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Agro, um “milagre de sobrevivência”

ENTREVISTA DA SEMANA | ANA AMÉLIA LEMOS

“As redes sociais reduziram o poder das causas relevantes”, reflete a ex-senadora Ana Amélia Lemos, ao analisar o impacto do ambiente digital e da polarização na política e no futuro do agronegócio brasileiro no cenário global. (Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado)

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Redes sociais e geopolítica: o Brasil na era da “espuma” política

Em entrevista exclusiva a reportagem do Grupo RDM, a ex-senadora Ana Amélia Lemos (PSD) analisa o impacto das redes digitais, os desafios do agronegócio e o jogo de poder entre EUA, China e Europa.

 

Por Humberto Azevedo

 

A ex-senadora Ana Amélia Lemos critica o que chama de “espuma” do debate político atual, dominado pelas redes sociais e pela polarização, que desvia o foco de problemas estruturais do Brasil, como a deficiência logística e a insegurança jurídica. Em meio a esse cenário, ela vê o agronegócio como um setor resiliente, mas alerta para os riscos geopolíticos e as incertezas sobre o acordo Mercosul-União Europeia.

 

Formada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), Ana Amélia Lemos atualmente no PSD possui mais de 40 anos de atividades na área da comunicação, com 33 anos dedicados na Rede Brasil Sul (RBS), afiliada da TV Globo no RS. De 1976 a 2010, atuou como comunicadora multimídia do grupo RBS em Brasília.

 

Para a parlamentar, viúva do ex-senador biônico (nomeado pelo ditador-presidente João Figueiredo) entre os anos de 1983 e 1987, Octávio Omar Cardoso (Arena/PDS), falecido em 2011, a lógica das redes transformou o parlamento brasileiro refém do discurso de impacto sobre a produção legislativa efetiva num cenário em que o Brasil se torna peça-chave no tabuleiro global devido a seus recursos naturais e produção agropecuária.

 

“A política vive os sintomas da vida moderna, que é o impacto das redes sociais. Isso reduziu o poder das causas relevantes. Elas se limitam a uma borbulha, uma espuma de debate que não desce nas questões que interessam à sociedade. (…) Quando você acompanha uma sessão no Congresso, está todo mundo ligado no celular, fazendo live para impactar. O discurso é sempre espuma. É gritar contra o adversário, e não uma proposta para um país mais competitivo”, comentou a ex-senadora natural de Lagoa Vermelha, no Nordeste do Rio Grande do Sul

 

AGRO SOB PRESSÃO

 

Ex-senadora Ana Amélia com a ex-senadora e deputada constituinte Rose de Freitas (MDB-ES) durante solenidade realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em prol da participação das mulheres na política. (Foto: Geraldo Magela / Agência Senado)

Apesar de ser um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira, o agronegócio – segundo a ex-senadora, que deixou o jornalismo em 2010, para concorrer ao Senado – enfrenta um “milagre de sobrevivência” diante de uma carga tributária elevada, insegurança jurídica e deficiências logísticas críticas, como estradas congestionadas e a lentidão em obras consideradas inadiáveis, como a Ferrogrão.

 

Para Ana Amélia, eleita pelo PP com quase 3,5 milhões de votos, a falta de segurança para os empresários tende a se agravar após os eventos de 8 de janeiro, e a perspectiva de que 2026 não será diferente de 2022. Eleita em 2010 com 29,5% dos votos válidos, ela também comenta a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas à frente de governadores oposicionistas ao governo Lula III bem avaliados, atribuindo isso ao fenômeno e ao poder das plataformas digitais. 

 

“É um milagre a sobrevivência exitosa do agronegócio brasileiro com tantas adversidades: carga tributária, insegurança jurídica, deficiência logística. A BR já está lá, não tem agressão ambiental, mas você esbarra em questões pequenas que travam tudo”, completou a ex-senadora que em 2014 foi candidata ao Palácio Piratini, mas sem almejar sucesso. 

 

“Quem está liderando [nas pesquisas pelo lado oposicionista] é um senador que não exerceu o Poder Executivo. Nossas escolhas são determinadas pelo impacto da rede social. O celular é o mecanismo de comunicação que mais funciona”, complementou Amélia, que em 2018 foi escolhida como a candidata a vice-presidente na chapa do ex-governador paulista Geraldo Alckmin, então no PSDB, ao Palácio do Planalto, e atual vice-presidente da República do governo Lula III. 

 

XADREZ GEOPOLÍTICO

 

Ex-senadora Ana Amélia ao lado dos também ex-senadores José Serra (PSDB-SP) e Romero Jucá (MDB-RR). (Foto: Moreira Mariz / Agência Senado)

No tabuleiro global, pela análise da ex-comentarista do Canal Rural, o Brasil ganha relevância estratégica devido às suas vastas reservas de terras raras e lítio e à posição de maior fornecedor mundial de alimentos. A ex-senadora analisa ainda que a aproximação entre Trump e Lula é movida por interesses concretos dos EUA nesses recursos, e não por afinidade ideológica.

 

Sobre o acordo entre o Mercado Comum dos países do Cone Sul (Mercosul) com a União Européia (UE), a ex-parlamentar – que atualmente é consultora política – se declara cética quanto à sua assinatura e eficácia, citando o forte protecionismo agrícola francês e europeu. Mesmo se assinado neste sábado, 20 de dezembro, no encontro de cúpula dos dirigentes dos dois blocos, o tratado enfrentaria anos de ratificações e batalhas por barreiras não tarifárias.

 

“Quando Trump se aproxima de Lula, não vai pelo discurso. Vai pelo interesse dos EUA nas questões tecnológicas: terras raras, lítio para chips. O Brasil é o maior fornecedor de comida do mundo. Isso não é pouca coisa”, avalia Ana Amélia que, de 2019 a 2022, exerceu o cargo de secretária-extraordinária de Relações Federativas e Internacionais do RS, nomeada pelo governador gaúcho Eduardo Leite, ex-PSDB, atualmente filiado ao PSD, mesmo partido dela. 

 

“Não tenho muito otimismo sobre o acordo Mercosul-União Europeia. O protecionismo francês é muito forte. Mesmo assinado, não terá eficácia imediata. Salvaguardas e barreiras não tarifárias, como acusações de desmatamento, são outras guerras. Se assinar, será uma vitória política, mas para o futuro há muitas batalhas”, finaliza.

 

ÍNTEGRA

 

Abaixo, segue a íntegra da entrevista concedida pela ex-senadora Ana Amélia à reportagem do Grupo RDM na última quarta-feira, 17 de dezembro, após a instalação e primeira reunião da Frente Parlamentar do Ambiente de Negócios (FPN), da qual é consultora.

 

RDM: Como a senhora avalia o impacto das redes digitais na atividade política atual e esse cenário de extrema polarização entre esquerda e direita, liberais versus conservadores, a volta do nacionalismo, enfim, como vê esse cenário tanto no Brasil, como no mundo?

Ana Amélia Lemos: A política, o exercício da atividade política no Brasil vive os sintomas que nós estamos vivendo da vida moderna do Brasil e do mundo, que é o impacto das redes sociais sobre a atividade política. E isso, na minha modesta opinião, reduziu o poder das causas que são relevantes para a sociedade. Elas se limitam a uma borbulha, a uma espuma de debate que se limita a uma discussão de polarização política, esquerda ou direita, a espuma, você fica na espuma e não desce nas questões que interessam hoje a sociedade.

 

RDM: Quais são, na sua visão, os principais problemas estruturais que afetam o Brasil, especialmente o agronegócio?

Ex-senadora aponta deficiências logísticas e carga tributária como entraves ao agronegócio, setor que considera “um milagre de sobrevivência”. (Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: O desemprego, o problema da desigualdade social, o problema da insegurança jurídica para o setor de negócios. Nós, todo dia, estamos vendo isso, de deficiências que nós temos na logística, em todo o setor, como, por exemplo, no estado de Mato Grosso, que é o celeiro do Brasil, e essas deficiências todas impactam… a despeito de tudo isso, você tem um país que no setor do agronegócio, na economia, é o mais dinâmico e é o mais audacioso, porque para enfrentar tanta insegurança, tanto aumento de carga tributária, tanto impacto do mercado internacional, porque nós produzimos commodities, nós dependemos da exportação, então, é um setor que eu vou dizer, é um milagre a sobrevivência exitosa do agronegócio brasileiro com tantas adversidades. A começar pela carga tributária, a começar pela insegurança jurídica, a começar pela deficiência do setor de logística, porque hoje o silo que o Brasil tem para botar soja é… como é que se chama… é a carreta do caminhão. Quando chegar lá, levar de Sinop para exportar para os portos, o que tem? Uma estrada congestionada, estradas não duplicadas, acidentes cada vez maiores, aí quando você faz uma alternativa de fazer uma Ferrogrão, por exemplo, que é uma obra, eu diria assim, inadiável, aí você esbarra em questões pequenas, em questões menores, porque a estrada não vai alterar o curso, ela vai seguir a mesma rota, o mesmo traçado da BR, que já está instalada há muito tempo. A BR que está lá não tem uma agressão ao meio ambiente, não tem nada que possa representar risco para nenhuma comunidade [indígena] e nem uma questão também do ponto de vista ambiental. Então esses dilemas todos são a revelação clara de que os empresários brasileiros estão carecendo de maior segurança e lamentavelmente não vejo perspectiva em 2026 ser diferente do que foi em 2022. Não será diferente, pelo contrário, vai se agravar, porque você teve aí um processo político rumoroso em relação ao 8 de janeiro e isso vai impactar, sem dúvida. E todo líder político que é considerado pelo sistema como vítima, ele tende a ter força política para influenciar o seu eleitorado, sua massa.

 

RDM: Como a senhora interpreta a liderança nas pesquisas de figuras como o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), à frente de governadores bem avaliados como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Jr. (PSD-PR), Ronaldo Caiado (UNião Brasil-GO) e Eduardo Leite (PSD-RS)?

Ana Amélia Lemos: Então nós estamos vendo aí as pesquisas agora recentes que o filho do presidente, ungido por ele como candidato, está tendo uma posição de liderança sobre candidatos bem conhecidos como governadores que estão nos exercícios de mandato, muito bem avaliados, 80, 60, 70% de avaliação positiva e, no entanto, quem está liderando é um senador que não exerceu o Poder Executivo, mas é para ver a percepção da sociedade. Então, é determinado hoje, as nossas escolhas, pelo impacto da rede social, por aquela plataforma digital. Então é por isso que hoje o celular tem sido o mecanismo de comunicação que mais funciona.

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RDM: E essa dinâmica das redes vem afetando o comportamento dos parlamentares?

Ex-senadora Ana Amélia é cumprimentada por diversos senadores como Esperidião Amin (PP-SC) e Paulo Paim (PT-RS). (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Então, quando você acompanha uma sessão na Câmara ou no Senado, está todo mundo ligado com o seu mobile, o seu celular, fazendo a live ao vivo às vezes, direto ou para postar na sua rede, exatamente para impactar, com o discurso que é sempre o quê? Espuma. É gritar contra o adversário. E não há uma proposta. O país que seja mais competitivo, que o país tenha um ambiente mais favorável para os negócios, que seja um país facilitador, não pode ser um país complicador. Então, em tudo isso, seja no nível municipal, estadual ou federal. Então, todos esses fatores, acho que, talvez, sejam um retrato dos tempos. A direita ganhou mais daqui. É esse o tema importante discutir ou é importante dizer, pô, que bom que vem um governo que vai fazer coisas, que vai mudar, que vai ter uma relação melhor. Não, a briga é ideológica e é política. E aí você vê esse crescimento ideológico dominando não só no Brasil, é nos Estados Unidos, é no caso da América, é o caso da Europa também, a mesma coisa.

 

RDM: Como a senhora vê a influência das redes digitais na sociedade e os movimentos para regulamentá-las?

Ana Amélia Lemos: Então, nós estamos vivendo, digamos, uma realidade dominada pela virtualidade, que é a rede social. E ela está tendo uma força extraordinária. Tanto que você vê que tem um movimento para fiscalizar as redes sociais, o mundo está caindo, não é, se você pensar nisso, em regulamentar. Ou se criar uma barreira, ou criar alguma coisa para evitar o abuso sexual, ou o incentivo a violência de menores, essa coisa da sexualização. Todas essas coisas, não é. Então isso tudo, nossa, é um… todo mundo entra em campo. Até as próprias bets, não é, tributar o bet que está levando famílias à destruição e à ruína é um dilema, porque a força que tem a rede social, ela passou a ser um ganho. Você fica dizendo, você é um influenciador, você fica dizendo que ele ficou rico apostando naquilo, ou a pessoa, ingenuamente, vai acreditar e vai começar a jogar dinheiro e vai entrando naquele poço e não vai sair nunca dele, porque ela não vai ganhar aquilo que estava prometido, acreditando que vai ser. Então é toda uma ilusão, não é, para ser.

 

RDM: De que forma as redes digitais estão mudando e moldando os jovens?

Ana Amélia Lemos: E tem a rede social também estimulando as pessoas a trabalharem pouco e ganharem muito. Ah, eu não vou ser médico porque eu ganho muito mais do que um médico sendo influenciador. Então, antigamente você via nas propagandas, tinha uma propaganda que uma emissora de televisão fazia no Brasil, assim, perguntava para a criança, o que é que você quer ser? Ah, eu quero ser artista de novela, se menina, ou modelo. Bom trabalho ser modelo e tal. Para o menino, eu quero ser jogador de futebol. Hoje não, eu quero ser influenciador. Esse é o que o adolescente quer fazer. E tem uns talentosíssimos que estão fazendo, já ficam milionários aos 13 anos de idade. Então essas coisas estão determinando a sociedade uma mudança radical de comportamento, de atitude e isso impacta sobre o nosso cotidiano.

 

RDM: Analisando todo esse caldo cultural que o Brasil, o país, a América do Sul, a América Latina, o mundo vive, né? Isso aí impactou a qualidade dos parlamentos?

Ana Amélia Lemos: Sim. Impactou. Então você vê que, você vai discutir, digamos, você vai ver um, veja um deputado que seja um grande líder, influenciador digital, um grande líder, seja na Câmara ou no Senado, dá uma olhadinha na pauta de projetos que ele fez. Aí depois nós falamos. Ele está mais preocupado com o discurso e influenciar pessoas do que em produzir leis que venham facilitar a vida de quem trabalha, de quem empreende, de quem gera emprego.

 

RDM: Então, mas esse debate todo está acontecendo num momento em que o mundo está se transmutando. Alguns, vários especialistas, estão apontando que o ano de 2025 é o ano em que o século XX acaba e começa realmente, de fato, o século XXI, por conta dessa briga, do eixo dos Estados Unidos, do capital norte-americano se deslocando para a China e cada vez mais célere no sentido ao capital chinês. E aí como que o Brasil fica nisso? Como a senhora analisa o momento geopolítico atual e o lugar do Brasil nesse contexto? 

Ex-senadora em conversa com o então presidente do Senado, senador Rodrigo Pacheco, durante as votações do Senado. (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Eu acho que o Brasil fica bem nisso, porque por mais que você tenha críticas ao governo que está aí e não haja nenhuma afinidade ideológica entre os Estados Unidos hoje, com o governo de hoje, com o governo atual do Brasil e o governo dos Estados Unidos de hoje, não há nenhuma identidade ideológica. É o contrário. A relação era com o governo anterior. O Bolsonaro é amigo da família Trump. O filho do Bolsonaro está lá morando nos Estados Unidos e tem convivência com o dono da Casa Branca. Porém, o que fala mais alto para um homem como Donald Trump, que é, antes de ser político, um grande empresário, um grande negociante. Pode ser negociante primeiro e depois negociador. Então, é um sujeito talentoso para ganhar dinheiro. Ele é um homem multimilionário. Então, o que o rege é ganhar mais, ganhar sempre nas apostas. É o capitalismo. Não importa se seja selvagem ou se seja civilizado, mas é esse o capitalismo forte. No entanto, é evidente que, como a China surge como um elemento de disputa nova no campo econômico, com eficiência que fica assustando o mundo, o porto que eles estão fazendo aqui no Peru é uma coisa extraordinária. Vai reduzir em 24 dias a chegada de um navio daqui da América do Sul para a China. Então, imagina. O que eles fizeram quando começaram a duplicação do canal do Panamá de fazer o Panamá sair, retirar a condição de Taiwan ter reconhecimento diplomático pelo Panamá. Eles [panamenhos] retiraram, eu diria, por determinação da China. A China tem um poder para fazer isso, porque ela é o maior cliente do canal do Panamá. Então, ela simplesmente fez isso. Ela não só fez isso, conseguiu. O Panamá não tem mais relação diplomática com a embaixada de Taiwan. É uma representação comercial, como tem o Brasil. Hoje só tem o Paraguai, que tem uma embaixada de Taiwan. É o único país da América Latina que tem essa relação.

 

RDM: E o Paraguai reconhece Taiwan, mas não a China.

Ex-senadora Ana Amélia durante sessão solene destinada a homenagear o Dia Mundial das Doenças Raras, instituído em 2008 pela Organização Europeia de Doenças Raras (Eurordis), no plenário da Câmara. (Foto: Saulo Cruz / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Exatamente. Mas, com todo respeito ao Paraguai, do ponto de vista estratégico, geopolítico, por que é esse… Se o Paraguai já está muito vinculado à China, com tudo que vem da China, que é negociado lá no Paraguai. Eles são um entreposto comercial da China. Mas o Paraguai hoje, os brasileiros estão lá investindo, porque o sistema tributário do Paraguai é muito avançado. O que eles estão avançando em logística também é muito bom. E tem muito empresário. O brasileiro está indo para lá porque a tributação lá é muito baixa. Então, vale a pena investir lá em agricultura. O país tem terras ainda agricultáveis. Mas é para ver o grau desse capitalismo chinês que assusta o mundo. Não assusta só, compete os Estados Unidos, mas o Brasil todo. E eles estão investindo muito na tecnologia, no chip. Por isso que eles estão interessados no lítio, em terras raras, por conta da necessidade de ampliar. A China é o que tem as maiores reservas. O segundo dono das maiores reservas é o Brasil. Então, o Brasil passa a ter um pouco grande atenção e prioridade.

 

RDM: E como a senhora vê esta aproximação entre Trump e Lula?

Ex-senadora Ana Amélia durante sessão da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) que debateu os direitos e benefícios dos profissionais conectados e suas relações com trabalho, previdência e plataformas digitais. (Foto: Saulo Cruz / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Então, quando o Trump faz a inflexão com o Lula e faz isso, ele não está indo pelo discurso do Lula. Ele está indo pelo que nós temos aqui de interesse dos Estados Unidos. Esse é o jogo geopolítico, a meu juízo, diplomático, mas em nome de um interesse maior que o interesse dos Estados Unidos em relação a essas questões tecnológicas. As terras raras, a questão do lítio para fazer o chip do celular, de tudo que é coisa dessa área tecnológica que está avançando cada vez mais. A inteligência artificial que está chegando agora, correndo, o que é um grande ponto de interrogação. Então, tudo isso faz com que o Brasil fique nesse lugar. E o Brasil é o maior fornecedor de comida para o mundo. Isso não é pouca coisa. Nós batemos os Estados Unidos em carne. Nós estamos acima dos Estados Unidos. Vamos bater os Estados Unidos, já batemos em algodão. Logo, talvez, vamos bater os Estados Unidos naquilo que ele tem de maior produção, que é o milho. O etanol dos Estados Unidos é todo feito de milho. E a soja nem se fala. Nós já somos líderes. Então, a gente está numa posição estratégica nesse, no capítulo do agronegócio.

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RDM: Agora por que tanta dificuldade em se fazer o acordo entre o Mercosul com a União Europeia? 

Ana Amélia Lemos: Não é por causa da indústria, é por causa do agronegócio.Porque o protecionismo francês na agricultura é muito forte. Eles têm um peso político muito grande sobre os governos. E como nós somos competitivos, não só o Brasil, o Uruguai e a Argentina também, o Paraguai também, que está no bloco, eles temem essa concorrência, essa competição. No caso, não só a França, a Polônia também é a grande produtora de carne de frango na Europa. Então, tudo isso embaralha. Então, fazer um acordo comercial não é uma coisa simples e fácil. Seria uma alternativa à dependência da China, mas é uma dependência também limitada ao protecionismo que é feito na Europa.

 

RDM: E como fica a questão democrática e multilateral nesse cenário, com os EUA desmontando organismos pós-guerra? Os Estados Unidos foi o país que emulou a democracia para as sociedades civilizadas a partir da sua independência, em 1776. E a partir daí, todo o organismo criado no pós-guerra está sendo desmontado pelos próprios Estados Unidos, pelo próprio governo Trump, que hoje está no controle. Mas já vinha sendo desmontado pelos governos anteriores, inclusive nos governos democratas. Como vai se dar essa questão multilateral, como vai ser esse jogo?

Para a ex-senadora Ana Amélia Lemos, “a política virou uma espuma de debates nas redes”. (Foto: Saulo Cruz / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Eu gostaria que quem soubesse dar essa resposta, eu também queria aprender, porque é muito difícil você fazer um prognóstico da próxima década, de como vai estar esse cenário e quem serão os personagens desse jogo. É um jogo muito pesado, é um jogo de inteligência, de xadrez, é um jogo de xadrez, entre grandes potências com grandes riquezas no país. Do ponto de vista do seu território, começa por aí, são parecidos em termos de território, China continental, Brasil continental, Estados Unidos continental. Basta ver isso, cada um é um gigante. São três gigantes brigando pelo caos. Um está na Ásia e dois na América, América do Norte e América do Sul. Então, é ver essa geopolítica como ela é exercida e vai depender muito da cabeça de cada líder. Mas você não pode ignorar o poder que um Lula tem como influenciador, entende? Goste ou não goste deles, mas são eles que estão nesta mesa da negociação. 

 

RDM: A senhora acredita que o acordo Mercosul-União Europeia, previsto para ser discutido e, talvez, assinado em dezembro em Foz do Iguaçu neste sábado, 20 de dezembro, sairá do papel? E se sair, pode ser um diferencial do Brasil neste jogo China-EUA?

Ana Amélia Lemos comenta o jogo de poder entre EUA, China e Europa e avalia as incertezas sobre o acordo Mercosul-União Europeia. (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

Ana Amélia Lemos: Ele é importante, ele é muito importante, mas não é diferencial. Ele é como uma alternativa a essa polarização China-Estados Unidos, as nossas dependências, para onde nós mandamos os nossos produtos. Mais do que isso é que você está vendo um continente, que é o continente europeu, muito protecionista, que não avançou como avançou a nossa região do Mercosul em matéria de competitividade no setor da produção agrícola. Nós temos duas safras por ano, nós estamos no hemisfério sul, tem que considerar isso também. Então, isso nos dá esse poder. Então, o receio exatamente dos europeus é isto, é nós concorrendo com eles, é uma disputa desigual em nosso tamanho, primeiro, nosso tamanho, na nossa competitividade e na nossa qualidade, entende? E é exatamente isso. Eu não tenho muito otimismo em relação a isso. Acompanho isso desde que começou.

 

RDM: Isso começou em 1999 no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso Cardoso (PSDB), não é?

Ana Amélia Lemos: Exatamente, em que lá na França, no Congresso francês, ele [FHC] disse, não, a França não é protecionista, os americanos é que são protecionistas. Também são, mas não dá para dizer que os Estados Unidos são mais do que a França. A França paga 800 euros por mês para o agricultor ficar na propriedade dele lá no interior. Mas o fato é que esse acordo, eu tenho dúvidas que ele seja assinado, porque mesmo, digamos que ele seja assinado. Tem que considerar que a França, que é o maior deles, do ponto de vista econômico, os agricultores franceses têm um peso político muito grande sobre o governo francês. E o Macron está nesse jogo. Eu mexo sempre, quando os franceses botam suas vaquinhas na Torre Eiffel para protestar, o governo treme, o governo treme. E isso é a força deles, então, eles têm essa pressão, capacidade de fazer, independente de ser ou não assinado, que seria mais um aspecto político para o governo brasileiro, que é estar na presidência pró-tempore do Mercosul.

 

RDM: Mesmo que assinado, o acordo não teria eficácia imediata, não é?

Ana Amélia Lemos: Vai depender de que cada parlamento dos 27 países assinem para ele poder entrar em vigor. Então, não é fácil fazer isso. Eu sei porque eu fui da Comissão de Relações Exteriores do Brasil e tinha acordos que o Brasil assinava com o Chile ou com outro país aqui da América do Sul, e ele ficava na gaveta da Casa Civil para chegar ao Senado para ser aprovado e discutido. Ficavam dias, meses, e horas para que um acordo com a assinatura fosse ratificado pelos respectivos países. Então, isso vai ser um outro desafio. Não é de uma hora para outra que vai funcionar. Mesmo assinando agora, ele não terá eficácia imediata.

 

RDM: A senhora entende bem essa negociação Mercosul, União Europeia. Por exemplo, se acordo for ratificado entre os dois blocos e for ratificado por um país como a Alemanha ou Espanha, que são menos resistentes, já entra em vigor nesses países ou não?

Ana Amélia Lemos: Não, depende de todo mundo assinar para entrar em vigor. Todos têm que assinar. Porque tem a questão também que… Bom, pode ser que a legislação de algum país permita que o parlamento daquele país, ratifique. Mas estou falando pela regra. Depende depois da assinatura de todos eles. Depende da regra do que for determinado por cada país. Hoje tem o guarda-chuva. O acordo é um guarda-chuva. Depois você vai ter que examinar os detalhes.

 

RDM: E as cláusulas de salvaguarda e barreiras não tarifárias podem impedir a efetividade do acordo?

Ana Amélia Lemos: A salvaguarda, a Europa já fez uma série de salvaguardas e a própria CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil] já reclamou porque ela não foi consultada para saber o que o setor agropecuário brasileiro tinha de manifestação em relação a esse acordo.

 

RDM: Então, mesmo assinando, a salvaguarda pode emperrar o acordo?

Ana Amélia Lemos: Claro, salvaguarda pode. Não pode de uma hora para outra. Ou então, existem outras questões que o comércio faz, que são as barreiras, as barreiras comerciais não tarifárias. Aí você pode dizer, não, essa soja está vindo de região desmatada. Essa soja está vindo de região de floresta que foi queimada, foi derrubada a floresta. Que essa soja está vindo de terra indígena e da Amazônia. É assim que você cria uma barreira, uma barreira que não é tarifária, mas que cobra mais imposto porque a tua soja, entende, não tem a especificação da minha soja aqui. É uma barreira não tarifária que é uma barreira ambiental, uma barreira social, de trabalho escravo. Entende? Então, aí é outra guerra, essa é uma outra guerra.

 

RDM: Então, se assinar é uma vitória política, mas para o futuro tem muitas batalhas ainda, não é?

Ana Amélia Lemos: Evidente, não é bem assim, entende? Claro que é uma vitória política importante e o governo Lula sabe fazer essas coisas, quer dizer, sabe fazer no sentido de tirar proveito do significado político dessa assinatura. Porque é ele que está na presidência pró-templo do Mercosul, entendeu? Então, é esse detalhe.

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