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ENTREVISTA DA SEMANA | SETEMBRO AMARELO

“Falar sobre suicídio não incentiva”: psiquiatra alerta para sinais e importância da prevenção

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O Setembro Amarelo chama atenção para um assunto que ainda enfrenta silêncio e preconceito: a saúde mental e a prevenção ao suicídio. Para a médica psiquiatra Luciana Arcos, falar abertamente sobre sofrimento emocional é uma das formas de quebrar barreiras e ajudar quem precisa.

 

Em entrevista ao RDM Online, a especialista explica os principais sinais de alerta, fala sobre depressão, ansiedade, luto, redes sociais, medicamentos e o crescimento da dependência em apostas online. Ela também destaca a importância de procurar ajuda antes que o sofrimento se agrave.

 

Confira a entrevista:

RDM Online: Por que é tão importante falar sobre saúde mental e prevenção ao suicídio durante o Setembro Amarelo?

Luciana: Porque ainda existe muito tabu. Um dos principais mitos é que falar sobre suicídio pode incentivar a pessoa, quando é justamente o contrário. É preciso conversar, acolher e mostrar que quem está sofrendo pode pedir ajuda sem ser julgado. A saúde mental precisa ser discutida durante o ano inteiro.

 

RDM Online: Quais são os principais sinais de alerta?

Luciana: Normalmente existe um processo antes de chegar ao suicídio. A depressão e o transtorno bipolar estão entre os quadros mais relacionados. A pessoa pode apresentar tristeza intensa, desânimo, perda da vontade de viver, de trabalhar e de se relacionar. Frases como “nada dá certo”, “ninguém me ama” ou “seria melhor estar morto” precisam ser levadas a sério.

 

RDM Online: Ansiedade e depressão sempre evoluem para casos graves?

Luciana: Não. Uma pessoa pode ter ansiedade ou sintomas depressivos e continuar levando a vida normalmente. O principal sinal de alerta é quando o problema começa a causar prejuízos no dia a dia. Quando a pessoa deixa de sair, se afasta dos amigos, perde produtividade ou não consegue cumprir suas atividades, é hora de procurar ajuda.

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RDM Online: E o luto? Quando ele deixa de ser considerado normal?

Luciana: O luto faz parte da vida e cada pessoa reage de uma maneira. O problema é quando o sofrimento se prolonga e a pessoa não consegue retomar a própria rotina. Nesse caso, pode haver um luto patológico, que precisa de acompanhamento e pode evoluir para depressão.

 

RDM Online: Pessoas de determinada classe social ou idade estão mais vulneráveis?

Luciana: Saúde mental não escolhe classe social. Qualquer pessoa pode passar por isso. Entre os jovens, a faixa dos 19 aos 25 anos chama atenção. Eles enfrentam cobranças sociais e financeiras, além das dificuldades para entrar no mercado de trabalho.

 

RDM Online: As redes sociais também podem piorar esse cenário?

Luciana: Podem. As redes mostram muitas vezes uma vida perfeita que não corresponde à realidade. Isso gera comparação, cobrança e frustração. Pessoas emocionalmente fragilizadas podem acabar acreditando que todo mundo está bem, menos elas. Mas todos têm problemas, independentemente de dinheiro ou posição social.

 

RDM Online: O que fazer quando a pessoa percebe os primeiros sinais de sofrimento?

Luciana: Buscar ajuda o quanto antes. No início, a terapia pode ser suficiente em alguns casos. Também existem grupos de apoio, religiosos, esportivos e outras atividades que ajudam a pessoa a se sentir pertencente. Quem não tem condições financeiras pode procurar os serviços públicos.

 

RDM Online: O SUS consegue atender toda essa demanda?

Luciana: Temos CAPS e UBSs, e eles são importantes, mas a demanda é muito grande e faltam profissionais. Muitas vezes o paciente consegue uma consulta, mas não consegue manter o acompanhamento. Na saúde mental, o tratamento pode durar anos e envolve muito mais do que medicação.

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RDM Online: Existe muito medo de medicamentos psiquiátricos. Eles podem causar dependência?

Luciana: Existe muito preconceito. Nem toda medicação psiquiátrica causa dependência. Alguns medicamentos, principalmente os de tarja preta, têm potencial de dependência e precisam ser usados conforme orientação médica. O risco aumenta quando há abuso, aumento da dose ou uso prolongado sem acompanhamento.

 

RDM Online: A senhora também acompanha casos de dependência em apostas online. Por que elas são tão perigosas?

Luciana: O jogo pode gerar dependência porque mexe com o sistema de recompensa do cérebro. Já acompanhei pacientes em situações graves, perdendo dinheiro e comprometendo a família. Em alguns casos, a pessoa tenta encontrar qualquer maneira de continuar apostando. É uma dependência que pode destruir a vida financeira e os relacionamentos.

 

RDM Online: Qual é a dimensão do problema do suicídio no mundo e no Brasil?

Luciana: Os dados que consultei apontam para cerca de 726 mil mortes por suicídio por ano no mundo. No Brasil, são aproximadamente 14 mil por ano, uma média de 38 por dia. E esses números podem estar subdimensionados, porque nem toda morte é identificada oficialmente como suicídio.

 

RDM Online: Qual é a principal mensagem para quem está sofrendo ou percebe que alguém próximo não está bem?

Luciana: Não ignore os sinais. Se a tristeza, a ansiedade ou qualquer outro sofrimento começa a prejudicar a vida da pessoa, é hora de procurar ajuda. É importante ouvir sem julgar, acolher e incentivar o tratamento. Ninguém precisa enfrentar esse sofrimento sozinho.

 

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