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Em cinco anos, mais de 60 mil acidentes de trabalho foram registrados em municípios de MT

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Entrevista com o procurador do Trabalho Bruno Choairy Cunha de Lima revela números alarmantes sobre acidentes e doenças ocupacionais — um alerta para empregadores, trabalhadores e sociedade

 

 

 

Novembro ainda ecoa em muitas conversas nos ambientes de saúde e segurança do trabalho, mas, em abril, a pauta ganha força nacional com o Abril Verde — campanha de conscientização que destaca a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais em todo o Brasil e culmina no Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril. Instituída pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e reconhecida no Brasil pela Lei nº 11.121/2005, a data remete à memória das vítimas e à reflexão sobre práticas que possam evitar tragédias no ambiente laboral.

 

Em entrevista exclusiva ao site RDM Online, o procurador do Trabalho Bruno Choairy Cunha de Lima, responsável por coordenar iniciativas de segurança e saúde no Ministério Público do Trabalho (MPT) em Mato Grosso, reforça a necessidade de investir em prevenção e aponta que, mesmo antes de abril, o tema já está em pauta em diversas empresas e órgãos públicos. Segundo ele, a prevenção não é apenas um conceito técnico, mas uma responsabilidade coletiva de empregadores, trabalhadores e da sociedade em geral — sobretudo quando números alarmantes ainda persistem no país e no estado.

 

O Abril Verde surgiu no Brasil motivado pela necessidade de construir uma cultura preventiva permanente no ambiente de trabalho. Embora muitas pessoas associem a campanha apenas ao mês de abril, ela é pensada como um movimento contínuo de conscientização, debate e ação que perpassa empresas, governos e instituições da sociedade civil. O procurador explica que, mesmo antes de abril, discussões sobre prevenção já ganham espaço nas conversas com empregadores — reflexo de uma agenda nacional e internacional que não se limita a uma data.

 

A campanha enfatiza que acidentes e doenças ocupacionais não são eventos isolados ou inevitáveis. Eles podem ser reduzidos drasticamente com políticas e práticas preventivas adequadas.

 

“A prevenção sempre começa antes do acidente — no planejamento, na identificação dos riscos, na implementação de medidas eficazes e na educação contínua dos trabalhadores e gestores”, afirmou Bruno Choairy.

 

 

O mês de abril concentra duas datas simbólicas para a Saúde e Segurança no Trabalho: o Dia Mundial da Saúde (7 de abril) e o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho (28 de abril) — esta última com raízes no movimento sindical internacional desde 1996, incluindo a OIT, que busca colocar a prevenção no centro das políticas laborais. Dados oficiais mantidos pelo Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho — projeto coordenado pelo MPT em parceria com a OIT — revelam a dimensão do problema no Brasil: entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes de trabalho e cerca de 32 mil mortes de trabalhadores com carteira assinada.

 

 

Esses números, que representam apenas casos oficialmente notificados, também mostram a subnotificação expressiva de acidentes e adoecimentos — casos que muitas vezes não chegam a ser registrados formalmente nos sistemas de informação estatística. Além dos acidentes, milhões de trabalhadores foram afastados do trabalho por doença ou acidente ocupacional, resultando em gastos bilionários com benefícios previdenciários ao longo dos anos. São registros que traduzem impactos sociais e econômicos profundos para famílias, empresas e para o sistema de proteção social como um todo.

 

Em Mato Grosso, levantamentos anteriores do MPT revelam que o estado já ocupou posições de destaque no ranking nacional de acidentes: em um período analisado entre 2012 e 2017, foram mais de 60 mil comunicações por acidentes de trabalho, com centenas de mortes no estado — números que colocam em evidência o risco presente em diversas atividades econômicas locais.

 

Setores como construção civil, agropecuária e indústria aparecem repetidamente como segmentos com maior número de ocorrências. Em muitos casos, incidentes estão relacionados à utilização de máquinas sem proteção adequada, quedas e choques elétricos — evidenciando falhas na gestão de segurança e na implementação de medidas preventivas eficazes.

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“Todo ambiente de trabalho tem riscos, mas é fundamental que eles sejam reconhecidos, avaliados e mitigados com base nas normas específicas que regem a atividade econômica da empresa”, reforçou o procurador.

 

Ao receber denúncias ou comunicações sobre acidentes e situações de risco, o MPT atua como órgão fiscalizador e garantidor dos direitos dos trabalhadores. As denúncias podem ser feitas por qualquer pessoa através do site do Ministério Público do Trabalho ou pelo aplicativo MPT Pardal, canais que possibilitam a comunicação objetiva de irregularidades no ambiente laboral. Uma vez recebida a denúncia, ela é analisada por um procurador, que pode requisitar documentos, ouvir testemunhas, solicitar vistorias de órgãos técnicos e promover inspeções. Dependendo do caso, medidas judiciais ou ajustes de conduta podem ser recomendados ou exigidos.

 

Segundo Bruno Choairy, as dificuldades mais comuns nesse processo envolvem o acesso a locais de trabalho em áreas remotas, especialmente quando é necessário conduzir diligências ou perícias físicas. Mesmo assim, a requisição documental resolve grande parte das irregularidades identificadas.

 

 

O combate aos acidentes e adoecimentos ocupacionais depende, em grande parte, do cumprimento das Normas Regulamentadoras (NRs), que estabelecem obrigações específicas para garantir a segurança e a saúde no trabalho. A NR-12, por exemplo, trata da proteção no uso de máquinas e equipamentos, prevenindo acidentes graves. Já a NR-18 é direcionada à construção civil, estabelecendo medidas de segurança para obras e trabalhos em altura. A NR-31 define regras para o setor rural, assegurando condições seguras em atividades agrícolas, enquanto a NR-17 aborda a ergonomia e as condições adequadas de trabalho, prevenindo problemas físicos e posturais decorrentes da rotina laboral.

 

O cumprimento dessas normas é essencial para reduzir riscos e proteger a integridade física e mental dos trabalhadores. O procurador destaca que, muitas vezes, os acidentes não são causados por um único fator isolado, mas por uma combinação de falhas — como a ausência
de proteção coletiva, má avaliação de riscos ou negligência no cumprimento das NRs. Negligência, segundo ele, nem sempre é intencional, mas frequentemente resulta de falhas na gestão da segurança. Um exemplo clássico é o trabalho em altura sem proteção adequada, como guardacorpos ou sistemas de ancoragem projetados para garantir o uso correto de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

 

 

“Quando não há um gerenciamento eficaz dos riscos inerentes à atividade, mesmo procedimentos simples — como instalação de proteção coletiva — podem fazer a diferença entre um trabalhador voltar para casa seguro ou se tornar mais uma vítima”, afirma Choairy.

 

 

Campanha Abril Verde

 

A campanha Abril Verde no estado de Mato Grosso — assim como em outros estados — começou a abordar temas emergentes que vão além dos riscos tradicionais. Entre os focos estão: As mudanças climáticas têm se tornado um desafio crescente para o ambiente de trabalho, especialmente em atividades realizadas a céu aberto, como na construção civil. Ondas de calor intensas, baixa umidade do ar e exposição à fumaça representam riscos adicionais aos trabalhadores, exigindo que as empresas adotem medidas preventivas específicas, como pausas para hidratação, reorganização da jornada de trabalho e protocolos de segurança térmica.

 

Além disso, os chamados riscos psicossociais têm ganhado atenção. Pressões excessivas por resultados, falta de clareza sobre funções e uma organização ineficiente do trabalho podem gerar estresse, ansiedade e outros problemas de saúde mental, que impactam diretamente o bem-estar físico e emocional dos colaboradores. Reconhecer esses fatores é essencial para criar um ambiente de trabalho seguro e saudável, no qual a prevenção vai além da proteção física e inclui também a saúde psicológica dos trabalhadores.

 

O Ministério Público do Trabalho planejou audiências públicas, palestras, oficinas e debates abertos à participação de empregadores, trabalhadores, órgãos públicos e sociedade civil para aprofundar essas discussões. Para o procurador, é fundamental que trabalhadores conheçam seus direitos — inclusive que exigir um ambiente seguro não é apenas uma prerrogativa, mas um direito legal e humano. Ao mesmo tempo, as empresas têm responsabilidades claras: promover treinamentos, investir em equipamentos de segurança, planejar atividades com base na identificação de riscos e garantir acompanhamento constante da gestão de segurança no trabalho.

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O Abril Verde não é apenas uma campanha institucional — é um chamado à ação coletiva. A prevenção de acidentes e doenças não protege apenas a integridade física dos trabalhadores: ela reduz custos sociais e econômicos significativos, fortalece a sustentabilidade das empresas e contribui para uma sociedade mais justa e humana.

 

“Investir em prevenção é investir em vida”, conclui o procurador Bruno Choairy. E, no calendário de saúde e trabalho, abril é apenas o ponto de partida para uma mudança que deve ser permanente em cada ambiente laboral.

 

 

 

Empresas abraçam a causa

No mês do Abril Verde, a empresa Trael reforça seu compromisso com a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais, promovendo ações voltadas para a segurança e o bem-estar de seus colaboradores. O coordenador de Segurança do Trabalho, engenheiro de Segurança do
Trabalho Rodrigo Assis, explica que “a segurança dos nossos colaboradores é um valor essencial para a Trael. No dia a dia, adotamos diversas medidas preventivas, como inspeções de segurança nas áreas produtivas, análise de riscos das atividades, procedimentos operacionais seguros e o fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), além da orientação constante quanto ao uso correto desses equipamentos”.

 

Segundo ele, a atuação do SESMT e da CIPA contribui para identificar oportunidades de melhoria e fortalecer as ações de prevenção.
“A empresa investe continuamente em melhorias nos ambientes de trabalho, em dispositivos de segurança nas máquinas e em ações que visam reduzir riscos e garantir um ambiente cada vez mais seguro para todos”, acrescenta Rodrigo.

 

A conscientização dos colaboradores também é considerada prioridade. “A Trael acredita que a conscientização é um dos principais caminhos para a prevenção de acidentes. Por isso, realizamos treinamentos periódicos de segurança, integração para novos colaboradores, diálogos de segurança nas áreas de trabalho e campanhas educativas ao longo do ano”, explicou.

 

 

O coordenador enfatiza que essas ações orientam os colaboradores sobre os riscos existentes em suas atividades e reforçam a importância da prevenção, do uso correto dos EPIs e do cumprimento dos procedimentos de segurança, tornando cada colaborador um agente ativo na construção de um ambiente de trabalho mais seguro.

 

Durante a campanha, a empresa intensifica essas ações com palestras, campanhas educativas, diálogos ampliados e atividades voltadas ao bem-estar dos colaboradores.

 

“O Abril Verde é um período importante para reforçarmos ainda mais a cultura de prevenção dentro da empresa. Essas iniciativas têm como objetivo fortalecer a percepção de risco e incentivar práticas seguras no ambiente de trabalho, envolvendo todos os colaboradores nesse compromisso com a prevenção”, afirmou Rodrigo Assis.

 

Manter um ambiente de trabalho seguro, segundo o coordenador, é um desafio constante.

 

“Um dos principais desafios é garantir que todos estejam constantemente atentos às práticas de segurança, especialmente em um ambiente industrial com diferentes atividades e processos. Para superar esses desafios, a Trael investe em treinamento contínuo, acompanhamento das atividades pelas lideranças, atuação ativa do SESMT e da CIPA, além de incentivar a participação dos colaboradores na identificação e comunicação de situações de risco. Acreditamos que a segurança é uma responsabilidade compartilhada”, explicou.

 

 

 

Ele ainda destaca os impactos positivos da prevenção: “A prevenção tem um impacto direto no bem-estar e na qualidade de vida dos colaboradores. Quando as pessoas trabalham em um ambiente seguro, elas se sentem mais valorizadas, protegidas e confiantes para desempenhar suas atividades. Isso também se reflete na produtividade da empresa, pois ambientes seguros contribuem para equipes mais motivadas, redução de afastamentos e maior eficiência nas operações. Para a empresa, investir em segurança é investir nas pessoas, que são o nosso maior patrimônio”, concluiu.

 

 

 

 

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