Significa que as estratégias dos candidatos precisam ser diferentes.
Jorginho joga para não deixar ninguém crescer
Para o governador, a missão é completamente diferente da dos adversários.
Jorginho não precisa criar uma candidatura competitiva. Ela já existe. Não precisa convencer o eleitor de que tem condições de vencer. Precisa evitar que alguém consiga transformar a eleição em uma disputa apertada.
Essa lógica ajuda a explicar inclusive a estratégia adotada nos primeiros debates.
Participar de todos os confrontos pode oferecer exposição, mas também pode colocar o líder diante de uma situação de “todos contra um”, obrigando-o a responder sucessivamente a acusações e críticas em espaços de tempo extremamente curtos.
Para quem está atrás, o debate é uma oportunidade de criar fato novo.
Para quem está na frente, pode ser uma oportunidade para o adversário.
Jorginho, portanto, pode se dar ao luxo de escolher onde e quando quer se expor. A estratégia só será verdadeiramente testada quando chegar a hora dos debates considerados prioritários, mas, neste momento, a lógica é preservar a vantagem e evitar que os adversários encontrem um ponto de ruptura.
E existe outro fator que joga a favor do governador: a avaliação da própria gestão. Um levantamento realizado em julho apontou índices elevados de aprovação do governo, o que reduz o espaço para uma campanha baseada exclusivamente na tentativa de convencer o eleitor de que tudo está errado. (Tudo Aqui SC)
A oposição precisará encontrar algo mais sofisticado do que simplesmente atacar.
João Rodrigues tem uma missão muito mais difícil
João Rodrigues ocupa a posição mais confortável entre os adversários de Jorginho, mas isso não significa que esteja confortável.
Pelo contrário.
Ser o segundo colocado nas pesquisas não basta.
João precisa convencer o eleitor de que é o único candidato capaz de chegar ao segundo turno e enfrentar Jorginho de igual para igual.
Essa é uma diferença importante.
Se a eleição continuar pulverizada, com três ou quatro candidaturas dividindo o eleitorado oposicionista, Jorginho pode caminhar para o primeiro turno com uma vantagem muito grande.
Por isso, João tem duas batalhas simultâneas.
Precisa reduzir a distância para Jorginho e, ao mesmo tempo, impedir que Merisio cresça a ponto de ameaçar sua posição.
É uma corrida contra o relógio.
E é justamente por isso que os debates, as viagens pelo Estado, os apoios regionais e a comunicação dos próximos dias terão peso muito maior para João do que para Jorginho.
João precisa transformar presença em crescimento.
Precisa sair do eleitorado em que já é conhecido e construir uma imagem estadual.
E precisa fazer isso sem permitir que a eleição seja resumida a uma disputa ideológica em que o governador tenha vantagem.
A batalha de Merisio é outra
Gelson Merisio está em uma situação ainda mais delicada.
Com 8,2% na pesquisa Neokemp e 8,6% no levantamento do IPC, o candidato do PSB aparece distante de João, mas suficientemente acima dos demais para ocupar um espaço próprio. (Gazeta do Povo)
O problema é que existe pouco espaço para uma terceira candidatura crescer se João conseguir consolidar a posição de principal adversário.
Merisio precisa fazer a eleição deixar de ser uma disputa entre dois polos.
Precisa convencer o eleitor de esquerda e de centro-esquerda de que sua candidatura é competitiva.
E precisa evitar que esse eleitor conclua que o voto útil em João seria a única maneira de impedir uma vitória confortável de Jorginho.
Essa pode ser a batalha mais difícil do candidato.
Porque uma coisa é ter um eleitorado identificado com seu campo político.
Outra é convencer esse eleitorado de que vale a pena apostar em uma candidatura que precisa crescer bastante para entrar na disputa pelo segundo turno.
E os demais?
Para os outros candidatos, a matemática é ainda mais dura.
Marcelo Brigadeiro, Ralf Zimmer, Laís Chaud e os demais nomes têm uma vantagem que os três primeiros não têm: podem crescer sem carregar a mesma expectativa.
Mas também enfrentam um problema evidente.
Quanto mais a campanha avançar, maior será a tendência do eleitor de concentrar sua escolha nos candidatos que parecem competitivos.
É o chamado voto útil.
Se a percepção de que existem apenas dois nomes com chances de chegar ao segundo turno se consolidar, os candidatos menores terão cada vez mais dificuldade para romper a barreira de conhecimento e intenção de voto.
Por isso, para eles, as próximas semanas são decisivas.
Precisam criar fatos.
Precisam encontrar temas próprios.
Precisam ocupar espaços que os grandes candidatos ainda não ocuparam.
E precisam fazer o eleitor lembrar de seus nomes.
A pesquisa também mostra uma oportunidade
Há um dado que não pode ser ignorado.
No levantamento do IPC, 42,2% dos entrevistados disseram que podem mudar o voto ao longo da campanha, enquanto apenas 44,8% afirmaram estar totalmente decididos. (TN Sul | Portal de Notícias)
Isso significa que a fotografia atual está longe de ser uma sentença.
Existe um eleitorado disponível.
A questão é quem conseguirá alcançá-lo.
E aqui começa a verdadeira eleição.
Porque o eleitor que pode mudar de voto não necessariamente está procurando um novo candidato. Muitas vezes está esperando um motivo.
Pode ser uma proposta.
Pode ser um debate.
Pode ser uma crise.
Pode ser uma aliança.
Pode ser uma rejeição.
Pode ser uma campanha bem executada.
Pode ser um erro do adversário.
É nesse eleitor que a eleição vai ser decidida.
O segundo turno começa agora
É por isso que os próximos dias serão mais importantes do que parecem.
Jorginho tentará impedir que a distância diminua.
João tentará transformar a segunda posição em uma candidatura inevitável para o segundo turno.
Merisio tentará impedir que a eleição se transforme em uma disputa de dois.
Os demais tentarão provar que ainda existe espaço para uma surpresa.
E, por trás de tudo isso, os partidos estarão trabalhando suas próprias candidaturas ao Senado e à Câmara, disputando estrutura, recursos e espaço político.
A eleição para governador não acontece isoladamente.
Cada candidato ao Governo carrega consigo uma rede de interesses, alianças e candidaturas proporcionais que também precisam sobreviver.
É por isso que o primeiro turno não é apenas uma corrida para ficar em primeiro.
É uma corrida para não ficar de fora.
A pergunta que começa a valer ouro
Se a eleição fosse hoje, Jorginho estaria claramente na primeira posição.
Mas essa não é a pergunta que realmente importa.
A pergunta é:
quem estará com ele no segundo turno?
Hoje, João Rodrigues ocupa esse lugar.
Mas ainda há tempo para que essa fotografia mude.
E é justamente aí que começa a fase mais interessante da eleição catarinense.
Porque, a partir de domingo, ninguém mais poderá dizer que ainda está apenas organizando a candidatura.
A campanha estará oficialmente na rua.
E cada candidato terá que responder, com votos e não com discursos, à pergunta que começa a definir 2026:
há espaço para uma mudança de segundo turno em Santa Catarina ou a eleição já começa a caminhar para uma vitória de Jorginho no primeiro?
A resposta ainda não está dada.
Mas o relógio começou a correr.


























