Nascida e criada no bairro Pedra 90, em Cuiabá, Natasha Lopes construiu sua trajetória enfrentando uma série de desafios pessoais e sociais. Mulher trans, ela se reconheceu ainda na infância e, desde então, lidou com o preconceito, a ruptura familiar e a necessidade de conquistar independência desde cedo.
Essas vivências, embora marcadas por obstáculos, moldaram sua visão crítica e fortaleceram sua vontade de transformação. Hoje, Natasha se destaca como influenciadora digital — com mais de 13 mil seguidores — e agente social atuante em sua comunidade. Além disso, ela fez história ao se tornar a primeira mulher trans a ocupar o posto de rainha de bateria da escola de samba Paiaguás.
Usando as redes sociais como ferramentas de comunicação e mobilização, Natasha participa de projetos sociais, articula parcerias e dá visibilidade às pautas da periferia e da população LGBTQIAPN+. Sua atuação se tornou referência local, principalmente entre os jovens do bairro.
Convidada da nossa Entrevista da Semana RDM, Natasha responde a uma série de perguntas rápidas sobre sua história, suas lutas, conquistas e planos para o futuro.

RDMonline: Natasha, como começou o seu engajamento em projetos sociais no bairro?
Natasha Lopes: Os projetos sociais no bairro Pedra 90 tiveram início há cinco anos com minha mãe, que é confeiteira e devota de Nossa Senhora Aparecida. Observando as dificuldades do bairro, ela começou distribuindo bolos e refrigerantes. O projeto cresceu, incorporando pipoca e outras atividades. No ano passado, com o apoio da vereadora Baixinha Giraldelli e de comerciantes locais, realizamos um bem-sucedido evento do Dia das Crianças, que incluiu sorteios de bicicletas e parcerias, como a de uma papelaria.
RDMonline: Natasha, você se reconheceu como mulher trans ainda muito jovem. Como foi esse processo para você?
Natasha Lopes: Foi bem difícil por conta do preconceito. Saí de casa cedo e entrei no mundo da prostituição. Morei fora, mas o que aprendi me tornou uma pessoa muito melhor e mais forte.
RDMonline: Hoje você é uma profissional com mais de 13 mil seguidores. Como é para você ser uma influenciadora trans?
Natasha Lopes: Adorei essa pergunta! Eu sempre fui muito conhecida no bairro, mas não levava isso a sério, tanto que tenho quatro perfis no Facebook, todos bem movimentados. Até que uma amiga me falou: “Você precisa criar um Instagram.” Desde então, comecei a ganhar muitos seguidores com os posts. Naquela época, essa papelaria me deu a oportunidade de crescer, e depois surgiram novas parcerias, fazendo com que meu nome fosse ficando cada vez mais conhecido.
RDMonline: Natasha, a Parada LGBTQIA+ já aconteceu no Pedra 90 no passado. Agora, a vereadora Baixinha tem o projeto de retomar esse movimento no bairro no próximo ano. O que você acha dessa iniciativa? Pode comentar um pouco sobre isso?
Natasha Lopes: Sim, já houve uma pequena Parada LGBTQIA+ no bairro Pedra 90, organizada pelas meninas trans do próprio bairro, que realizaram o evento com recursos próprios. Na época, conseguiram um trio elétrico simples — foi uma forma de expressar os nossos direitos.
Esse projeto de retomar a Parada Gay no Pedra contou com apoio político da vereadora Baixinha Giraldelli, durante a campanha. Ela pediu minha ajuda, e eu disse que ajudaria com o maior prazer, porque tudo o que faço é com carinho. Mergulho mesmo no projeto: vou para a rua, converso diretamente com o povo.
Baixinha foi eleita, e ficou combinado com ela a realização dessa nova Parada Gay. Agora, precisamos sentar e conversar, porque algumas coisas aconteceram recentemente e, por isso, não posso afirmar com certeza como será o evento. Mas, a princípio, ela está muito animada e, se depender dela, a Parada vai acontecer sim, com certeza.
RDMonline: Natasha, soubemos que você está apoiando outro verador. Houve algum desentendimento com a vereadora Baixinha Giraldelli, já que você a apoiou na eleição passada?
Natasha Lopes: Então, eu nunca fiz parte da equipe dela, apenas a apoiei na política e sempre tive muita gratidão por ela ser minha amiga. Não houve desentendimento, ela continua sendo minha amiga. Existem fases na vida em que os ciclos mudam, e eu preciso realizar alguns outros projetos com o apoio de outros políticos.
RDMonline: O que você acha da lei aprovada pela Câmara Municipal de Cuiabá que proíbe a redesignação de gênero em menores de 18 anos?
Natasha Lopes: A aprovação da lei que proíbe a redesignação sexual para menores de 18 anos pela Câmara Municipal de Cuiabá representa um retrocesso que desconsidera a realidade vivida por muitas pessoas trans e suas famílias. É importante lembrar que a identidade de gênero é algo profundo e legítimo, que não pode ser ignorado ou adiado por imposição legal.
Seguimos firmes, resistindo com amor, voz e união. A comunidade LGBTQIA+ sempre foi exemplo de coragem e luta, e é justamente nos momentos de retrocesso que mostramos ainda mais a nossa força. Vamos continuar lutando por respeito, acolhimento e pelo direito de cada pessoa viver sua verdade com dignidade. Nenhuma lei vai calar quem nasceu para brilhar!
RDMonline: Hoje você está envolvida com a política, mas tem intenção de se candidatar a vereadora?
Natasha Lopes: Os moradores do bairro pedem, e eu, que gosto de me envolver e ajudar as pessoas, não descarto a hipótese de me candidatar.
RDMonline: Você foi rainha de bateria de uma escola de samba no Carnaval de Cuiabá deste ano. Como foi essa experiência para você?
Natasha Lopes: Foi uma realização. Fui a primeira rainha de bateria trans oficial, não apenas destaque ou madrinha. A escola de samba Paiaguás me recebeu muito bem, e nossa escola foi vencedora no primeiro ano em que teve escola de samba, não apenas bloco. Eu já tinha samba no pé, pois aprendi a sambar quando era criança.
RDMonline: Natasha, o que você diria para alguém que está se descobrindo como pessoa trans, independentemente da idade ou do gênero?
Natasha Lopes: Eu diria para a pessoa não ter pressa. Quem você é já está dentro de você. Não seja o que terceiros querem que você seja.



















