Pesquisas eleitorais costumam produzir um efeito quase automático. Os olhos correm imediatamente para o primeiro colocado, calculam a distância para os adversários e procuram identificar quem cresceu ou quem caiu em relação ao levantamento anterior. É um exercício legítimo, mas frequentemente superficial. Ele explica a fotografia, porém raramente ajuda a compreender o filme. E a política quase sempre é decidida pelo filme, não pela imagem congelada de um único momento.
A pesquisa do Instituto Mapa divulgada pela Jovem Pan News confirma aquilo que o cenário político já vinha sugerindo: Jorginho Mello permanece amplamente à frente da disputa pelo Governo de Santa Catarina, com 54,9% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 15,3% de João Rodrigues e 5,1% de Gelson Merisio. Mais do que isso, a comparação com o levantamento anterior mostra estabilidade. Jorginho oscilou de 56,2% para 54,9%, João de 15,5% para 15,3%, enquanto Merisio avançou de 3,4% para 5,1%, sempre dentro de um quadro em que o governador mantém larga vantagem. Nos cenários de segundo turno, a superioridade também aparece com folga: 58% contra 25,7% diante de João Rodrigues e 69,7% contra 14,9% diante de Gelson Merisio.
Até aqui, não existe novidade.
A novidade está escondida em outro quadro da pesquisa.
Na espontânea, quando nenhum nome é apresentado ao entrevistado, 56,9% dos catarinenses simplesmente não sabem dizer em quem votariam. Apenas 32% citam espontaneamente Jorginho Mello, 6,9% lembram de João Rodrigues e 1,4% mencionam Gelson Merisio.
Esse talvez seja o dado mais importante de todo o levantamento.
Porque ele revela duas eleições acontecendo ao mesmo tempo.
A primeira é a eleição da classe política. Nela, alianças estão praticamente definidas, convenções realizadas, chapas estruturadas e estratégias desenhadas. Os partidos vivem intensamente o calendário eleitoral.
A segunda é a eleição da sociedade. E, nela, mais da metade do eleitorado ainda não incorporou a disputa ao cotidiano. Isso não significa que esses eleitores mudarão completamente de posição. Significa algo diferente: a campanha ainda não ocupa espaço suficiente para produzir lembrança espontânea. Em outras palavras, a política já está em campanha, mas uma parcela expressiva da sociedade ainda não entrou nela.
Essa diferença altera completamente a forma de interpretar os números.
Quando um candidato alcança quase 55% no voto estimulado, muitos concluem que a eleição está resolvida. Mas o dado espontâneo recomenda mais cautela. Ele demonstra que existe um enorme contingente de eleitores que ainda não verbaliza sua escolha sem ser provocado. Em eleições, isso costuma indicar que o ambiente político ainda pode ganhar intensidade à medida que a campanha avança.
Outro dado passa quase despercebido. Jorginho lidera com ampla vantagem, mas registra 16,2% de rejeição, a maior entre os nomes pesquisados. João Rodrigues aparece com 7,3%, praticamente a metade. À primeira vista, pode parecer uma fragilidade do governador. Na verdade, trata-se de um fenômeno esperado. Quem governa há mais tempo é naturalmente mais conhecido, mais avaliado e, consequentemente, mais rejeitado. A oposição ainda dispõe do benefício de ser menos testada.
Mais interessante do que comparar rejeições é observar outro número: 34,2% dos entrevistados afirmam não rejeitar nenhum dos candidatos apresentados. Trata-se de um eleitorado aberto, pouco radicalizado e potencialmente disponível para ouvir propostas ao longo da campanha.
Esse dado ajuda a compreender uma característica histórica de Santa Catarina. O eleitor catarinense costuma decidir menos por fidelidade partidária e mais pela percepção de competência administrativa. Não é um comportamento imune à polarização nacional, mas tampouco se explica apenas por ela. Há um pragmatismo que permanece presente e que faz com que avaliações de gestão, confiança e capacidade de entrega tenham peso semelhante — ou superior — ao simples alinhamento ideológico.
Há ainda um aspecto estratégico que merece atenção. A estabilidade dos números beneficia, neste momento, quem lidera. Enquanto o governador preserva sua vantagem praticamente intacta entre março e junho, os adversários ainda não conseguiram produzir um fato político capaz de alterar significativamente o cenário. Em campanhas majoritárias, a estabilidade prolongada costuma criar uma percepção de favoritismo que, por si só, influencia parte do eleitorado. Não porque as pessoas desejem votar em quem está na frente, mas porque começam a enxergar aquela candidatura como a mais provável vencedora.
Na ciência política, esse fenômeno é conhecido como expectativa de viabilidade. Uma candidatura deixa de ser vista apenas como competitiva e passa a ser percebida como provável vencedora. Quando isso acontece, a disputa muda de natureza. A oposição já não precisa apenas crescer. Precisa quebrar a percepção de inevitabilidade construída em torno do líder.
É exatamente esse o desafio que emerge da pesquisa.
Para Jorginho Mello, o levantamento é confortável porque confirma liderança, estabilidade e vantagem expressiva em todos os cenários apresentados. O desafio do governador, daqui para frente, será impedir que essa vantagem produza acomodação entre seus apoiadores.
Para João Rodrigues, a pesquisa impõe uma missão mais complexa. Não basta reduzir a diferença numérica. Será necessário criar um ambiente político novo, capaz de convencer o eleitor de que a disputa continua aberta. Enquanto isso não acontecer, cada nova pesquisa tenderá a reforçar a percepção de favoritismo do atual governador.
Mais do que medir intenções de voto, esta pesquisa revela o estágio psicológico da eleição. Ela mostra um governador consolidado, uma oposição ainda procurando ampliar seu espaço e um eleitorado que, apesar de acompanhar a política, ainda não transformou a eleição em assunto cotidiano.
PONTO DE VISTA
O erro mais comum na leitura de pesquisas é acreditar que elas respondem quem vai ganhar a eleição.
Elas não respondem.
Pesquisas mostram em que momento a eleição se encontra.
E esta revela algo curioso: a política já vive intensamente 2026, mas boa parte da sociedade ainda não.
É justamente nesse intervalo que campanhas crescem, estagnam ou se desfazem.
A PERGUNTA QUE FICA
A vantagem expressiva de Jorginho Mello representa uma tendência consolidada até outubro ou é apenas o retrato de uma campanha que ainda não começou para a maioria dos catarinenses?
Porque, às vezes, a informação mais importante de uma pesquisa não está em quem aparece na frente.
Está em perceber quantos eleitores ainda nem começaram, de fato, a disputar essa eleição.

























