A agricultura familiar de Mato Grosso está prestes a ganhar uma nova injeção de recursos, com projetos voltados à produção, organização, acesso ao mercado e fortalecimento das pequenas agroindústrias. O principal destaque é o MT Produtivo, Desenvolvimento e Sustentabilidade, que reúne aproximadamente R$ 550 milhões para ações no setor.
Em entrevista ao RDM Online, a secretária de Estado de Agricultura Familiar, Andreia Fujioka, explica como os recursos serão distribuídos, quais municípios estarão na primeira etapa e de que forma os produtores poderão participar. Ela também apresenta a Vitrine do Campo, ferramenta que pretende aproximar produtores e compradores.

Confira a entrevista:
RDM Online: Secretária, vamos falar sobre o MT Produtivo. Como está o acesso ao crédito e o fortalecimento dos pequenos produtores rurais?
Andreia Fujioka: Esse tema é muito importante porque estamos na iminência de lançar o edital do MT Produtivo, Desenvolvimento e Sustentabilidade. É um recurso que o Estado pegou emprestado do BIRD, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para executar projetos estruturados de agricultura familiar. São US$ 80 milhões do banco e mais US$ 20 milhões de contrapartida do Estado. Esse recurso será repassado aos produtores por meio de cooperativas, associações e subsídios.
RDM Online: Quantos municípios serão atendidos nessa primeira etapa?
Andreia Fujioka: Serão 61 cidades prioritárias. As cooperativas e associações poderão participar do edital e, depois da publicação, deverão procurar a Empaer mais próxima para apresentar seus planos de negócios. Cada região tem uma carência diferente, então os projetos precisam ser específicos para cada realidade.
RDM Online: O que será levado em consideração na escolha dos projetos?
Andreia Fujioka: Cada cooperativa e associação vai apresentar seu plano de negócio e os melhores serão selecionados para receber os recursos e executar os projetos elaborados com apoio da Empaer. A ideia é entender qual é o problema de cada cadeia produtiva e trabalhar para resolvê-lo.
RDM Online: O MT Produtivo chega para ampliar os investimentos que o Estado já faz na agricultura familiar?
Andreia Fujioka: Sem dúvida. De 2019 até hoje, o governo do Estado vai aportar mais de R$ 1 bilhão em recursos próprios para a agricultura familiar. O MT Produtivo não foi buscado porque faltam recursos, mas pela expertise do banco em estruturar projetos que acompanham o produtor desde o início da produção até a venda.
RDM Online: A senhora costuma destacar que não basta produzir, é preciso saber vender. Como isso será trabalhado?
Andreia Fujioka: Não adianta produzir mandioca, por exemplo, e depois não conseguir vender. O produtor perde a produção, o dinheiro investido e o tempo. Por isso, precisamos trabalhar organização e capacitação, para que ele pense no início, no meio e no fim da cadeia e consiga chegar ao mercado.
RDM Online: E como funcionará a Vitrine do Campo?
Andreia Fujioka: Será um aplicativo, uma espécie de classificados. Quem vende o produto estará lá e quem compra também. A plataforma não vai fazer a negociação, mas vai permitir que eles se encontrem. O produtor poderá saber, antes mesmo de começar a produção, quem tem interesse em comprar. Assim, ele já produz com um destino definido.
RDM Online: Isso também pode ajudar a manter os jovens no campo?
Andreia Fujioka: Com certeza. O jovem precisa ter perspectiva. Eu, como servidora pública, sei que vou trabalhar e no final do mês vou receber meu salário. O agricultor também precisa ter essa segurança. Se ele souber que daqui a três meses terá determinada produção e uma venda encaminhada, poderá se organizar melhor. Isso é estímulo para permanecer no campo.
RDM Online: Como está o trabalho para fortalecer as pequenas agroindústrias?
Andreia Fujioka: Foi criado um serviço integrado para facilitar a regularização das pequenas agroindústrias. Antes, os produtores tinham que seguir regras pensadas para grandes empreendimentos, o que dificultava muito. Agora existem regras específicas para a agricultura familiar, permitindo que produtos como queijo e salame obtenham o selo de forma mais facilitada e possam entrar no mercado formal.
RDM Online: E quem não tem dinheiro para fazer as adequações necessárias?
Andreia Fujioka: O governo lançou o Fundaf Incentivo Produtivo, com crédito subsidiado de até R$ 150 mil. O produtor pode buscar esse recurso para fazer as adequações necessárias. São dois anos de carência e, depois, cinco anos para pagar. Se ele pagar em dia, o juro é zero; caso contrário, a taxa é de 4% ao ano.
RDM Online: Quais são hoje as maiores dificuldades para colocar o MT Produtivo em prática?
Andreia Fujioka: Não é fácil rodar R$ 550 milhões dentro da metodologia do BIRD. São muitas regras, auditorias e etapas de validação. O processo é acompanhado pela PGE, CGE, Tribunal de Contas e auditoria externa. Estamos aprendendo com quem já executou esse tipo de projeto, mas o edital está sendo construído com muito cuidado.
RDM Online: A primeira etapa ficará restrita aos 61 municípios?
Andreia Fujioka: Inicialmente, sim. A ideia é criar polos de identidade da agricultura familiar e fortalecer cadeias prioritárias, evitando pulverizar demais os recursos. Mas existe também o eixo ambiental e fundiário, que é mais expansivo. E outros programas da Secretaria chegam aos 142 municípios.
RDM Online: Então os demais municípios também terão acesso às ações da Secretaria?
Andreia Fujioka: Sim. O programa de doação de máquinas e insumos, por exemplo, atende os 142 municípios. O Fundaf tem outra abrangência, o MT Produtivo atende principalmente cooperativas e associações e existem programas que atendem diretamente o produtor. São diferentes ações para diferentes necessidades.
RDM Online: Para finalizar, qual mensagem a senhora deixa para os agricultores familiares?
Andreia Fujioka: Quero dizer que continuem contando com o governo do Estado e com a Secretaria de Agricultura Familiar. Estamos trabalhando para levar essas ações realmente à ponta e fortalecer nossos agricultores, nossas cooperativas e nossos produtos. Tenho muito orgulho de fazer parte desse trabalho e espero que todos possam aproveitar as oportunidades que estão sendo construídas.



















