Professor da UERJ defende que Brasil tem que responder na mesma moeda; veja demais opiniões de outros analistas.
Por Humberto Azevedo
Após o anúncio das tarifas de 50% contra o Brasil feitas pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, o professor e especialista em geopolítica, Günther Richter, afirma que em “jogo” está a “decadência” norte-americana no sistema financeiro internacional.
Günther Richter, que é professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no Rio Grande do Sul, em entrevista à Sputnik Brasil – agência de notícias vinculada ao governo russo, que caso o governo brasileiro não dê nenhuma resposta a iniciativa de Trump, só isso acarretará problemas aos Estados Unidos.
Isso porque os EUA adquirem produtos brasileiros que são “competitivamente mais baratos” do que os produzidos pelo próprio país e, como consequência, ficarão significativamente mais caros. A lista destes produtos brasileiros que podem tornar o tradicional café da manhã mais cara reúne o próprio café e o suco de laranja usualmente utilizados.
“Só que a economia não pode servir para explicar absolutamente tudo no âmbito da macropolítica internacional. O que está, de fato, em jogo é a decadência hegemônica dos Estados Unidos em termos de liderança do sistema financeiro internacional”, comenta o professor da UFSM.
Já o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Williams Gonçalves, defende que Brasil tem que responder na mesma moeda e adotar medidas de reciprocidade, além de enxergar na estratégia de Trump a defesa pelos Estados Unidos da hegemonia da moeda daquele país, o dólar, nas transações comerciais pelo globo.
Gonçalves, também entrevista à Sputnik Brasil, avalia que os EUA já não têm mais hegemonia global, mas seguem usando o dólar como arma para manter poder e punir quem desafia a sua influência. E diante da taxação de 50% imposta por Trump, ele defende que o Brasil acione o princípio da reciprocidade e também aplique tarifas iguais sobre produtos dos EUA.
“O dólar, como moeda internacional, é o principal pilar do poder norte-americano. A substituição do dólar por outras moedas significará uma redução significativa desse poder, e isso ele não deseja. Está atacando diretamente o Brasil”, afirmou o especialista.
“Do ponto de vista econômico-comercial, o que se pode fazer, e creio que o governo fará isso, é responder na mesma moeda, é usar o mecanismo da reciprocidade, que não pode sequer ser entendido como retaliação. A reciprocidade faz parte do jogo, é da regra do jogo”, complementou o professor da UERJ.
DESESTABILIZAÇÃO
O professor Williams Gonçalves enfatiza que a medida adotada por Trump acontece em meio a um tensionamento e a uma divisão na sociedade brasileiro, entre àqueles que querem, e não querem, a volta do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) ao comando do Brasil e pode ter sido, sim, um instrumento de tentar desestabilizar o atual governo que tem a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao qual a ampla maioria do Congresso Nacional é “majoritariamente contrário ao governo e sua política externa”.
Diante deste cenário, o especialista da UERJ aponta que haverá uma “forte pressão” tanto dos parlamentares quanto de setores pró-EUA no Brasil. Já o pesquisador Roberto Moll, especialista em assuntos de Defesa, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também em entrevista à Sputnik Brasil, afirmou que a decisão de Trump vai impactar a economia dos dois países. De acordo com Moll, os principais setores brasileiros afetados seriam o agronegócio e a indústria aeronáutica, representada principalmente pela Empresa brasileira de aviação (Embraer).
Apesar do Brasil registrar déficit comercial com os Estados Unidos há 16 anos, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores (MRE), isso demonstra e “fica explícito que o motivo é político”. Desde 2009, o saldo da balança comercial entre os dois países é totalmente favorável aos EUA com mais de R$ 2,4 trilhões (U$ 400 bilhões) e desfavorável ao Brasil. No total, as exportações brasileiras com destino aos EUA representam 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e os estados mais afetados pela tarifa adicional de 50% são Ceará, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina.
“Mas precisamos fazer algumas ressalvas, já que o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos, e não o contrário, desde 2009. Como não há desequilíbrio comercial e tarifário,. E não diria que é apenas relativo ao que está na carta, mas também a liderança que o Brasil vem demonstrando [internacionalmente], como no caso do BRICS”, finalizou o especialista da UERJ.































