A velha política está viva. Só falta desligar os aparelhos.
A baixaria e as mentiras que tomaram conta da campanha presidencial não revelam apenas o nível a que chegou a disputa pelo poder. Expõem algo ainda mais preocupante: a naturalização de comportamentos que deveriam provocar indignação, mas que, cada vez mais, são tratados como parte normal do jogo político.
Campanhas gravam vídeos com informações falsas, exploram o medo e tentam assustar a população, especialmente quem tem menos acesso à informação e mais dificuldade para distinguir fatos de manipulações. Políticos eleitos e não eleitos mentem como se não houvesse amanhã, sem demonstrar constrangimento ou preocupação com as consequências do que divulgam.
Tudo em nome de um objetivo: conquistar ou preservar o poder.
E não estamos falando de um fenômeno exclusivo de um partido ou de um campo ideológico. A prática atravessa diferentes grupos políticos. O que muda é o discurso, o personagem e o alvo escolhido para o ataque. A lógica, porém, permanece a mesma: vale tudo quando o adversário precisa ser derrotado.
O problema é que a mentira não termina quando o vídeo deixa de circular ou quando a campanha muda de assunto. Ela permanece na cabeça das pessoas, alimenta desconfianças, amplia divisões e transforma adversários políticos em inimigos que precisam ser destruídos.
Mas existe uma questão ainda mais grave nessa história: por que isso continua funcionando?
A resposta não está apenas nos políticos que produzem e disseminam esse tipo de conteúdo. Está também em uma sociedade que, aos poucos, parece ter perdido a capacidade de se indignar. Quando a mentira vem do lado adversário, é denunciada como um absurdo. Quando beneficia o candidato de preferência, ganha justificativas, relativizações e até aplausos.
É nesse momento que a política perde parte de sua função e se transforma em uma disputa de torcidas. A verdade deixa de ser um compromisso e passa a ser um detalhe inconveniente. O que importa não é o que foi dito, mas quem disse. Não é se a informação é verdadeira, mas se ajuda a derrotar o outro.
As redes sociais ampliaram o alcance e a velocidade desse processo. Um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhares de pessoas antes que alguém consiga verificar seu conteúdo. Uma acusação pode destruir reputações, enquanto uma correção dificilmente alcança o mesmo público. E quem trabalha deliberadamente com a desinformação sabe disso.
Ainda assim, não podemos colocar toda a responsabilidade nas plataformas ou na tecnologia. Ferramentas não substituem o caráter de quem as utiliza, assim como a velocidade da informação não elimina a responsabilidade de quem escolhe divulgá-la.
Políticos precisam responder pelo que dizem e fazem. Campanhas precisam respeitar os limites éticos e legais da disputa. E os eleitores precisam compreender que defender um candidato não significa conceder a ele um cheque em branco.
Democracia não exige concordância. Exige respeito aos fatos, responsabilidade no debate e disposição para reconhecer os próprios erros. Sem isso, a eleição corre o risco de se resumir a uma batalha de narrativas em que a verdade é apenas mais uma vítima.
O maior perigo, portanto, não é apenas ter políticos dispostos a mentir para conquistar ou preservar o poder. É chegarmos ao ponto em que a sociedade já não se importa com isso.
Quando a mentira vira estratégia, o medo vira instrumento eleitoral e a baixaria passa a ser tratada como entretenimento, quem perde não é este ou aquele candidato. É a própria democracia.
Políticos irresponsáveis podem até sobreviver eleitoralmente às próprias mentiras. Mas uma sociedade que se acostuma a elas corre o risco de perder algo muito mais importante: a capacidade de distinguir o debate político da manipulação.
A velha política continua viva. E talvez o mais preocupante seja perceber que não faltam eleitores dispostos a mantê-la respirando.
Só nos resta torcer para que ainda esteja por aparelhos.





























