Candidata ao Senado tem primeiro suplente investigado no caso dos descontos do INSS e indiciado pela CPI da Covid; segundo suplente é sócio de empresa citada em apuração ligada ao caso Oi, denúncia que virou uma das principais bandeiras da própria parlamentar
A composição escolhida pela deputada estadual Janaina Riva (MDB) para disputar o Senado passou a chamar atenção não apenas pelas sucessivas mudanças na chapa, mas pelo contraste entre o discurso adotado pela candidata e o histórico recente dos novos suplentes.
No último sábado (12), Janaina oficializou o empresário Danilo Berndt Trento como primeiro suplente e Rafael Yamada Torres como segundo. Segundo reportagem do Gazeta Digital, os dois aparecem relacionados a investigações de grande repercussão nacional.
O caso que mais chama atenção envolve justamente uma das parcelas da população que Janaina tem buscado aproximar de sua campanha: aposentados e pensionistas.
Danilo Trento é investigado pela Polícia Federal no inquérito que apura o esquema de descontos irregulares em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ele chegou a ser convocado pela CPMI do INSS para prestar esclarecimentos, mas obteve no Supremo Tribunal Federal habeas corpus que lhe permitiu não comparecer, por já figurar como investigado e ter sido alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto.
O empresário também teve o nome nacionalmente conhecido durante a CPI da Covid. Ao final dos trabalhos, foi incluído entre os indiciados por fraude em contrato, formação de organização criminosa e improbidade administrativa em razão de sua ligação com a Precisa Medicamentos, empresa envolvida na negociação da vacina Covaxin. Durante seu depoimento, Trento negou participação nas negociações comerciais da vacina.
A escolha produz um contraste político ainda maior porque Janaina tem buscado se apresentar como defensora de servidores, aposentados e pensionistas. Neste fim de semana, a candidata participou de confraternização de aposentados ligada ao SINPAIG, ao lado do presidente da entidade, Antônio Wagner, justamente uma das lideranças que vêm denunciando irregularidades em operações de crédito consignado contra servidores.
O SINPAIG tem atuação pública nessa pauta. Em 2026, o sindicato chegou a convocar assembleia específica para tratar de “fraude nos consignados” e posteriormente lançou mobilização pela abertura de uma CPI na Assembleia Legislativa para investigar possíveis irregularidades que teriam atingido servidores públicos. Antônio Wagner também tem denunciado publicamente casos de superendividamento e suspeitas de fraude.
A pergunta política que surge é inevitável: como conciliar um discurso de proteção aos aposentados e pensionistas com a escolha, para a primeira suplência, de um empresário investigado justamente no caso nacional envolvendo descontos indevidos de benefícios do INSS?
Segundo suplente esbarra em outra bandeira de Janaina
A situação fica ainda mais curiosa no caso do segundo suplente.
Rafael Yamada Torres é sócio-administrador da Coliseu Investimentos e Participações Ltda. Segundo o Gazeta Digital, a empresa foi citada em levantamentos relacionados à Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas envolvendo o acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Oi. A apuração envolve suspeitas de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro e tramita sob supervisão do Supremo Tribunal Federal. A reportagem não afirma que Torres tenha sido condenado por qualquer crime.
É justamente o chamado “caso Oi” que Janaina transformou em uma de suas principais bandeiras de fiscalização contra o antigo governo Mauro Mendes.
Ainda em maio de 2025, a parlamentar levou denúncias sobre o acordo à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Estadual e ao Tribunal de Contas. Na Assembleia, questionou publicamente como os R$ 308 milhões pagos no acordo teriam chegado a fundos de investimento que, segundo ela, possuíam ligações com pessoas próximas ao então governador.
A própria estrutura de comunicação da parlamentar continuou explorando o assunto em 2026. Em fevereiro, seu site oficial publicou material destacando novos questionamentos feitos por Janaina sobre a legalidade, o sigilo, a rapidez e o destino dos recursos no acordo da Oi.
A investigação posteriormente avançou com a Operação Heritage, da Polícia Federal, e o caso passou a ocupar espaço central na disputa eleitoral ao Senado.
Por isso, a presença de um sócio de empresa citada em levantamentos relacionados à mesma operação dentro da chapa de Janaina cria uma situação politicamente difícil de explicar: a candidata cobra respostas sobre quem participou das estruturas financeiras ligadas ao acordo, utiliza a denúncia como argumento eleitoral contra adversários e, ao mesmo tempo, escolhe para sua suplência um empresário cuja empresa aparece no contexto das apurações noticiadas.
Também é necessário registrar que a Procuradoria-Geral do Estado sempre negou ilegalidades no acordo com a Oi, afirmando que a negociação foi homologada judicialmente e teria proporcionado economia aos cofres públicos.
Nenhuma das citações em investigações significa, por si só, condenação criminal dos novos suplentes. Ainda assim, em uma campanha eleitoral, as escolhas políticas também são avaliadas pela coerência entre discurso e prática.
E é justamente aí que a nova chapa de Janaina Riva abre espaço para questionamentos: de um lado, a defesa pública de aposentados, pensionistas e servidores atingidos por irregularidades financeiras; de outro, um primeiro suplente investigado no escândalo dos descontos do INSS. De um lado, a candidata que ajudou a levar o caso Oi aos órgãos de investigação e transformou os R$ 308 milhões em bandeira eleitoral; do outro, um segundo suplente ligado empresarialmente a uma companhia citada em levantamentos relacionados à mesma investigação.
Da Assessoria.
































