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SOBRETUDO A política precisa de votos. O país precisa de representantes preparados.

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Existe uma discussão sobre política que quase nunca fazemos com a profundidade necessária: qual é o nível de preparo que estamos exigindo de quem pretende nos representar?

Não se trata de elitizar a política. Não é preciso diploma, título acadêmico ou currículo sofisticado para ser um bom político. Experiência de vida, conhecimento da realidade, capacidade de ouvir e sensibilidade para compreender os problemas da população também são formas de preparo.

Mas alguma coisa precisa ser exigida.

Quem ocupa um mandato precisa saber ler uma realidade, interpretar números, compreender leis, conhecer as atribuições do cargo, fiscalizar o dinheiro público e, principalmente, ter capacidade para pensar soluções.

Porque os problemas são velhos.

Saúde, segurança, educação, mobilidade, infraestrutura, saneamento, emprego, desenvolvimento. Há décadas repetimos os mesmos diagnósticos e, muitas vezes, as mesmas promessas.

O que falta não é necessariamente mais discurso.

Falta inteligência para fazer diferente.

E aqui existe uma responsabilidade que não pode ser colocada apenas sobre o eleitor.

O eleitor escolhe entre os nomes que chegam à urna. Antes disso, os partidos já fizeram suas escolhas. São eles que selecionam os candidatos, formam suas nominatas e definem, em grande medida, a qualidade da oferta que será apresentada à população.

É legítimo que os partidos busquem nominatas competitivas. Faz parte da disputa eleitoral.

Mas será que é só isso que se espera de um partido?

Partido político não deveria ser apenas uma máquina de fabricar candidaturas e somar votos. Deveria ser também um espaço de formação política, preparação de lideranças e construção de projetos para a sociedade.

Quando a lógica passa a ser simplesmente “precisamos de nomes que tragam votos para atingir o coeficiente e eleger os nossos principais candidatos”, a qualidade do futuro Parlamento corre o risco de ficar em segundo plano.

E essa é uma responsabilidade que precisa ser cobrada dos partidos.

Porque não basta perguntar quantos votos determinado candidato pode trazer. É preciso perguntar que tipo de representante ele será depois de eleito.

O partido conhece seus candidatos. Sabe suas histórias, suas experiências, sua capacidade de articulação e suas limitações. Mesmo assim, muitas vezes coloca todos no mesmo pacote eleitoral e entrega ao eleitor a responsabilidade de fazer, sozinho, uma seleção que deveria começar dentro das próprias organizações partidárias.

É cômodo demais colocar toda a culpa no eleitor depois que a eleição termina.

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Se um partido apresenta uma nominata formada por pessoas sem preparo suficiente para exercer o mandato, ele também precisa assumir sua parcela de responsabilidade pelo resultado.

A política não pode funcionar como uma linha de montagem em que primeiro se procura qualquer nome capaz de obter votos e só depois se descobre se ele estava preparado para exercer a função pública.

Não basta preencher uma nominata. É preciso formar uma bancada.

E uma bancada não deveria ser medida apenas pelo número de votos que consegue reunir. Deveria ser formada por pessoas capazes de legislar, fiscalizar, propor e buscar soluções.

Quando a prioridade passa a ser encontrar pessoas populares, capazes de mobilizar seguidores ou trazer votos para ajudar a eleger os candidatos principais, corre-se o risco de esquecer a pergunta mais importante:

essa pessoa está preparada para representar milhares ou milhões de brasileiros?

Popularidade não é competência.

Capacidade de comunicação não é capacidade legislativa.

Ter muitos seguidores não significa saber fiscalizar um orçamento.

Ser conhecido não significa saber construir uma política pública.

E identificação com o eleitor não pode substituir preparo.

Também precisamos discutir outra prática que merece reflexão: tratar o mandato como trampolim para o próximo cargo.

Vereadores eleitos que deixam a Câmara no meio do mandato para disputar uma vaga de deputado. Deputados que abandonam a Assembleia ou a Câmara para disputar uma prefeitura. Parlamentares eleitos que deixam suas cadeiras para assumir cargos no Executivo, justamente onde deveriam exercer sua função de fiscalização.

A lei pode permitir essas movimentações. Mas legalidade não encerra a discussão sobre representação.

O eleitor votou naquela pessoa para exercer determinado mandato.

Quando ela deixa a cadeira, outro assume, dentro das regras eleitorais. É uma substituição prevista pelo sistema. Mas é perfeitamente legítimo que o cidadão pergunte:

era isso que eu estava escolhendo quando votei?

Mandato eletivo não deveria ser apenas uma etapa de uma carreira política. É um compromisso assumido diante do eleitor.

Quem é eleito para legislar deveria ter como prioridade legislar.

Quem é eleito para fiscalizar deveria ter como prioridade fiscalizar.

E quem recebe um mandato deveria lembrar que aquela cadeira não pertence ao político.

Pertence à representação que o eleitor lhe confiou.

No fim, existe uma responsabilidade dos partidos, dos candidatos e também do eleitor.

Mas não podemos colocar os três no mesmo momento do processo.

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O partido tem uma responsabilidade anterior.

É ele quem abre a porta da disputa eleitoral. É ele quem escolhe quem terá legenda. É ele quem monta a nominata. É ele quem decide quais nomes terão estrutura política para buscar o voto.

Por isso, os partidos precisam ser cobrados não apenas pela quantidade de votos que conseguem reunir, mas pela qualidade dos representantes que colocam à disposição da sociedade.

Precisamos de partidos que formem quadros, preparem lideranças e tenham critérios de capacidade para apresentar alguém como candidato.

Não podemos continuar tratando a população como se sua única responsabilidade fosse escolher, entre dezenas de nomes, qual parece menos ruim.

A democracia merece uma oferta melhor antes mesmo de chegar à urna.

Os candidatos precisam entender que eleição não é o fim da disputa. É o começo da responsabilidade.

E o eleitor precisa olhar além da popularidade.

Precisa perguntar o que aquele candidato conhece, o que já fez, o que pretende mudar, como pretende fazer e se realmente tem capacidade para enfrentar os problemas que promete resolver.

Não precisamos de uma política formada apenas por especialistas.

Precisamos de políticos que pensem.

Que saibam ler e interpretar o que leem.

Que consigam olhar para um problema antigo e enxergar uma solução nova.

Que tenham disposição para estudar antes de opinar.

Que compreendam que mandato não é prêmio de popularidade.

É responsabilidade.

E é justamente por isso que este domingo, 4 de outubro, não pode ser apenas mais um dia de eleição.

É o dia em que você, eleitor, tem um compromisso com a democracia e, acima de tudo, com o seu Estado e com o seu país.

O voto é seu. A escolha também.

Mas vale chegar à urna com uma pergunta simples:

Estou escolhendo alguém apenas porque conheço, gosto ou me identifico com essa pessoa? Ou estou escolhendo alguém que tem capacidade para fazer a diferença?

Porque a qualidade da política não começa somente depois que a urna é aberta.

Ela começa muito antes. Começa dentro dos partidos, na escolha de quem será colocado à disposição do eleitor. E termina na régua que cada um de nós usa para decidir quem merece a nossa confiança.

Na hora de escolher seu candidato neste domingo, 4 de outubro, lembre-se: a política precisa de votos. O país precisa de representantes preparados.

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