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A eleição invisível já começou. E ela pode decidir quem ocupará as vagas no Senado.

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As pesquisas eleitorais costumam despertar uma curiosidade imediata: quem está na frente? É uma pergunta natural, mas nem sempre é a mais importante. Em muitas eleições, a liderança explica o momento. Em outras, explica muito pouco. O que realmente define o resultado acontece nos bastidores da própria disputa, quando candidatos que compartilham o mesmo eleitorado passam a competir entre si antes mesmo de enfrentar seus adversários ideológicos.

A nova pesquisa do Instituto de Pesquisa Catarinense (IPC), divulgada nesta semana, parece indicar que a corrida ao Senado em Santa Catarina entrou exatamente nessa fase.

Os números mostram Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni e Esperidião Amin formando o grupo mais competitivo da centro-direita. Décio Lima segue como principal nome da esquerda. Antídio Lunelli, por sua vez, deixa definitivamente a condição de coadjuvante para ocupar um espaço que exige atenção política.

A leitura superficial da pesquisa leva à conclusão de que há quatro ou cinco candidatos disputando duas vagas.

A leitura mais cuidadosa mostra outra realidade.

Existem, na verdade, duas eleições acontecendo ao mesmo tempo.

A primeira é a que todos enxergam: direita contra esquerda.

A segunda, muito menos visível, acontece dentro da própria direita.

E talvez seja ela que decidirá o resultado final.

Durante décadas, Esperidião Amin ocupou praticamente sozinho um espaço político muito específico em Santa Catarina. Um eleitorado conservador, municipalista, identificado com sua experiência administrativa e com forte presença no interior do Estado.

Esse espaço deixou de ser exclusivo.

A candidatura de Antídio Lunelli passa a dialogar com parte desse mesmo eleitor. Pela origem municipalista, pelo perfil empresarial, pela história construída no interior e pela capacidade de conversar com um segmento semelhante do eleitorado catarinense.

Nenhuma pesquisa permite afirmar matematicamente que os votos de Antídio vieram de Amin.

Mas a política não se resume à matemática.

Ela também é feita da leitura dos movimentos.

E, nesse aspecto, a comparação entre os levantamentos começa a revelar um fenômeno consistente: Antídio não apenas cresce. Ele cresce ocupando um território político que, historicamente, tinha em Esperidião Amin seu principal representante.

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É uma mudança silenciosa.

Mas profundamente relevante.

Ao mesmo tempo, Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni travam outra disputa igualmente estratégica.

Ambos dialogam com um eleitorado fortemente identificado com o PL e com o bolsonarismo. Ainda que exista complementaridade entre as candidaturas, também existe inevitável competição pelo protagonismo dentro do mesmo campo político.

Isso significa que a centro-direita vive hoje um fenômeno raro.

Ela reúne vários candidatos competitivos disputando parcelas de um mesmo eleitorado.

À primeira vista, isso pode parecer demonstração de força.

Nem sempre é.

Na ciência política existe um conceito conhecido como canibalização eleitoral.

Ele ocorre quando candidaturas de um mesmo campo passam a consumir mutuamente seus espaços de crescimento. O resultado não é necessariamente a perda da maioria política, mas a perda de eficiência eleitoral.

Em outras palavras: um bloco pode continuar sendo majoritário e, ainda assim, transformar sua vantagem em dificuldade simplesmente porque distribuiu seus votos entre muitos candidatos.

É justamente aqui que a candidatura de Décio Lima ganha outra dimensão.

Não porque a pesquisa indique crescimento extraordinário.

Mas porque seu campo político apresenta uma característica diferente.

Enquanto a centro-direita divide votos entre Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni, Esperidião Amin e Antídio Lunelli, a esquerda permanece muito mais concentrada em torno de Décio.

Isso não significa vantagem automática.

Mas reduz um problema que hoje preocupa seus adversários: a disputa diária pelo mesmo eleitor.

Quanto maior for a pulverização da centro-direita, maior tende a ser a eficiência relativa de um eleitorado mais concentrado.

É uma lógica que frequentemente decide eleições e quase nunca aparece nas manchetes.

Outro dado reforça essa percepção.

Quase um quarto dos eleitores ainda não definiu seus votos para o Senado.

É um índice elevado para uma disputa que reúne nomes tão conhecidos.

Isso demonstra que a eleição permanece extremamente aberta e que haverá pouco espaço para campanhas acomodadas.

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Quem imaginar que basta preservar sua base poderá descobrir, mais adiante, que preservar deixou de ser suficiente.

Será preciso ampliar.

Mas ampliar sem perder espaço para quem disputa exatamente o mesmo eleitor.

É um desafio muito mais complexo.

Os próximos movimentos

Esperidião Amin precisará mostrar que continua sendo a principal referência daquele eleitorado tradicional que sempre o acompanhou.

Antídio Lunelli tentará convencer esse mesmo segmento de que representa uma renovação possível sem romper com seus valores.

Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni terão de administrar uma convivência delicada entre duas candidaturas fortes dentro de um mesmo campo político, buscando ampliar suas fronteiras sem reduzir mutuamente seus potenciais.

Décio Lima, por sua vez, observará atentamente essa disputa interna sabendo que, em eleições para duas vagas, nem sempre cresce quem faz a melhor campanha.

Às vezes cresce quem encontra o adversário dividido.

PONTO DE VISTA

Existe um velho ensinamento da estratégia militar que também serve para a política.

Exércitos raramente são derrotados apenas pela força do adversário.

Muitas vezes, perdem porque desperdiçam sua própria capacidade de combate.

Talvez seja exatamente esse o momento vivido pela disputa ao Senado em Santa Catarina.

A pesquisa do IPC não revela apenas quem lidera.

Ela revela que o verdadeiro campo de batalha mudou de lugar.

Antes de enfrentar seus adversários ideológicos, Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni, Esperidião Amin e Antídio Lunelli precisarão vencer uma guerra silenciosa entre si.

Quem conseguir sair dessa disputa interna preservando sua força chegará muito mais competitivo à reta final.

Quem não conseguir poderá descobrir que perdeu espaço antes mesmo de enfrentar o verdadeiro adversário.

A PERGUNTA QUE FICA

Se a eleição para o Senado continuar sendo decidida pela fragmentação dos grandes blocos políticos, o vencedor será quem conquistar mais eleitores… ou quem conseguir administrar melhor os votos que seu próprio campo já possui?

Porque, às vezes, a política não premia quem avança mais.

Premia quem desperdiça menos.

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