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Quando a campanha perde a proposta, entra o ataque

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Há uma velha fórmula eleitoral que insiste em sobreviver ao tempo: quando uma candidatura percebe que não consegue avançar pelo caminho das propostas, começa a tentar impedir que o adversário avance pelo caminho das pesquisas.

É quando a campanha deixa de falar sobre o que pretende fazer e passa a falar, cada vez mais, sobre aquilo que pretende destruir.

O episódio desta semana em Santa Catarina é um exemplo concreto desse ambiente. A Justiça Eleitoral determinou a suspensão de uma propaganda da campanha de João Rodrigues que questionava o patrimônio da família de Jorginho Mello. Em decisão liminar, o desembargador eleitoral apontou inconsistências na forma como imóveis, empresas e informações patrimoniais foram apresentados na peça e determinou a retirada do conteúdo, além de estabelecer multa em caso de descumprimento.

A campanha de João Rodrigues informou que apresentará defesa e sustenta que a propaganda foi construída a partir de reportagens e dados públicos. Portanto, o episódio ainda terá seu desdobramento jurídico.

Mas o fato político é maior do que a disputa específica entre duas campanhas.

Ele revela uma estratégia que aparece com frequência nas eleições: quando a distância entre os candidatos aumenta, cresce também a tentação de transformar a campanha em uma operação de desgaste pessoal.

E isso não é exclusividade de um partido, de uma ideologia ou de um candidato.

É uma prática antiga da política.

Muda o meio, muda a tecnologia, muda a linguagem, mas a lógica permanece a mesma: criar uma narrativa negativa, repetir uma acusação, associar o adversário a uma imagem desfavorável e esperar que a repetição produza no eleitor uma impressão que possa ser convertida em voto.

Antigamente, isso circulava por panfletos, boatos, comícios e conversas de bastidor. Hoje, pode ganhar televisão, redes sociais, vídeos patrocinados, cortes de entrevistas e impulsionamento digital.

A tecnologia mudou.

A estratégia, nem tanto.

E há uma razão para esse tipo de comportamento aparecer com mais intensidade quando uma candidatura está distante nas pesquisas.

Proposta exige que o candidato fale de si.

Ataque exige apenas que fale do outro.

Uma proposta precisa explicar como será executada, quanto custará, quem será beneficiado, quais serão as prioridades e quais problemas pretende resolver. Uma acusação, verdadeira ou não, pode ser reduzida a poucos segundos de vídeo e compartilhada milhares de vezes.

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É uma estratégia muito mais simples de produzir.

E justamente por isso pode ser muito mais perigosa para o debate eleitoral.

O problema não está em questionar adversários. Democracia pressupõe fiscalização, crítica e confronto de ideias. Um candidato tem todo o direito de questionar patrimônio, decisões administrativas, contratos, obras, alianças e qualquer outro assunto de interesse público.

O limite está na responsabilidade com a informação.

Questionar é parte da democracia. Distorcer para induzir o eleitor a uma conclusão é outra coisa.

É exatamente por isso que a decisão da Justiça Eleitoral merece atenção. Segundo o TRE-SC, em um caso diferente envolvendo propaganda eleitoral, o tribunal também reconheceu desinformação quando dados de uma pesquisa foram apresentados de maneira descontextualizada, mostrando que a preocupação da Justiça Eleitoral não está apenas com o conteúdo das mensagens, mas também com a forma como informações verdadeiras ou aparentemente verdadeiras são apresentadas ao eleitor.

Isso deveria servir como alerta para todas as campanhas.

Porque o eleitor não é um detalhe da estratégia eleitoral.

É o destinatário da informação.

E, quando uma campanha apresenta uma informação distorcida, incompleta ou fora de contexto, não está apenas atacando o adversário. Está interferindo na capacidade do eleitor de formar sua própria opinião.

É aí que a velha política de ataque encontra seu maior problema.

Ela parte de uma premissa equivocada: a de que o eleitor precisa apenas de uma história para acreditar nela.

Não precisa.

O eleitor de hoje tem acesso a mais fontes, mais informações e mais possibilidade de conferir uma afirmação do que em qualquer outro período da história eleitoral.

Por isso, talvez seja hora de as campanhas perceberem que desconstruir o adversário não é a mesma coisa que construir uma candidatura.

Uma campanha que passa boa parte do tempo explicando por que o outro candidato não merece o voto ainda precisa responder a uma pergunta simples: por que o eleitor deveria votar em você?

Essa é a pergunta que não pode desaparecer no meio da guerra eleitoral.

E ela se torna ainda mais importante quando as pesquisas mostram uma diferença significativa entre os candidatos.

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Porque, nesse cenário, o eleitor precisa saber não apenas quem está sendo atacado.

Precisa saber o que o candidato que ataca pretende fazer caso seja eleito.

Santa Catarina tem problemas concretos para discutir. Infraestrutura, saúde, educação, segurança, logística, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, portos, rodovias, habitação e tantos outros temas que afetam diretamente a vida das pessoas.

Tudo isso exige propostas.

Exige números.

Exige planejamento.

Exige debate.

Transformar a eleição em uma sucessão de acusações pode até produzir barulho. Mas barulho não é necessariamente debate.

E uma campanha eleitoral não deveria ser uma competição para descobrir quem consegue produzir a acusação mais destrutiva.

Deveria ser uma oportunidade para o eleitor descobrir quem tem o que dizer sobre o futuro do Estado.

O episódio envolvendo a propaganda de João Rodrigues é apenas mais um sinal de que a campanha catarinense entrou definitivamente na fase do confronto mais duro. A Justiça agora passa a exercer seu papel sempre que houver questionamentos sobre o conteúdo ou a forma de apresentação das informações.

Mas existe uma responsabilidade que não é da Justiça.

É das próprias campanhas.

E existe outra que é ainda maior.

É do eleitor.

Não acreditar automaticamente no que uma campanha diz sobre o adversário. Não rejeitar automaticamente uma denúncia porque veio do adversário. Conferir. Comparar. Procurar a fonte. Separar fato de interpretação.

Talvez essa seja a melhor resposta à velha cartilha eleitoral.

Porque ataque pode chamar atenção.

Acusação pode gerar manchete.

Uma história distorcida pode até circular rapidamente.

Mas, no fim, quem decide o voto precisa saber muito mais do que aquilo que um candidato pensa sobre o outro.

Precisa saber o que cada candidato pensa sobre Santa Catarina.

E talvez seja exatamente isso que esteja faltando em algumas campanhas: menos preocupação em destruir a imagem do adversário e mais disposição para construir uma razão para o eleitor escolher seu próprio projeto.

A eleição não deveria ser uma disputa para ver quem consegue falar pior do outro. Deveria ser uma oportunidade para o eleitor descobrir quem tem as melhores respostas para os problemas que ele enfrenta todos os dias.

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