Os primeiros confrontos da eleição já deixaram uma lição: para quem lidera, participar de todos os debates não é necessariamente vantagem. Jorginho escolheu não estar em alguns deles e, até aqui, a estratégia parece muito mais racional do que uma simples ausência.
Há uma leitura fácil sobre a ausência de Jorginho Mello nos primeiros debates da eleição catarinense: a de que o governador estaria fugindo do confronto. Não é essa a leitura que faço. Na política, especialmente em uma eleição majoritária, não participar de determinado debate também pode ser uma estratégia de jogo. E, olhando friamente para a posição de Jorginho neste momento, a decisão faz sentido.
O governador lidera a disputa, busca a reeleição e tem uma vantagem que os adversários gostariam muito de reduzir: tempo, exposição e conhecimento de nome. Por que ele deveria entrar voluntariamente em uma arena em que cinco ou seis adversários podem fazer perguntas e ataques contra ele, enquanto cada um dos demais terá muito menos a perder? A lógica é simples: quem precisa crescer precisa do debate; quem lidera precisa administrar o risco.
Todos contra um
É essa a matemática que muitas vezes passa despercebida. Em um debate com vários candidatos, um acusa Jorginho de uma coisa, outro questiona uma obra, outro fala de saúde, outro ataca segurança, outro questiona educação, outro parte para a infraestrutura. E, em seguida, o governador tem pouco mais de um minuto para responder. É impossível explicar uma gestão inteira nesse formato.
O adversário precisa apenas plantar uma dúvida. O governador precisa explicar. Uma acusação pode ser feita em 20 segundos. Uma boa resposta, muitas vezes, precisaria de cinco minutos. Não existe esse tempo em um debate. E o risco aumenta porque, mesmo que os adversários estejam disputando entre si, existe um interesse comum: tirar o líder da zona de conforto e obrigá-lo a responder. É o verdadeiro “todos contra um”.
A estratégia não nasceu agora
O mais interessante é que essa decisão não parece improvisada. Em abril, a imprensa catarinense já registrava que a equipe de comunicação de Jorginho avaliava limitar a presença do governador nos debates. O dilema era justamente esse: expô-lo a confrontos diretos com João Rodrigues, Gelson Merisio e outros candidatos ou deixá-los falando sem o contraditório direto do governador.
Em julho, a equipe confirmou que Jorginho participaria de quatro debates. Ou seja, a estratégia nunca foi desaparecer. Foi escolher os momentos de exposição. Isso muda completamente a interpretação. Jorginho não está dizendo que não debaterá. Está dizendo, na prática, que não precisa estar em todos os palcos para fazer campanha.
João Rodrigues aproveitou a cadeira vazia
No primeiro debate, a ausência de Jorginho acabou transformando o governador no personagem principal mesmo sem estar no estúdio. João Rodrigues aproveitou o espaço para atacar a gestão estadual e explorar temas que pretende transformar em pontos de desgaste para o adversário. A discussão entre João e Gelson Merisio também acabou passando pela ausência do governador.
Há uma ironia nisso: Jorginho não estava presente, mas estava no centro do debate. E talvez seja exatamente isso que sua estratégia pretende produzir. Os adversários falam, atacam, questionam e disputam entre si quem será o principal opositor, enquanto o governador pode continuar sua campanha fora daquele ambiente.
Mas João também ganhou alguma coisa
Seria errado ignorar o outro lado. A ausência de Jorginho entrega aos adversários uma oportunidade. João Rodrigues, especialmente, pode utilizar os debates para construir a imagem de principal contraponto ao governador. E esse talvez seja hoje o principal objetivo de João: não necessariamente “vencer” Jorginho em um debate, mas mostrar ao eleitor que existe uma alternativa competitiva.
O problema é que, para isso, ele precisa transformar o ataque em crescimento.
Essa é a diferença entre aparecer no debate e transformar exposição em voto.
Merisio também tem uma estratégia
Gelson Merisio joga outro jogo. Ele precisa crescer, ocupar o espaço da oposição de esquerda e impedir que João Rodrigues monopolize a condição de principal adversário de Jorginho. Já havia sinais dessa estratégia antes mesmo dos debates, com Merisio buscando uma polarização mais direta com o governador e tentando criar uma disputa mais clara entre direita e esquerda.
Para Merisio, portanto, o debate é uma ferramenta de crescimento. Para João, é uma ferramenta para consolidar posição. Para Jorginho, pode ser uma ferramenta que, usada na hora errada, simplesmente oferece aos adversários um palco para atacá-lo. São estratégias completamente diferentes.
O debate de Tubarão reforçou a tese
Na noite de 10 de agosto, o debate VOXX, em Tubarão, reuniu João Rodrigues, Laís Chaud, Marcelo Brigadeiro e Ralf Zimmer. Jorginho novamente não esteve presente e voltou a ser alvo dos adversários. Os candidatos discutiram demandas concretas do Sul, como BR-101, rodovias estaduais, enchentes, Ponte do Pontal, desassoreamento do Rio Tubarão e Barra do Camacho.
O TubaNews fez uma leitura crítica da ausência e questionou qual seria a importância dada à região pelos candidatos que não compareceram. É uma crítica legítima. Mas existe outra maneira de olhar o episódio: Jorginho não precisou passar uma noite inteira respondendo a ataques em Tubarão.
Se o eleitor da região já conhece o governador e sua administração, talvez a equipe tenha calculado que o ganho marginal de estar naquele debate seria menor do que o risco de transformar uma noite inteira em uma sucessão de ataques contra o candidato que lidera. É uma escolha. E escolhas eleitorais precisam ser analisadas pelo resultado que pretendem produzir.
O risco da cadeira vazia
É claro que a estratégia não é perfeita. Toda escolha tem custo. A ausência permite que os adversários construam narrativas sem contraditório imediato, permite que uma acusação fique no ar, permite que João Rodrigues ocupe o espaço de oposição e permite que um candidato menor tenha alguns minutos de protagonismo atacando justamente quem não está ali para responder.
Esse é o preço. Mas a pergunta correta não é “Jorginho deveria ir a todos os debates?”. A pergunta é: “Neste momento da eleição, o que Jorginho ganha indo a todos eles?”
Se a resposta for “pouco”, a estratégia de seletividade passa a fazer ainda mais sentido.
Quem está na frente não precisa jogar o mesmo jogo
Existe uma regra não escrita nas eleições: o candidato que está atrás precisa provocar mudança; o candidato que está na frente precisa evitar que ela aconteça. João Rodrigues precisa criar fatos novos. Merisio precisa crescer. Os demais precisam conquistar conhecimento e espaço. Jorginho, neste momento, precisa preservar vantagem.
Isso não significa ficar parado. Muito pelo contrário. Significa escolher onde colocar energia. A equipe do governador já sinalizou que ele participará de debates considerados estratégicos.
E talvez essa seja justamente a melhor resposta aos críticos. Não se trata de fugir do jogo. Trata-se de escolher quando entrar em campo.
O verdadeiro teste virá quando Jorginho entrar
A estratégia, porém, só poderá ser julgada completamente quando o governador finalmente sentar diante dos adversários. Aí sim será possível avaliar se a ausência anterior serviu para preservar sua vantagem ou se permitiu que os adversários construíssem uma narrativa difícil de desmontar.
Porque haverá um momento em que não será mais possível escolher. Os grandes debates chegarão, o confronto direto com João Rodrigues acontecerá, os ataques virão e Jorginho terá que responder.
Até lá, entretanto, é preciso reconhecer uma coisa que a política costuma esquecer: não jogar todos os jogos não significa não estar jogando.
Às vezes, para quem está na frente, a jogada mais inteligente é justamente escolher quais partidas valem o risco. E, neste momento da eleição catarinense, Jorginho parece ter chegado a essa conclusão.
A cadeira vazia pode incomodar os adversários. Mas talvez seja exatamente esse o objetivo.



























