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Aposta governista

QUARTA NA REPORTAGEM | OS BASTIDORES DO FIM DA TAXA DAS BLUSINHAS

O presidente Lula assina a MP que revoga a “taxa das blusinhas” ao lado da primeira-dama Janja, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de ministros como José Guimarães e Guilherme Boulos numa imagem de unidade do campo progressista que agora tenta transformar a antiga queixa do “Taxad” em bandeira eleitoral para outubro. (Foto: Wallison Breno / Secom-PR)

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Governo Lula revoga “taxa das blusinhas” a menos de cinco meses da eleição para tentar ampliar popularidade

 

Medida Provisória zera imposto de importação para compras de até US$ 50 (R$ 246,50); setor empresarial que pediu a taxação há três anos agora flerta com a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto.

 

Por Humberto Azevedo

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou na noite desta última terça-feira, 12 de maio, a Medida Provisória (MP) que revoga a chamada “taxa das blusinhas” – o imposto de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares (R$ 246,50), criado em agosto de 2024 a pedido do setor varejista nacional.

 

A decisão, publicada no Diário Oficial da União, vale a partir desta quarta-feira, 13 de maio, e tem vigência de 120 dias, expirando em meados de setembro, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial marcada para acontecer na data de 4 de outubro.

 

O recuo do governo, a menos de cinco meses da eleição, não é técnico – é político. Em off, auxiliares palacianos admitem que o setor que o governo atendeu em 2024 já fez sua escolha eleitoral, alinhando-se ao bolsonarismo.

 

Agora, a aposta é transformar a revogação em um marco de defesa do poder de compra das classes C, D e E, ao mesmo tempo em que tenta isolar a oposição bolsonarista e parte do Congresso.

 

“O fim da taxa das blusinhas foi possível devido ao sucesso do governo no combate ao contrabando e na regularização do setor”, afirmou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, durante a cerimônia de assinatura realizada no Palácio do Planalto.

 

Nos bastidores, porém, a leitura é outra: “O varejo que pediu a taxa já está com o bolsonarismo. A hora é mostrar que essa decisão agora atende a população, não os grandes lojistas”, resumiu um ministro sob condição de anonimato.

 

Já o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, preferiu sinalizar em discurso institucional e protocolar que “a medida retira impostos federais do consumo popular e melhora o perfil da tributação brasileira”.

 

RESSONÂNCIA PROGRESSISTA

 

Cartão-presente e oferta relâmpago: a promessa de consumo acessível que mobiliza as classes C, D e E nas plataformas internacionais – agora livres da taxa de importação. (Foto: Andrey Popov /iStockphoto)

A revogação da “taxa das blusinhas” encontra eco direto em análises do chamado campo progressista que historicamente orienta os governos do PT. Em artigo publicado dois dias antes da assinatura da MP, a economista Laura Carvalho da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e o professor Guilherme Klein da University of Leeds apontaram que a “taxa das blusinhas” ignorava uma transformação central: a globalização das aspirações de consumo via redes sociais.

 

“A janela de aspiração foi globalizada, mas a janela de realização, para a maioria, não a acompanhou. A frustração emerge dessa assimetria”, argumentaram Laura e Klein. Para eles, taxar compras baratas internacionais significava criminalizar a tentativa das classes populares de acessar bens simbólicos que antes só a elite possuía.

 

“A Shein declara ter 50 milhões de usuários no Brasil – 88% deles das classes C, D e E. Três quartos dos consumidores populares compram regularmente em plataformas internacionais. A ‘taxa das blusinhas’ atingia em cheio essa nova economia do desejo”, afirmam Carvalho e Klein.

 

A mesma linha aparece em artigo da socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em artigo publicado no último 25 de abril: “O custo de vida segue pressionado, especialmente pelos alimentos e pela energia, cujos preços se estabilizaram em patamares elevados (…) A política monetária atua no sentido oposto ao do desenvolvimento com distribuição de renda”.

 

O SENTIMENTO DE TRAIÇÃO DO VAREJO

 

Na alfândega de Paranaguá, a rotina de fiscalização de importados continua – mas, com a revogação da “taxa das blusinhas”, a atenção agora se volta para o impacto eleitoral da decisão que aliviou o bolso das classes populares e reacendeu a disputa política pelo comércio eletrônico internacional. (Divulgação / Agência de Notícias do Paraná)

A “taxa das blusinhas” foi gestada em 2023 sob forte pressão de associações varejistas nacionais, que alegavam concorrência desleal das plataformas asiáticas. O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad – hoje pré-candidato ao governo de São Paulo – defendeu a medida como instrumento de isonomia tributária e sentiu pessoalmente o desgaste da criação do tributo.

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Três anos depois, o governo descobriu que a lealdade do setor tinha data de validade. Grande parte do empresariado do varejo já declarou apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro de 2026. Nos corredores do Planalto, a frase que circula é: “O governo queimou Haddad à toa.”

 

“Haddad saiu em defesa dos lojistas, virou ‘Taxadd’ nos memes da oposição, e o setor não moveu uma palha para defendê-lo. Pior: agora está com os Bolsonaro”, resumiu um importante assessor com livre-trânsito na Esplanada dos Ministérios e que pediu anonimato.

 

O próprio ex-ministro, ao deixar a Fazenda neste início de 2026, já havia sinalizado o mal-estar: “Tomei decisões difíceis achando que havia um pacto. O pacto era de mão única”.

 

O RESSENTIMENTO DIGITAL E O “TAXAD”

 

Shein estampa frete grátis, 70% de desconto e prazo até 7 de junho. Com o fim da “taxa das blusinhas”, a guerra eleitoral pelo bolso da periferia se acirra nas redes de comércio global. (Foto: Reprodução / Shein)

A criação da “taxa das blusinhas” abriu uma frente de desgaste que a oposição bolsonarista explorou com maestria. Memes como “Taxad” – em referência a Haddad – viralizaram, e um volume de notícias falsas (fake news) sobre uma suposta taxação do PIX, que nunca existiu e foram impulsionadas pelo deputado Nicolas Ferreira (PL-MG) e por influenciadores de extrema-direita, segundo auditoria da Receita Federal.

 

O fenômeno resgatou a imagem arcaica dos “sacoleiros” – brasileiros que viajavam ao Paraguai para trazer produtos baratos, agora atualizada para a era das compras por aplicativo. Para a base do governo, a taxação representou a frustração de pequenos ganhos de consumo em um momento em que a renda real ainda não havia se recuperado da última década perdida na economia (2014-2022).

 

Dados do World Inequality Database citados por Laura Carvalho e Klein mostram que, em 2024, a metade mais pobre da população ainda ganhava apenas 80% do que ganhava em 2014. “Taxar a blusinha de R$ 30 era tirar o pouco do pouco”, resume uma liderança comunitária da periferia de São Paulo citado pelo artigo dos economistas.

 

A decisão de revogar, agora, é lida internamente como um pedido de desculpas tardio: “O governo errou ao atacar o consumo popular para agradar o empresariado que, no fim, foi para o outro lado”, comentou um parlamentar governista em fala reservada à reportagem do Grupo RDM.

 

A INSATISFAÇÃO QUE O DEBATE IGNORA

 

Nas telas de computadores ou nos smartphones, a enxurrada de promoções de Shein, Shopee e Alibaba volta a prometer preços baixos sem o acréscimo da “taxa das blusinhas” – um alívio para o bolso da periferia e um novo trunfo do governo na disputa eleitoral de outubro. (Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil)

Enquanto a briga política se concentra na “taxa das blusinhas” – ora defendida, ora atacada, um diagnóstico mais profundo sobre a insatisfação popular permanece à margem do debate eleitoral. Quem o faz é o cientista social Ederson Duda da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em artigo publicado recentemente no dia 5 de maio de 2026.

 

Duda argumenta que o endividamento estrutural das famílias – e não um imposto isolado – é a verdadeira chave para entender por que a vida não melhora mesmo com um Produto Interno Bruto (PIB) em alta e desemprego em baixa. “O endividamento deixou de ser um fenômeno episódico e passou a integrar, de forma estrutural, as condições de vida”, escreveu.

 

“Quando a sobrevivência passa a depender estruturalmente da dívida, e essa dependência é acompanhada pela internalização da responsabilidade individual por sua gestão, as formas tradicionais de crítica tendem a se mostrar insuficientes”, afirma Ederson Duda, citando dados de fevereiro de 2026 que apontam que 49,9% da renda familiar está comprometida com dívidas – o maior nível da série histórica.

 

Para o cientista social da Unifesp, o fenômeno das bets e das plataformas de crédito digital aprofunda a “financeirização da vida cotidiana”. Nesse quadro, a revogação ou a manutenção da “taxa das blusinhas” é quase um detalhe, já que o problema de fundo é que o trabalho não rende o suficiente e o futuro já está penhorado.

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RAÍZES ESTRUTURAIS

 

Em meio à disputa eleitoral e à dança das MPs, as verdadeiras razões da insatisfação popular – mesmo com indicadores macroeconômicos positivos – ficam à margem do debate. O cientista social Ederson Duda, doutorando pela Unifesp, resumiu no seu artigo que a questão não se resolve com a mera revogação de um tributo: “A vida sob a dívida”.

 

Como Duda reforça, 80% das famílias têm dívidas – muitas delas para consumo corrente, como alimentação e medicamentos. Segundo ele, a “taxa das blusinhas” era apenas um sintoma de um problema muito mais profundo: a financeirização da reprodução social.

 

“O endividamento não é desvio, mas a forma estrutural da reprodução social sob o capitalismo financeirizado. A vida endividada e o modo de vida meritocrático se reforçam mutuamente. Revogar a taxa é positivo, mas não enfrenta a lógica que transforma o trabalhador em gestor de sua própria pobreza”, avalia Ederson Duda.

 

Duda propõe que a esquerda e o governo possam ir além das medidas pontuais: “É preciso reconstruir mediações coletivas – direitos sociais universais, desfinanceirização da vida, trabalho estável. Enquanto a sobrevivência depender do crédito e das bets, nenhuma isenção fiscal resolverá o mal-estar de fundo”.

 

Por fim, o cientista Ederson Duda adverte: “a isenção da blusinha é um band-aid. A ferida se chama dívida, juro real de 400% ao ano no cartão de crédito, e a conversão de direitos em ativos financeiros. Sem enfrentar isso, o alívio será passageiro – e a próxima frustração, explosiva”.

 

 

O JOGO DOS 120 DIAS

 

A pilha de pacotes importados nos Correios promete voltar a crescer com uma enxurrada de compras da classe C, D e E com o fim da “taxa das blusinhas”, que reacende o debate eleitoral sobre consumo popular, varejo nacional e os rumos da economia a 120 dias das urnas. (Foto: Joédson Alves / Agência Brasil)

A Medida Provisória que revoga a taxa tem validade de 120 dias – expira exatamente na segunda quinzena de setembro, a duas semanas do primeiro turno da eleição presidencial marcada para acontecer em 4 de outubro de 2026. O governo aposta que, com a MP em vigor, o tema dominará o debate eleitoral e forçará o Congresso a se posicionar.

 

Se o Legislativo aprovar a revogação, o governo colherá os frutos políticos. Se rejeitar, a oposição e a maioria conservadora do Congresso terão que explicar por que querem aumentar imposto sobre a roupa da classe C. Se ficar inerte, a MP caduca e a taxa volta – o que, na prática, também será atribuído ao bolsonarismo.

 

O governo aposta suas fichas no efeito político imediato da revogação da “taxa das blusinhas”, que estará em vigor desta quarta, 13 de maio, até às vésperas da eleição. A expectativa governista é que a pressão popular inviabilize qualquer tentativa de restauração da taxa.

 

“Quem quiser votar contra o fim da taxa das blusinhas que se apresente. Vamos mostrar quem defende aumento de imposto para pobre. O setor varejista que nos abandonou que assuma o ônus agora”, afirmou em condição de anonimato um integrante da tropa-de-choque do governo no Congresso.

 

A oposição, por sua vez, tentará deslocar o debate para outros temas como segurança, costumes, corrupção, mas o governo acredita que a “taxa das blusinhas” tem um poder simbólico inigualável. Em um país onde 77% das famílias estão endividadas, qualquer alívio no bolso vira combustível eleitoral.

 

“O brasileiro de classe C, D e E não quer saber de isonomia tributária. Ele quer saber se pode comprar a blusa de R$ 30 na Shopee sem pagar mais R$ 10 de imposto. O governo entendeu isso tarde, mas entendeu. Agora, que o Congresso e a oposição expliquem à população quem é que quer aumentar o imposto”, resume um vice-líder do governo na Câmara.

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