Debate sobre combustíveis, engajamento bipartidário e reação legislativa marcam terceiro dia da comitiva de senadores nos EUA; líder do PT no Senado pontua que diálogo entre os dois países tem um ponto de partida: defesa da soberania brasileira.
Por Humberto Azevedo
A pressão para que o Brasil reduza ou interrompa a importação de combustível da Rússia dominou os encontros entre os senadores brasileiros, que integram a comitiva formada para comparecer aos Estados Unidos da América (EUA) e tentar intermediar as tarifas prometidas pelo governo norte-americano a partir de 1º de agosto, e parlamentares daquele país.
Tanto parlamentares democratas, quanto republicanos, deram o mesmo recado: “é preciso rever as relações com Moscou”, capital da Rússia – que junto com o Brasil forma o bloco econômico intitulado de Brics, que possui ainda países como África do Sul, Arábia Saudita, China, .Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Índia, Indonésia e Irã.
Embora a China também tenha sido mencionada na reunião, o petróleo russo concentrou as preocupações centrais dos legisladores estadunidenses. Os senadores dos dois partidos dos EUA sugeriram a criação de mecanismos para garantir a rastreabilidade da origem do petróleo e indicaram que o tema deve ser analisado após o recesso.
A delegação brasileira respondeu com propostas técnicas e reafirmou que o compromisso com a transparência regulatória já existe. Os senadores brasileiros foram recebidos por um número expressivo de parlamentares norte-americanos: Tim Kaine, Ed Markey, Mark Kelly, Chris Coons, Jeanne Shaheen, Martin Heinrich e Thom Tillis, além da deputada Sydney Kamlager-Dove, co-presidente do Brazil Caucus.
Durante reunião com a delegação brasileira, o senador Martin Heinrich, do Partido Democrata, do Novo México, se posicionou de forma crítica às tarifas anunciadas contra o Brasil, destacando que não vê benefícios reais para os EUA, alertando para os impactos já sentidos pela população americana.
Heinrich citou o caso do café – que teve nesta quarta confirmada a taxação de 40% – como exemplo de insumo cuja cadeia de suprimento não pode ser substituída internamente, gerando aumento expressivo de preços para os consumidores. Ele também mencionou o setor madeireiro, que teve em boa parte na nova decisão de Trump isenção das tarifas, apontando que as tarifas têm pressionado o custo da habitação em meio à crise de moradia nos EUA.
POSSÍVEL ADIAMENTO
Durante o encontro com o senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, que expressou a expectativa de que a entrada em vigor da tarifa de 50%, agora transformada em 40%, anunciada por Trump possa ser adiada, diante de ações judiciais em curso. Ele considerou a medida um erro político com efeitos negativos para produtores e consumidores dos dois países, elogiou o posicionamento técnico da comitiva brasileira e lamentou a ausência de outros colegas republicanos nas discussões.
Tillis chegou a dizer que defendeu o Brasil com interlocutores do Departamento de Comércio do governo dos EUA e reforçou que a economia não deveria ser usada da maneira como conduz o presidente Trump. A deputada Sydney Kamlager-Dove, que representa a Califórnia e co-preside o Brazil Caucus, críticou à politização e demonstrou preocupação com o impacto da tarifa sobre setores produtivos brasileiros e norte-americanos.
Ela indicou que a crise tarifária pode ser revertida judicialmente. Antes mesmo da reunião, ela havia publicado vídeo em suas redes sociais comentando o impacto da tarifa sobre produtos como café e suco de laranja, mencionando seu apreço pela comunidade brasileira na Califórnia.
Já os senadores Tim Kaine, da Virgínia, e Ed Markey, de Massachusetts, também se posicionaram contra a tarifa. Markey indicou que ele e os pares apresentarão medidas legislativas para reagir à imposição da alíquota adicional. Kaine afirmou que pretende forçar uma deliberação do Senado caso a notificação presidencial avance.
SENTIMENTO ANTI-RÚSSIA E ANTI-CHINA
Nas reuniões com os senadores Mark Kelly, do Arizona, Chris Coons, de Delaware, e Jeanne Shaheen, de New Hampshire, os parlamentares norte-americanos sugeriram abordagens alternativas para reduzir as tensões. Segundo eles, não é o Brics que incomoda, e, sim, as parcerias com a Rússia e com a China, maior parceiro comercial do Brasil.
A comitiva brasileira reafirmou a independência entre os poderes da República brasileira e sugeriu uma iniciativa legislativa voltada à rastreabilidade da origem de petróleo e derivados, a partir de cooperação entre os dois Parlamentos.
No final da manhã, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que lidera comitiva, emitiu uma nota de esclarecimento afirmando que a “missão oficial do Senado Federal brasileiro aos Estados Unidos exerce uma função institucional e suprapartidária, com foco na reaproximação parlamentar com o Congresso americano e na busca de alternativas para barrar os impactos econômicos da tarifa de 50% anunciada ao Brasil”.
De acordo com Trad, “todas as agendas da delegação foram voltadas à reconstrução do diálogo político entre os dois parlamentos e à defesa dos interesses estratégicos do país em meio ao agravamento das tensões comerciais” e “a programação foi inteiramente voltada ao campo da diplomacia parlamentar”.

















