Santa Catarina vive uma contradição curiosa. O Estado se renova economicamente, atrai investimentos, lidera indicadores de inovação, forma novas lideranças empresariais e vê surgir empreendedores, gestores e profissionais que ganham relevância todos os anos. Mas basta olhar para o cenário político para perceber que a renovação não acontece na mesma velocidade.
Os principais protagonistas da política catarinense continuam sendo, em grande parte, os mesmos nomes que ocupam espaço há décadas. Não há problema algum na experiência. Pelo contrário. A experiência é um ativo valioso. O problema surge quando ela deixa de conviver com a renovação e passa a substituí-la. É justamente aí que muitos partidos parecem ter criado um problema para si próprios.
Ao longo dos anos, diversas lideranças jovens surgiram em câmaras municipais, movimentos empresariais, entidades de classe, universidades e administrações locais. Muitos demonstraram capacidade de comunicação, boa formação técnica e potencial eleitoral. Alguns chegaram à Assembleia Legislativa, outros conquistaram espaço regional importante. Mas poucos conseguiram romper a barreira que separa a política local dos centros reais de decisão dos partidos.
O efeito pinus da política catarinense
Nos bastidores, alguns políticos costumam fazer uma comparação interessante. Dizem que determinados partidos funcionam como florestas de pinus. Quando uma árvore cresce demais, ela bloqueia a luz, consome os recursos ao redor e impede que outras espécies se desenvolvam.
A metáfora ajuda a explicar um fenômeno que se repete em praticamente todas as legendas. Muitos dirigentes partidários falam em renovação, mas agem como administradores de patrimônio político. Em vez de formar sucessores, acabam formando dependentes. Em vez de abrir espaço para novas lideranças, trabalham para evitar o surgimento de concorrentes internos.
O resultado é conhecido. Prefeitos promissores ficam confinados aos seus municípios. Vereadores com potencial estadual não conseguem avançar. Deputados jovens encontram dificuldades para ampliar seus espaços. Quando começam a crescer, frequentemente descobrem que existe um teto invisível imposto pela própria estrutura que deveria ajudá-los a subir.
Renovação virou sucessão
O problema se agravou porque muitos partidos passaram a confundir renovação com sucessão familiar. Em vez de apostar em novos líderes, passaram a apostar em herdeiros políticos.
Filhos, netos, parentes ou sucessores escolhidos pelas lideranças tradicionais recebem visibilidade, estrutura e espaço partidário. Em alguns casos funcionam. Em muitos outros, não.
O sobrenome pode abrir portas. Pode facilitar campanhas. Pode garantir manchetes. O que ele não consegue garantir é liderança. Tampouco consegue garantir votos de forma automática.
O eleitor pode respeitar uma trajetória construída por décadas. Mas isso não significa que transferirá esse respeito para a geração seguinte apenas por laços familiares. A política brasileira está cheia de exemplos de heranças eleitorais que não conseguiram reproduzir a força política de quem as originou. Prestígio não é hereditário. Liderança também não.
O problema não é falta de talentos
Santa Catarina nunca sofreu por falta de quadros qualificados. O Estado produz lideranças políticas, empresariais e comunitárias com frequência. O problema está na capacidade dos partidos de absorver e desenvolver esses talentos.
Muitas vezes, os novos nomes conseguem chegar até determinado ponto. Tornam-se vereadores, prefeitos ou deputados. O desafio aparece quando tentam avançar além disso. É nesse momento que frequentemente encontram estruturas fechadas, espaços ocupados e projetos pessoais que acabam prevalecendo sobre os interesses coletivos do partido.
A consequência é um cenário cada vez mais previsível. Os mesmos grupos se revezam. Os mesmos sobrenomes permanecem em evidência. E a renovação, tão celebrada nos discursos partidários, continua acontecendo muito mais na propaganda do que na prática.
O que a política poderia aprender com o esporte
Existe outra questão que raramente aparece no debate político, mas que ajuda a explicar parte desse problema.
Por que tantos políticos têm dificuldade de deixar o palco?
No esporte profissional existe uma compreensão quase universal. Os grandes atletas entendem que existe um momento de chegada e um momento de saída. Nem todos acertam o tempo, é verdade. Alguns insistem além da conta. Mas os que entram para a história geralmente sabem reconhecer quando o ciclo chegou ao fim e deixam as competições ainda admirados pelo público.
Na política, o comportamento costuma ser o oposto.
Lideranças que construíram carreiras respeitáveis, conquistaram mandatos, exerceram influência e deixaram marcas importantes frequentemente insistem em permanecer no centro do poder indefinidamente. Em vez de preparar sucessores, tornam-se obstáculos para que eles apareçam. Em vez de consolidar um legado, passam a gastar parte do capital político acumulado ao longo da vida tentando prolongar uma trajetória que já não precisa de novas provas.
A consequência é conhecida. Muitos políticos não encerram suas carreiras por decisão própria. Acabam sendo retirados pelas urnas, pelo desgaste ou pela perda gradual de relevância. Em alguns casos, terminam a trajetória com uma imagem menor do que aquela que construíram durante décadas.
Isso levanta uma pergunta desconfortável. Quando uma liderança insiste em disputar mais uma eleição, mais um mandato ou mais um espaço de poder, ela está defendendo um projeto para a sociedade ou apenas lutando para permanecer relevante?
A resposta não é simples. Mas ela ajuda a explicar por que tantos partidos encontram dificuldade para renovar seus quadros. Afinal, a renovação não depende apenas da chegada de novos nomes. Ela também depende da disposição dos antigos líderes de abrir espaço.
A política mudou. Os partidos nem sempre perceberam.
Durante muito tempo, esse modelo funcionou. Os partidos controlavam as estruturas, as candidaturas e os caminhos para o crescimento político. Hoje a realidade é diferente.
As redes sociais reduziram a dependência das máquinas partidárias. A comunicação se tornou mais direta. A formação de lideranças passou a acontecer também fora dos partidos. Empresários, lideranças comunitárias, influenciadores e gestores públicos conseguem construir relevância sem depender dos mesmos filtros que existiam há vinte anos.
Isso não elimina o poder das estruturas tradicionais. Mas reduz sua capacidade de controlar completamente quem cresce e quem desaparece. E talvez seja justamente por isso que tantos partidos estejam encontrando dificuldades para se renovar. Continuam funcionando com regras de uma política que já não existe mais.
PONTO DE VISTA
Talvez a maior ameaça aos partidos catarinenses não esteja nos adversários que enfrentam nas eleições. Talvez esteja dentro de casa.
Partidos existem para muito mais do que disputar cargos. Eles existem para formar lideranças, interpretar mudanças sociais e preparar o futuro. Quando deixam de cumprir essa função e passam a funcionar apenas como instrumentos de preservação de grupos já estabelecidos, começam lentamente a perder conexão com a realidade que existe fora de suas sedes.
Santa Catarina continua produzindo novas lideranças. Continua formando gestores, empreendedores e agentes públicos capazes de ocupar espaços relevantes. A pergunta é se os partidos estão preparados para recebê-los.
Porque a história política mostra uma lição recorrente: quando a renovação é bloqueada por muito tempo, ela não desaparece. Ela apenas encontra outro caminho para acontecer.
E talvez esteja chegando a hora de a política catarinense discutir uma questão que o esporte profissional compreendeu há muito tempo. Saber sair por cima pode ser tão importante quanto saber vencer.
Afinal, nenhum partido morre por falta de passado. Mas muitos começam a envelhecer quando deixam de acreditar no futuro.


























