Há um fenômeno silencioso acontecendo na política catarinense que pode definir muito mais do que as convenções partidárias ou as próximas pesquisas eleitorais. Enquanto os partidos continuam discutindo alianças, distribuição de espaço, montagem de chapas e estratégias de campanha, o eleitor parece ter avançado algumas etapas nessa construção. As lideranças políticas ainda estão preocupadas em organizar as candidaturas. O cidadão, por outro lado, começa a decidir qual perfil de governante e de representante deseja para os próximos anos. Essa diferença de ritmo entre a política e a sociedade pode ser uma das marcas da eleição de 2026.
Durante décadas, as campanhas foram estruturadas a partir de uma lógica bastante conhecida. Primeiro vinham as alianças. Depois, a definição das candidaturas. Em seguida, a construção do discurso e, por fim, a tentativa de convencer o eleitor. Esse modelo fazia sentido em um período em que partidos exerciam maior influência sobre o voto e a televisão concentrava quase toda a comunicação eleitoral. Hoje, essa ordem parece ter sido invertida. O eleitor forma impressões muito antes da campanha começar oficialmente e, quando as convenções chegam, muitas dessas percepções já estão consolidadas.
Isso ajuda a explicar por que as pesquisas mais recentes em Santa Catarina não revelam apenas intenções de voto. Elas mostram que determinadas imagens políticas começam a ganhar consistência. Jorginho Mello aparece consolidado porque ocupa naturalmente a posição de governador e conseguiu preservar uma percepção de competitividade. João Rodrigues permanece como principal alternativa porque construiu uma identidade própria perante o eleitorado. Nenhum dos dois depende exclusivamente das alianças que costurou. Ambos já carregam um patrimônio político que antecede a campanha: uma percepção construída ao longo do tempo.
No Senado, esse fenômeno talvez seja ainda mais evidente. Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni, Esperidião Amin, Décio Lima e Antídio Lunelli representam muito mais do que candidaturas individuais. Cada um simboliza um espaço político específico. Carlos Bolsonaro dialoga diretamente com o eleitor mais identificado com o bolsonarismo nacional. Caroline de Toni consolidou seu nome como uma das principais lideranças do PL em Santa Catarina. Esperidião Amin continua sendo uma referência histórica para um eleitorado conservador e municipalista. Décio Lima preserva a principal liderança do campo progressista. Antídio Lunelli tenta ocupar uma faixa do eleitorado que valoriza gestão, interiorização e renovação sem romper com valores tradicionais.
Perceba que, nesse momento, a disputa começa a deixar de ser sobre quem conseguiu mais apoio partidário e passa a ser sobre quem conseguiu construir uma identidade política mais clara. O eleitor contemporâneo parece procurar menos um partido e mais um perfil. Essa mudança altera profundamente a lógica das campanhas.
É justamente por isso que as convenções partidárias, embora fundamentais para organizar juridicamente as eleições, talvez tenham importância muito maior para os dirigentes do que para o cidadão comum. Para os partidos, elas definem fundo eleitoral, tempo de propaganda, coligações e chapas proporcionais. Para o eleitor, elas servem apenas para confirmar escolhas que, em muitos casos, já eram conhecidas.
Existe aqui uma distinção importante que a política nem sempre percebe.
As convenções organizam o capital institucional das campanhas. Definem quem terá estrutura, recursos financeiros, tempo de televisão e legitimidade partidária. Mas elas não garantem o capital político, que é formado por confiança, credibilidade, liderança, capacidade de mobilização e conexão com o eleitor. E a experiência demonstra que um não substitui o outro.
A política brasileira está repleta de exemplos de candidaturas que reuniram enormes estruturas partidárias e fracassaram porque nunca conseguiram transformar esse patrimônio institucional em confiança popular. Da mesma forma, diversas campanhas cresceram justamente porque apresentaram ao eleitor uma narrativa coerente e uma percepção clara de viabilidade, mesmo dispondo de estruturas menores.
Santa Catarina possui uma característica que torna esse fenômeno ainda mais evidente. Historicamente, o eleitor catarinense demonstra forte inclinação ao pragmatismo. Questões como capacidade administrativa, equilíbrio fiscal, resultados concretos e experiência de gestão costumam pesar tanto quanto — ou até mais do que — alinhamentos ideológicos. Isso não significa que a polarização tenha desaparecido. Significa apenas que, no momento da escolha, o eleitor costuma procurar sinais de competência antes de confirmar sua preferência.
Essa característica ajuda a compreender por que as próximas semanas serão decisivas. As alianças praticamente estão definidas. As convenções tendem a oficializar aquilo que já vinha sendo construído nos bastidores. O grande desafio das candidaturas deixa de ser a negociação entre partidos e passa a ser a confirmação das percepções construídas junto ao eleitor.
Jorginho Mello precisará demonstrar que o favoritismo observado nas pesquisas é sustentável. João Rodrigues terá de convencer que sua candidatura possui capacidade real de reduzir a vantagem do governador. Esperidião Amin buscará preservar um espaço político que passou a ser disputado de forma mais intensa. Antídio Lunelli tentará consolidar sua presença sem perder a identidade que o diferenciou até aqui. Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni precisarão ampliar suas fronteiras eleitorais sem transformar a disputa interna em fator de desgaste. Décio Lima acompanhará atentamente a reorganização do campo adversário, sabendo que eleições majoritárias nem sempre premiam apenas quem cresce, mas também quem encontra o cenário mais favorável para consolidar sua base.
Em comum, todos enfrentarão um desafio muito diferente daquele vivido até agora. A partir deste momento, as candidaturas deixam de ser avaliadas pelas expectativas que geram e passam a ser julgadas pela capacidade de sustentar essas expectativas ao longo da campanha. Essa costuma ser a fase em que muitas campanhas deixam de crescer não por falta de estrutura, mas por falta de consistência.
PONTO DE VISTA
A política continua acreditando que eleições são construídas principalmente nas mesas de negociação. O eleitor parece demonstrar outra lógica. Ele observa as alianças, acompanha os movimentos partidários e entende a importância das convenções, mas sua decisão nasce de uma pergunta muito mais simples: quem transmite segurança para governar ou representar Santa Catarina?
Essa talvez seja a principal transformação do ambiente eleitoral. As alianças permanecem indispensáveis porque estruturam as campanhas. Mas elas já não são suficientes para construir uma candidatura competitiva. O que realmente passa a diferenciar os candidatos é a capacidade de transformar estrutura em credibilidade, apoio partidário em confiança popular e estratégia eleitoral em convicção do eleitor.
As convenções organizarão as campanhas. Mas dificilmente decidirão a eleição.
A PERGUNTA QUE FICA
Quando a campanha finalmente ocupar as ruas, os partidos conseguirão convencer o eleitor de que suas alianças representam um projeto consistente para Santa Catarina ou descobrirão que o cidadão já escolheu, muito antes das convenções, o perfil de liderança que procura e apenas espera identificar quem melhor o representa?
Porque, no fim, campanhas podem ser organizadas por partidos. Mas eleições continuam sendo decididas por confiança.

























