O cenário político de Mato Grosso já vive intensa movimentação de bastidores visando as eleições de 2026. Pré-candidaturas ao Governo do Estado, disputa acirrada ao Senado, articulações do bolsonarismo, crescimento do campo progressista e influência do agronegócio estão entre os principais temas que movimentam o debate político estadual.
Para analisar esse cenário, a cientista política Christiany Fonseca conversou com a equipe da RDM Online e falou sobre os possíveis cenários eleitorais, o impacto das pesquisas, a força do bolsonarismo em Mato Grosso, o papel do lulismo e as articulações partidárias para 2026.
Confira a entrevista:
RDM Online: Professora, como a senhora avalia o atual equilíbrio de forças entre direita e esquerda em Mato Grosso para as eleições de 2026?
Christiany Fonseca: Mato Grosso é um estado majoritariamente de direita e com forte identificação com o bolsonarismo. Por isso, é natural que existam mais pré-candidatos ligados a esse campo político. Hoje, no campo progressista, a principal pré-candidata ao Governo é Natasha Slhessarenko. Já na direita, aparecem nomes como Otaviano Pivetta, Wellington Fagundes e Jaime Campos, todos com forte estrutura política e competitividade eleitoral. O cenário indica uma disputa muito pulverizada e, pela primeira vez, existe a possibilidade real de segundo turno no Estado.
RDM Online: As pesquisas mais recentes mostram equilíbrio entre Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes. Como a senhora avalia essas mudanças nos levantamentos eleitorais?
Christiany Fonseca: Pesquisa precisa ser analisada com cautela, principalmente quando falamos da modalidade espontânea. Nessa pesquisa recente, Pivetta apareceu liderando antes mesmo de assumir oficialmente o Governo do Estado, o que chama atenção. Já na estimulada, Wellington aparece à frente. Não cabe questionar a validade dos levantamentos, mas existem pontos que merecem análise mais criteriosa, especialmente quando há diferenças muito grandes entre espontânea e estimulada.
RDM Online: Existe possibilidade de uma surpresa eleitoral em 2026, como ocorreu em Cuiabá nas eleições de 2024?
Christiany Fonseca: Sim. Muitas vezes, aquilo que parece uma “virada” é, na verdade, uma leitura tardia das pesquisas sobre a realidade política. Em Cuiabá, por exemplo, houve um momento em que os levantamentos mostravam larga vantagem de um candidato e, no final, a disputa ficou equilibrada. Pesquisa influencia o eleitor, principalmente aquele que não quer “perder o voto”. Por isso, elas acabam interferindo diretamente na dinâmica eleitoral.
RDM Online: Natasha Slhessarenko e Rafael Milas podem crescer justamente por representarem renovação política?
Christiany Fonseca: Eu vejo hoje dois nomes que acabam surgindo como outsiders dentro do cenário político de Mato Grosso: Rafael Milas e Natasha Slhessarenko. O Rafael Milas aparece representando uma direita mais antissistema, com um discurso de enfrentamento à política tradicional, algo que historicamente já mostrou força no estado. Esse perfil já foi muito bem aceito por parte do eleitorado mato-grossense, principalmente entre pessoas que demonstram desgaste com os grupos políticos tradicionais. Já Natasha ocupa um espaço diferente, representando o campo progressista. A principal preocupação do PSD e da federação ligada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva era justamente construir uma candidatura competitiva para garantir palanque ao governo federal em Mato Grosso. Natasha pode crescer bastante caso consiga consolidar uma conexão mais direta com o eleitorado lulista. Hoje ela ainda aparece com baixa rejeição e isso é importante, porque demonstra espaço para crescimento político ao longo da campanha.
RDM Online: Qual o papel político de Jaime Campos dentro da disputa de 2026?
Christiany Fonseca: Eu penso que, se Jaime Campos permanecer efetivamente na disputa ao Governo do Estado, Mato Grosso terá chances muito grandes de viver um cenário inédito, com definição em segundo turno. Isso porque ele fragmenta diretamente um eleitorado que hoje está dividido principalmente entre Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes. As pesquisas mostram candidatos muito próximos e todos competitivos. Então, quando você coloca Jaime dentro dessa disputa, os votos acabam ficando ainda mais pulverizados. Agora, caso ele deixe a corrida eleitoral, o cenário tende naturalmente a se polarizar mais entre Wellington e Pivetta. Mesmo assim, Jaime continua sendo uma peça extremamente estratégica dentro do processo eleitoral, porque possui forte capital político e influência em diversas regiões do estado. Independentemente de disputar ou não, ele pode acabar se tornando o chamado “fiel da balança” na eleição de 2026.
RDM Online: O bolsonarismo pode acabar dividido entre Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes?
Christiany Fonseca: Eu acredito que essa divisão já existe dentro do bolsonarismo em Mato Grosso. Wellington Fagundes possui apoio declarado de lideranças nacionais importantes, como Valdemar Costa Neto e Flávio Bolsonaro, além de estar consolidado como pré-candidato do PL ao governo. Porém, ao mesmo tempo, existe um movimento dentro do próprio campo conservador que demonstra aproximação com Otaviano Pivetta. Isso fica evidente quando observamos posicionamentos de prefeitos importantes do estado, como Abilio Brunini, Flávia Moretti e Cláudio Ferreira. Também houve recentemente reuniões entre lideranças do PL e integrantes do grupo político de Pivetta. Então, existe claramente uma disputa interna dentro da direita para definir quem será o principal representante do bolsonarismo em Mato Grosso nas eleições de 2026.
RDM Online: Como a senhora avalia a postura do presidente estadual do PL, Ananias Filho, cobrando fidelidade partidária?
Christiany Fonseca: Ananias Filho vem adotando uma postura bastante firme dentro do partido. Ele tem defendido publicamente a pré-candidatura de Wellington Fagundes e reforçado a necessidade de maior fidelidade partidária por parte das lideranças da legenda. Existe uma preocupação do PL em evitar movimentos internos que possam enfraquecer o projeto eleitoral do partido. Ao mesmo tempo, também existe o entendimento de que não é possível obrigar prefeitos e lideranças políticas a aderirem integralmente a uma candidatura. O que deve acontecer é um aumento da pressão interna para evitar apoio público a outros projetos políticos, principalmente aqueles ligados ao grupo governista.

RDM Online: Existe possibilidade de Janaina Riva compor como vice de Otaviano Pivetta?
Christiany Fonseca: Isso vem sendo bastante especulado nos bastidores, principalmente depois da declaração de Otaviano Pivetta afirmando que gostaria de ter uma mulher na chapa, preferencialmente alguém da Baixada Cuiabana. Janaina possui um capital político importante e consegue dialogar muito bem tanto com o interior quanto com a Baixada Cuiabana. Porém, hoje, o cenário ainda parece mais favorável para ela caminhar politicamente ao lado de Wellington Fagundes. Isso porque a própria Janaina tem reforçado publicamente o alinhamento do MDB de Mato Grosso com a direita e também com o projeto político de Flávio Bolsonaro. Além disso, existe uma construção política nos bastidores envolvendo Wellington, Janaina e José Medeiros dentro de uma possível composição majoritária para 2026.
RDM Online: A diferença de cenário entre Wellington Fagundes e Jaime Campos pode influenciar as estratégias políticas dos dois?
Christiany Fonseca: Sem dúvida. Wellington Fagundes disputa a eleição em uma situação politicamente mais confortável, porque ainda possui quatro anos de mandato no Senado. Ou seja, ele não corre o risco de ficar sem cargo caso não vença a eleição para governador. Já Jaime Campos vive uma realidade diferente, porque precisa decidir entre disputar o Governo do Estado ou tentar a reeleição ao Senado. Hoje, eu vejo Jaime muito mais como uma peça estratégica dentro do processo eleitoral do que necessariamente dentro de um projeto consolidado de candidatura ao Senado. O apoio político dele pode acabar tendo peso decisivo na formação das alianças de 2026.
RDM Online: Até que ponto o agronegócio ainda influencia a política de Mato Grosso?
Christiany Fonseca: Para mim, essa influência continua extremamente forte. Desde a ascensão política de Blairo Maggi, o agronegócio passou a exercer protagonismo direto nas grandes construções políticas de Mato Grosso. Se observarmos os últimos governos estaduais, praticamente todos tiveram ligação muito forte com esse setor econômico. O agronegócio possui influência não apenas financeira, mas também política e eleitoral, especialmente na construção de alianças e no fortalecimento de candidaturas. Hoje, o agro continua sendo um dos grupos mais influentes dentro da política mato-grossense.
RDM Online: Otaviano Pivetta pode enfrentar desgaste por representar continuidade do atual grupo político?
Christiany Fonseca: Sim. Todos os pré-candidatos possuem gargalos eleitorais, e com Otaviano Pivetta não é diferente. Um dos principais desafios dele hoje é justamente ampliar o nível de conhecimento popular em algumas regiões do estado. Além disso, existe também o desgaste natural de representar continuidade administrativa do atual grupo político que governa Mato Grosso. Por isso, percebe-se uma estratégia clara de ampliação de diálogo político, principalmente com o eleitorado feminino e com a Baixada Cuiabana. A própria discussão sobre ter uma mulher na chapa passa também por essa construção política.
RDM Online: A disputa ao Senado já possui favoritos definidos?
Christiany Fonseca: Eu acredito que ainda não. Mauro Mendes e Janaina Riva aparecem hoje muito bem posicionados nas pesquisas, mas o cenário ainda está completamente aberto. Mauro, por exemplo, aparecia liderando alguns levantamentos ainda ocupando o cargo de governador, o que naturalmente garante visibilidade institucional muito forte. Já Janaina vinha crescendo também porque parte do eleitorado progressista a enxergava como segunda opção de voto ao Senado. Porém, esse cenário pode mudar a partir do momento em que ela reforça um alinhamento mais claro com a direita e com o bolsonarismo.
RDM Online: Antonio Galvan pode crescer por conta da ligação com o agronegócio?
Christiany Fonseca: Sim. Antonio Galvan continua sendo visto como um nome muito ligado ao setor produtivo rural e ao agronegócio. Mesmo existindo tensionamentos pontuais com alguns grupos tradicionais do agro, ele mantém forte diálogo com produtores rurais e segmentos importantes desse setor econômico. Isso fortalece bastante a imagem dele junto ao eleitorado conservador e ligado ao campo.
RDM Online: O apoio de lideranças nacionais como Flávio Bolsonaro e Lula pode influenciar diretamente as eleições em Mato Grosso?
Christiany Fonseca: Muito. Mato Grosso possui uma identificação histórica muito forte com o bolsonarismo, principalmente no Centro-Oeste. Então, qualquer aproximação com Flávio Bolsonaro acaba se tornando um ativo político importante para os candidatos da direita. Ao mesmo tempo, o campo progressista tenta fortalecer a ligação com Lula, especialmente pensando em nomes como Carlos Fávaro e Natasha Slhessarenko. Existe hoje uma disputa muito clara para definir quem conseguirá representar de maneira mais forte esses projetos nacionais dentro do estado.
RDM Online: Como a senhora avalia o cenário presidencial para 2026?
Christiany Fonseca: A tendência é de um primeiro turno com vários candidatos, principalmente dentro da direita. Hoje aparecem nomes como Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema buscando espaço nacional. Porém, conforme a eleição vai se aproximando e as pesquisas começam a mostrar cenários mais polarizados, parte do eleitorado tende a migrar para os candidatos considerados mais competitivos. Hoje, lulismo e bolsonarismo continuam sendo os dois grandes fenômenos políticos nacionais e devem novamente ocupar o centro da disputa presidencial em 2026.














