Saí da coletiva com uma sensação pior do que a que eu tinha antes de entrar.
Porque hoje ficou claro que não estamos falando de um ato isolado, nem de um único crime. O caso do Orelha não é um ponto fora da curva. Ele faz parte de uma sequência de condutas violentas e reiteradas.
Além da morte do Orelha, esses jovens agrediram outro cachorro, desacataram moradores, danificaram espaços públicos e furtaram um quiosque. Não foi um episódio. Foi um comportamento. Um padrão. Um conjunto de atos que, somados, revelam algo muito mais sério do que uma “ocorrência”.
Ainda assim, a resposta do sistema é a mesma:
não houve prisão,
não haverá apreensão,
não haverá responsabilização direta dos responsáveis.
Mesmo que os crimes de maus-tratos sejam comprovados, os adolescentes não serão apreendidos porque, segundo a lei, não se trata de crime contra um ser humano. E os pais não respondem porque a responsabilidade não é transferível. A lei não permite. Ponto final.
Três adultos foram indiciados por interferir nas investigações. Gravíssimo também. Ainda assim, nenhuma prisão preventiva foi decretada.
E aqui não falo como jornalista, nem como alguém que desconhece os limites legais. Falo como cidadão que acabou de ouvir, preto no branco, que um conjunto de atos violentos, ofensivos e lesivos pode simplesmente não gerar consequência proporcional alguma.
O problema não é a polícia.
Não é o Judiciário.
O problema é a lei.
É perturbador perceber que o sistema jurídico consegue enquadrar quase tudo — menos a violência quando ela não atinge diretamente um ser humano. Como se a crueldade tivesse hierarquia. Como se o sadismo precisasse escolher melhor sua vítima para ser levado a sério.
Hoje ficou evidente um vácuo perigoso:
quando a violência não encontra resposta, ela se normaliza.
Não estou falando de vingança.
Não estou pedindo linchamento.
Estou falando de limite.
O Estado precisa ser capaz de dizer, com atos e não apenas com discursos, que determinados comportamentos são inaceitáveis. Hoje, ele não conseguiu.
Saio dessa coletiva indignado.
Não apenas pelo que aconteceu com o Orelha.
Mas pelo que ficou claro que pode continuar acontecendo.
Se esse caso terminar aqui, teremos perdido mais do que um cachorro. Teremos aceitado, em silêncio, que a lei não acompanha a realidade — e que a violência, quando não é convenientemente enquadrável, simplesmente passa.
Isso, para mim, é inaceitável.


























