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Da resiliência à visão de futuro

Da infância pobre ao império global: A saga de Blairo Maggi e o poder do cerealista

Defensor de que “o progresso não anda na estrada de chão”, Maggi, como governador e empresário, priorizou a pavimentação de rodovias em MT, legado que vê continuar no atual governo de Mauro Mendes. (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)

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Em um discurso íntimo a colegas do setor, o ex-governador e ex-senador e ex-ministro da agricultura desnudou as origens humildes da família, os riscos que revolucionaram a logística do agronegócio e lançou um desafio: inovar ou ficar para trás.

 

Por Humberto Azevedo, enviado especial do Grupo RDM.

 

Em um auditório repleto de cerealistas em num dos melhores resorts do país,o MALAI no lago de manso, em Chapada dos Guimarães,próximo de Cuiabá, no último dia 26 de novembro, durante a abertura do 3º Congresso Brasileiro de Cerealistas, Blairo Maggi preferiu não usar slides nem jargões técnicos. Contou sua história, do menino que abria sacos de adubo ao lado das irmãs no Paraná ao empresário que ousou escoar soja pelo Rio Amazonas quando ninguém acreditava.

 

Sua fala foi um mergulho na construção do agronegócio brasileiro pela perspectiva de quem começou “do tamanho de todo mundo”. Ex-governador de Mato Grosso (2003-2010), ex-senador pelo mesmo estado (2011-2018) e ex-ministro da Agricultura no governo Michel Temer (2016-2018), Maggi, de 68 anos, usou o espaço para traçar um paralelo entre a trajetória de sua empresa familiar, hoje um gigante global, e os desafios atuais dos intermediários de grãos.

 

A mensagem central de sua fala, que durou cerca de 30 minutos, foi de resiliência e visão de futuro. Segundo ele, para alcançar o progresso é preciso sair da zona de conforto e assumir riscos calculados.

 

“Meu pai me deu um trator velho que tinha lá e disse: ‘você pode ir plantar’. Eu devia ter uns 11, 13 anos e fiz os primeiros 15 a 30 hectares do que viria a ser a Maggi. Minhas duas irmãs mais velhas nos ajudavam a abrir a sacaria, botar adubo na plantadeira. A Maggi começa aí, no trabalho familiar, no chão da roça”, relembrou Maggi, detalhando os primórdios da empresa na década de 1960.

 

“Nós começamos como cerealistas, comprando sementes no Rio Grande do Sul (RS) e revendendo no Paraná. E eu pensava: ‘como a gente vai crescer se não tem acesso aos grandes compradores?’. Era um pequeno cerealista, sem conhecimento, sem acesso ao porto. Sempre faltava uma perna. A gente se comportava como pequeno porque não tinha conhecimento”, confessou, destacando as barreiras iniciais que ainda ecoam para muitos no setor.

 

O SALTO DA NECESSIDADE

 

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A mudança para Mato Grosso nos anos 80 marcou a primeira grande virada. A família foi para a fronteira agrícola, enfrentou a ferrugem da soja, falta de pesquisa e logística precária. A necessidade aguçou a inventividade. Sem estradas ou portos viáveis no Centro-Oeste, o olhar se voltou para o Norte. A obsessão por uma saída logística barata e independente começava ali.

 

A solução veio das hidrovias amazônicas, um projeto considerado inviável por gigantes do setor. Maggi narrou com detalhes épicos a primeira viagem de uma barcaça com soja de Sapezal (MT) até o porto de Itacoatiara (AM), em 1997. Um feito nascido – segundo ele – de uma “necessidade” premente, de muita pesquisa e uma coragem que beirava a temeridade, inclusive com um seguro “bem baratinho” para não quebrar.

 

“Fui fazer um projeto desse, contratei quem tinha que contratar, arrisquei. Um dia, o flutuante saiu de Manaus. Céu de brigadeiro. Eu pensei: ‘joguei meu dinheiro fora, fiz um seguro que não precisava’. Aí veio um vendaval dentro do rio, água passava do convés. Eu falei: ‘meu Deus, fiz um seguro muito barato’. Do céu ao inferno, num instante. Mas eu não tinha o conhecimento para fazer, só a necessidade”, contou, rindo do próprio susto.

 

“Quando nós fizemos esse primeiro embarque pelo Norte, tiramos mil quilômetros de estrada. Trinta dólares por tonelada de diferença. O que mudou totalmente a região. O bandeirante, o arriscar, foi nosso. Foi de um cerealista. Antes, procurei multinacionais, ninguém quis, ninguém acreditava. Todo mundo queria garantias. Se der certo, você me paga. Se der errado, o prejuízo é meu”, destacou, frisando a desconfiança inicial e a recompensa pela ousadia solitária.

 

LEGADO E FUTURO

 

Atualmente, o grupo controlado por Maggi, que nasceu como “Sementes Maggi Limitada”, movimenta 23 milhões de toneladas de grãos e fatura R$ 58,41 bilhões (cerca de US$ 11 bilhões). Mas Maggi insiste que a essência permanece: comprar de centenas de produtores, juntar a produção e distribuir pelo mundo. Ele enxerga no modelo do cerealista uma vantagem fundamental: ser ágil, próximo do produtor e inovador.

 

Em sua avaliação, o crescimento sustentável do agronegócio brasileiro ainda depende de dois pilares: infraestrutura logística e a coragem de empreendedores para explorar novas fronteiras, como Roraima, onde sua empresa acaba de ativar um novo corredor fluvial. Ele elogia a gestão do atual governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), pela conservação e manutenção das estradas.

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“Aprendi nas  andanças políticas, lá no Araguaia, uma frase: ‘o progresso não anda na estrada de chão e nem dorme no escuro’. Se tem energia e tem estrada, tem futuro. É isso que o Mato Grosso fez. E o que nós cerealistas fazemos: criamos caminhos onde não existem”, observou, conectando sua experiência pública e privada.

 

“Ninguém pode deixar de sonhar porque é muito pequeno. Eu já fui do seu tamanho. Com as mesmas necessidades, as mesmas dificuldades. Com inovação, conhecimento, coragem e parcerias certas, você faz a coisa andar. Sempre tem um espaço, sempre tem quem tem uma necessidade e quem tem uma solução”, completou, com uma mensagem de incentivo direta aos colegas de platéia.

 

RUMO À RORAIMA

 

Ao final, Maggi aconselhou a não olhar apenas para o passado. Apontou o estado de Roraima como a nova oportunidade, um “novo Mato Grosso” em potencial. Com 200 mil hectares de soja e espaço para muito mais. Para ele, o estado do extremo Norte do país demanda os mesmos ingredientes do início de sua saga: gente disposta a se mudar, a enfrentar o desconforto e a construir do zero.

 

Sua fala, em tom de testemunho, funciona como um manual não escrito. A história do empresário se confunde com a da ocupação produtiva do Centro-Norte do Brasil. E, segundo ele, esse ciclo está longe de acabar. Cabe aos novos cerealistas, aos filhos de produtores e aos empreendedores rurais escreverem o próximo capítulo, armados de tecnologia e da mesma ousadia bandeirante.

 

“Roraima pode ser para muitas empresas o que Mato Grosso foi para nós. Oportunidade tem. O que você quer fazer? Sair da vidinha boa da sua cidade, mudar para um lugar novo, sem conhecimento, sem conhecidos, enfrentar uma vida diferente… Se você está disposto a apostar no futuro, tem espaço”, desafiou.

 

“A gente ajudou, aproveitou, construiu e estava no lugar certo e na hora certa. Tem coisas que você reclama, mas depois vê que foram necessárias. Foi assim com a vida do meu pai em Mato Grosso. Estar no lugar certo e na hora certa foi o que nos levou lá. Mas é preciso ter a coragem de ir”, finalizou, deixando no ar a questão sobre quem terá a coragem de dar o próximo passo.

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