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SOBRETUDO

A política catarinense entrou em uma zona de conforto. E isso pode ser o maior risco de todos.

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Existe um momento em toda eleição em que os fatos deixam de ser o elemento mais importante do cenário político. O que passa a importar é a interpretação desses fatos. Santa Catarina parece ter chegado exatamente nesse ponto. As pesquisas mostram estabilidade, as alianças estão praticamente desenhadas, os partidos começam a fechar suas nominatas e as principais lideranças regionais já escolheram seus lados. Pela primeira vez em muitos meses, a política catarinense transmite uma sensação incomum: a de que pouca coisa mudou nas últimas semanas.

E talvez seja justamente isso que deva chamar a atenção dos observadores mais atentos. A história política ensina que períodos prolongados de estabilidade costumam gerar duas leituras possíveis. A primeira é que o cenário realmente está consolidado. A segunda é que todos estão olhando para os números do presente enquanto mudanças silenciosas começam a se formar nos bastidores. Em política, muitas vezes os movimentos mais importantes acontecem justamente quando parece que nada está acontecendo.

O favoritismo também cria problemas

A ampla liderança do governador Jorginho Mello nas pesquisas é hoje um fato consolidado. A questão é que liderar uma eleição com larga vantagem não elimina riscos. Em alguns casos, cria novos riscos. Quanto maior o favoritismo, maior a possibilidade de acomodação política. Lideranças regionais passam a agir como se o resultado fosse inevitável, aliados diminuem o senso de urgência e estruturas partidárias passam a trabalhar mais para preservar posições do que para ampliar espaços.

Historicamente, campanhas bem-sucedidas costumam ser movidas por inquietação, não por tranquilidade. Por isso, a principal ameaça para quem lidera raramente está apenas no adversário. Muitas vezes ela surge dentro da própria sensação de conforto que os números produzem. Não há qualquer sinal concreto de enfraquecimento do governador, mas há um desafio permanente para qualquer favorito: manter mobilização quando a impressão predominante é de que a disputa está sob controle.

A oposição precisa deixar os bastidores e encontrar o eleitor

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Se para o governo o desafio é evitar acomodação, para a oposição o desafio é ainda mais complexo. Durante meses, a maior parte da energia política foi consumida pela construção de alianças. Discutiu-se quem estaria junto, quem ocuparia espaços, quais partidos formariam blocos e quais lideranças caminhariam no mesmo projeto. Esse processo foi importante, mas chegou a um limite.

Toda oposição chega a um momento em que precisa parar de explicar sua composição e começar a explicar seu propósito. Esse momento parece ter chegado em Santa Catarina. O eleitor já sabe quem está se aproximando de quem. O que ainda não sabe é por que deveria trocar um governo que aparece bem avaliado por outro projeto político. Essa resposta ainda não apareceu com clareza no debate público e talvez seja exatamente aí que esteja a principal dificuldade enfrentada pelos adversários de Jorginho Mello.

MDB e Progressistas vivem desafios diferentes, mas igualmente decisivos

Pouca gente percebeu, mas duas das maiores transformações recentes da política catarinense estão acontecendo dentro do MDB e do Progressistas. No MDB, a discussão deixou de ser sobre qual lado escolher. O partido começa a agir como integrante efetivo de um projeto político definido. Isso fortalece a aliança construída em torno de João Rodrigues, mas também aumenta o tamanho da aposta. A partir de agora, o MDB passa a dividir não apenas os benefícios de uma eventual vitória, mas também os riscos de uma eventual derrota.

Já no Progressistas, o debate parece ser outro. O que está em discussão não é apenas uma aliança eleitoral. O que está sendo testado é a relação entre liderança política e autoridade institucional. De um lado está a estrutura partidária. Do outro, a liderança histórica representada por Esperidião Amin. É uma discussão que ultrapassa a eleição de 2026 e toca em uma questão presente em praticamente todos os partidos brasileiros: quem define o rumo de uma legenda quando a posição da direção não coincide integralmente com a estratégia de sua principal liderança?

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Os problemas reais começam a voltar para o centro da conversa

Talvez o movimento mais interessante dos últimos dias seja o retorno gradual de temas que haviam desaparecido sob o peso das articulações eleitorais. Infraestrutura, logística, mobilidade, energia, competitividade econômica e escassez de mão de obra voltam a aparecer em eventos empresariais, encontros regionais e discussões institucionais.

Esse retorno não acontece por acaso. Santa Catarina continua crescendo, atraindo investimentos e expandindo sua atividade econômica. Ao mesmo tempo, os gargalos estruturais começam a se tornar mais visíveis. Rodovias saturadas, dificuldades logísticas e demandas crescentes por infraestrutura exigem respostas que vão muito além das alianças partidárias. Mais cedo ou mais tarde, os candidatos terão de falar menos sobre quem estará em suas chapas e mais sobre como pretendem enfrentar esses desafios.

 

PONTO DE VISTA

A principal notícia da política catarinense neste momento talvez seja justamente a sensação de normalidade que domina o ambiente. O governo lidera. A oposição se organiza. Os partidos se posicionam. As pesquisas apresentam relativa estabilidade. Tudo parece caminhar dentro do esperado.

Mas a política raramente permanece muito tempo dentro do esperado.

Os próximos meses dirão se estamos diante de uma eleição que realmente encontrou seu rumo ou apenas vivendo um período de calmaria antes de uma nova reorganização do tabuleiro. Enquanto muitos continuam observando apenas pesquisas e alianças, talvez as perguntas mais importantes estejam surgindo em outro lugar. Nos desafios econômicos do Estado, nas mudanças de comportamento do eleitor e na capacidade dos candidatos de apresentar respostas para problemas concretos.

Porque eleições são vencidas por alianças. Mas governos são julgados pelos resultados que entregam. E, mais cedo ou mais tarde, é para esse debate que a política catarinense sempre acaba voltando.

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