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SOBRETUDO Campanha de deputado com cabeça de vereador

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Há uma característica que chama atenção nas eleições para deputado estadual e federal em Santa Catarina: muitos candidatos ainda fazem campanha como se estivessem disputando uma eleição para vereador.

Falam do bairro, da rua, da comunidade, da praça, da obra que conseguiram ou que pretendem conseguir. Mostram proximidade com a cidade e repetem promessas que caberiam perfeitamente em uma campanha municipal.

O problema não é falar dos municípios. Um deputado precisa conhecer de perto a realidade das cidades onde busca votos.

O problema é quando a campanha não consegue sair delas.

Deputado estadual não é vereador com uma área de atuação maior. Sua responsabilidade é discutir Santa Catarina. Segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, desenvolvimento econômico, mobilidade, agricultura, turismo, orçamento e fiscalização do governo estadual são temas que deveriam estar no centro da campanha.

Com deputado federal, a dimensão é ainda maior. O debate deveria passar por questões nacionais, legislação federal, orçamento da União, saúde, segurança, economia, infraestrutura, relações entre União, Estado e municípios e fiscalização do governo federal.

Mas o que se vê em boa parte das campanhas é uma espécie de municipalização da eleição proporcional.

Muda o cargo, mas não muda a dimensão do discurso.

E isso revela algo mais preocupante: muitos candidatos parecem não compreender, ou pelo menos não demonstram compreender, o tamanho da responsabilidade que estão buscando assumir.

Uma campanha para deputado deveria responder perguntas básicas.

O que o candidato pensa sobre os grandes problemas de Santa Catarina?

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Quais projetos pretende defender?

Que leis pretende propor ou mudar?

Como pretende fiscalizar o Executivo?

Quais são suas prioridades para o Estado?

E, no caso de um deputado federal, qual é sua visão para o Brasil?

Em vez disso, muitas campanhas se resumem a uma coleção de compromissos locais e promessas de recursos.

É pouco para quem pede um mandato de quatro anos para representar milhares de pessoas.

Mas existe ainda uma outra questão, menos discutida e talvez mais incômoda.

Em algumas chapas, há candidatos que parecem entrar na disputa não necessariamente com uma estratégia real de conquistar um mandato, mas para somar votos à legenda e ajudar a construir o resultado eleitoral daqueles que concentram as maiores condições de eleição.

É a lógica do sistema proporcional.

Cada voto dado a um candidato também conta para o partido ou federação. A soma desses votos ajuda a definir quantas cadeiras a legenda poderá conquistar. É o chamado quociente eleitoral e a distribuição das cadeiras pelo sistema proporcional.

Na prática, isso significa que nem todo candidato está necessariamente disputando apenas a própria eleição.

Alguns podem estar sendo usados. Outros podem estar se deixando usar.

E aqui está a diferença importante: não há nada de irregular em uma chapa reunir candidatos com diferentes níveis de competitividade. O problema político aparece quando alguém aceita disputar uma eleição sem apresentar ao eleitor um projeto próprio de mandato, funcionando apenas como mais um nome para engrossar a votação coletiva da legenda.

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É uma situação que merece ser discutida porque o eleitor vota acreditando estar escolhendo uma pessoa, mas aquele voto também participa de uma engrenagem maior.

Por isso, antes de votar, talvez seja necessário olhar não apenas para o candidato, mas também para a chapa da qual ele faz parte e para o projeto político que está ajudando a construir.

Não basta perguntar ao candidato o que ele pode trazer para sua cidade. É preciso perguntar o que ele pretende fazer quando estiver na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional.

Porque emenda parlamentar não substitui projeto.

Foto com liderança não substitui posicionamento.

Presença em evento não substitui mandato.

E conhecer uma cidade não significa necessariamente estar preparado para representar um Estado ou um país.

Santa Catarina precisa de deputados que conheçam seus municípios, mas que consigam enxergar além deles.

A eleição proporcional não deveria ser uma disputa para saber quem promete mais para a própria base. Deveria ser uma oportunidade para escolher quem tem preparo, visão e propostas para exercer um mandato parlamentar.

E talvez esteja aí uma das grandes distorções desta eleição: candidatos fazendo campanha de vereador, enquanto suas estruturas partidárias pensam em uma matemática muito maior.

No fim, a questão é simples:

se a campanha parece de vereador, talvez seja hora de perguntar se o candidato está realmente preparado para ser deputado.

Porque o cargo mudou.

A campanha também precisa mudar de tamanho.

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