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NA GUERRA ELEITORAL, QUEM ESTÁ CONTANDO A VERDADE AO ELEITOR?

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A inteligência artificial transformou a mentira em uma arma política. E o eleitor corre o risco de acreditar naquilo que nunca aconteceu.

A campanha presidencial mal entrou na segunda etapa e já oferece um sinal preocupante sobre o que está por vir: a disputa pelo voto também será uma disputa pela realidade.

Nesta sexta-feira, um vídeo falso atribuído a Flávio Bolsonaro circulou nas redes sociais como se o candidato anunciasse cortes em aposentadorias, no 13º salário e no programa Pé-de-Meia. O conteúdo foi identificado como uma montagem produzida com inteligência artificial. Não é um detalhe técnico. É uma tentativa de colocar na boca de um candidato palavras que ele não pronunciou, explorando o medo de milhões de brasileiros.

Na véspera, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de três publicações de Flávio Bolsonaro no X. Uma delas utilizava inteligência artificial para simular Lula em uma situação inexistente. As outras associavam o presidente a organizações criminosas. A decisão foi tomada por unanimidade.

Os episódios são diferentes, mas apontam para o mesmo problema: a tecnologia tornou muito mais fácil fabricar imagens, vozes e declarações capazes de confundir quem está do outro lado da tela.

E aqui está a questão que merece atenção: se já é difícil combater uma mentira, como fazer isso quando ela parece mais convincente do que a própria verdade?

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O problema não está apenas nos candidatos. Está também na estrutura de comunicação política que se formou nas redes sociais, onde conteúdos que provocam raiva, medo e indignação costumam ganhar velocidade antes que alguém pare para verificar sua origem.

Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas em minutos. Uma correção, mesmo bem fundamentada, nem sempre chega ao mesmo público. E, quando chega, o estrago pode estar feito.

Há ainda uma responsabilidade que não pode ser ignorada: a de quem compartilha. Nem todo mundo que espalha uma informação falsa age de má-fé. Mas a boa intenção não transforma uma mentira em verdade. Antes de encaminhar um vídeo explosivo, vale perguntar quem o publicou, de onde veio e se existe alguma confirmação independente.

Isso não significa colocar todas as acusações no mesmo patamar, nem fingir que todos os lados cometem os mesmos erros. Cada episódio precisa ser analisado com fatos, provas e responsabilidade. O que não pode existir é um critério para a mentira do adversário e outro para a mentira do aliado.

A Justiça Eleitoral tem um papel fundamental nesse cenário. Precisa agir contra fraudes, manipulações e abusos, com decisões fundamentadas, transparência e respeito ao direito de defesa. Ao mesmo tempo, o combate à desinformação não pode servir de justificativa para restringir críticas legítimas ou transformar divergências políticas em infrações.

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O desafio é encontrar esse equilíbrio sem abrir espaço para que a mentira se torne uma estratégia eleitoral vantajosa.

O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro será decidido por votos, mas a formação desses votos depende também das informações que chegam aos eleitores. Por isso, a responsabilidade das campanhas, das plataformas digitais, das autoridades e da própria sociedade é enorme.

Uma democracia não exige que todos pensem igual. Exige que as pessoas possam formar suas opiniões a partir de fatos, e não de acontecimentos fabricados para manipular suas escolhas.

No fim, a pergunta que fica não é apenas qual candidato merece o voto. É se estamos dispostos a conferir aquilo em que acreditamos antes de transformar uma informação em argumento, um argumento em ataque e um ataque em certeza.

Porque, quando a mentira ganha a aparência da verdade, não é apenas um candidato que pode ser prejudicado. É o próprio eleitor que perde o direito de decidir com consciência.

Em uma eleição, a disputa pelo poder é legítima. A fabricação da realidade, não.

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