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ENTREVISTA DA SEMANA |

De Cuiabá para o Mundo: Gabriel Almeida leva o nome de Mato Grosso ao topo do Kung Fu

Arquivo Pessoal

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Único mato-grossense na Seleção Brasileira, atleta disputou o Mundial com representantes de 80 países e já mira novos desafios internacionais em 2026

 

 


Aos 27 anos, o atleta cuiabano Gabriel Almeida escreveu seu nome na história do esporte mato-grossense ao representar o Brasil no Campeonato Mundial de Kung Fu Wushu 2025, realizado em Brasília. Integrante da Seleção Brasileira (CBKW) e da Federação Mato-Grossense de Kung Fu Wushu (FMTKW), ele foi um dos cinco brasileiros convocados para defender o país na competição que reuniu cerca de 80 nações. Único representante de Mato Grosso no torneio, Gabriel transformou disciplina, superação e foco em combustível para alcançar o cenário internacional — e agora já projeta novos desafios rumo ao Mundial de 2027, nas Filipinas.

 

 

RDM Online: Gabriel, você é um atleta mato-grossense que representou o Brasil no Campeonato Mundial realizado em Brasília, competição que reuniu cerca de 80 países. Sendo o único atleta de Mato Grosso a integrar a Seleção Brasileira de Kung Fu, quem é o Gabriel Almeida? Conte um pouco sobre sua trajetória no esporte.

 

 

Gabriel Almeida: Bom, tudo começou quando eu ainda era criança. Já tive contato com o kung fu por influência do meu pai. No entanto, por causa de um problema de saúde — meu nariz sangrava com frequência — precisei interromper os treinos.

Assim, passaram-se a infância e a adolescência até que, já na fase adulta, em 2017, retornei para dar continuidade àquilo que havia começado na infância. Desde então, voltei a treinar com dedicação.

Morei inicialmente no CPA 3, setor 1. Em 2009, mudei-me para o bairro Tancredo Neves, onde permaneci até me casar. Depois do casamento, fui morar no Residencial Nova Canaã, na região de Três Barras, onde resido atualmente.

Ao completar 18 anos, comecei a treinar novamente. Passei a competir e, com o tempo, fui evoluindo. Aos poucos, aquela insegurança foi diminuindo.

 

 

 

RDM Online: Você mencionou que a virada de chave aconteceu em 2017, quando decidiu retornar ao esporte. O que motivou essa decisão? Antes disso, seu foco já era nas artes marciais ou você também passou por outras modalidades, como o futebol, que é tão presente na cultura esportiva brasileira?

 

 

Gabriel Almeida: Na verdade, eu sempre tentei um pouco de tudo. Cheguei a jogar futebol, mas não levava muito jeito. Tentei futsal e também futebol de campo, porém não obtive bons resultados. Percebi que não era a minha área e acabei desistindo ainda antes de concluir o ensino médio.

Quando entrei no ensino médio, descobri o vôlei. Comecei a me dedicar mais e evoluí bastante na modalidade. Estudei no IFMT, no campus do Centro, antigo CEFET, e lá consegui integrar os treinos da equipe da escola. Treinava junto com o time e participava das atividades, mas nunca cheguei a viajar para competições ou me firmar de fato no esporte.

Entre 2016 e 2017, decidi também encerrar minha trajetória no vôlei. Foi nesse momento que me lembrei do kung fu, que eu havia praticado na infância. Então tomei a decisão de retornar às artes marciais e retomar aquilo que tinha começado quando era criança.

 

 

 

 

 

RDM Online: Gabriel, o que significa para você representar o Brasil e também o nosso estado no Campeonato Mundial de Kung Fu, realizado em Brasília?

 

Gabriel Almeida: Acredito que isso representa muita responsabilidade. Desde 2017, já são nove anos de dedicação aos treinos. No entanto, só consegui ingressar na Seleção Brasileira em 2022. Ou seja, foram cinco anos de muito trabalho até alcançar esse objetivo.

De 2017 até agora, em 2026, foi um processo longo de aprimoramento. Ao longo desse período, além da evolução técnica, você também passa a se tornar uma referência. E, quando se torna referência, a responsabilidade aumenta.

Representar o estado e o Brasil em uma competição de nível mundial é uma grande responsabilidade. Isso marca toda a trajetória construída até aqui, todo o esforço empregado e todos os sacrifícios feitos desde o início para chegar ao momento de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

 

 

RDM Online: Gabriel, o que é mais desafiador: conquistar uma vaga na Seleção Brasileira ou se manter entre os convocados?

 

Gabriel Almeida: Quando você chega à Seleção Brasileira, significa que alcançou um nível mais alto dentro da modalidade. Existe toda uma trajetória até atingir esse patamar. No entanto, chegar é apenas uma parte do desafio. Permanecer é ainda mais difícil.

Para se manter na Seleção, é preciso estar em constante aperfeiçoamento. O trabalho não para. Quando você ainda não faz parte da equipe, muitas pessoas torcem por você, incentivam e acreditam no seu potencial. Porém, depois que você conquista a vaga, a realidade muda. Surgem novos atletas, igualmente preparados, disputando o mesmo espaço.

 

 

RDM Online: Como e quando você recebeu a notícia da convocação para a Seleção Brasileira? Qual foi sua reação naquele momento?

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Gabriel Almeida: A convocação acontece após a seletiva. A última seletiva do ano passado foi realizada no fim de abril. Já na primeira semana de maio foi divulgada a carta de convocação para o Mundial. A partir desse momento, você tem a confirmação: foi chamado. Então começa uma preparação ainda mais direcionada.

Durante todo o período de preparação, o treinamento foi intenso. No último mês antes do Mundial, o foco passou a ser mais específico na perda de peso.

Os treinos físicos e técnicos são realizados na própria academia, que conta com a área de tatame para o kung fu e também com espaço de musculação. Sob a orientação do meu mestre, organizamos e ajustamos os treinos conforme a necessidade. Dessa forma, consigo trabalhar tanto o condicionamento físico quanto a parte técnica.

Ao longo de todo esse processo, além do preparo físico, houve também um fortalecimento mental. Com disciplina e constância, fui reduzindo o peso gradualmente até chegar ao Mundial dentro da categoria exigida.

 

 

 

RDM Online: Na sua primeira participação, você chegou às quartas de final. Como avalia seu desempenho geral dentro do campeonato?

 

Gabriel Almeida: No Mundial, você precisa estar disposto a arriscar. É uma competição de altíssimo nível e exige coragem, preparo e confiança. Por mais que haja uma preparação mental prévia, quando se chega a um evento dessa dimensão, o impacto é grande.

Você passa meses esperando por aquele momento. Porém, ao chegar lá e ver tantos atletas de alto nível, o ambiente, a estrutura e a responsabilidade envolvida, é natural sentir o peso da competição.

Na minha primeira luta, senti um pouco desse bloqueio inicial. Houve um certo travamento e uma insegurança momentânea. Isso acontece porque, em competições desse nível, se você não conseguir se soltar, pode acabar ficando mais preso emocionalmente. Muitas vezes, a primeira luta tende a ser mais tensa.

 

 

RDM Online: Como foi para você disputar o campeonato em casa, diante da torcida brasileira, carregando também a responsabilidade de representar a América Latina em uma competição mundial?

 

Gabriel Almeida: Isso é algo fenomenal, fantástico. Quando você compete fora do país, normalmente a maioria das torcidas apoia os atletas locais ou outras seleções. Mas, quando você olha para a arquibancada e vê muitos brasileiros presentes, apoiando e gritando “Brasil”, a sensação é indescritível.

Ouvir o nome do país ecoando na arquibancada traz uma motivação ainda maior. É um incentivo que fortalece emocionalmente e dá mais vontade de lutar, de se superar e de representar bem a nação.

 

 

 

RDM Online: O fato de competir no Brasil, sem precisar se adaptar ao fuso horário ou ao clima de outro país, fez diferença no seu desempenho? De que forma isso influenciou sua preparação e rendimento?

 

Gabriel Almeida: Quando você viaja para competições internacionais, especialmente um Mundial, geralmente o evento acontece na Ásia. Sair do Brasil e chegar até lá envolve uma grande diferença de fuso horário. Dependendo da cidade, a diferença pode chegar a 12 horas.

Eu competi em uma cidade da China chamada Xindu, onde disputei a modalidade de combate (sanda). Lá, a diferença era de 12 horas. Enquanto aqui eram 10 horas da manhã, lá já eram 10 horas da noite. Essa mudança impacta bastante o organismo. A adaptação ao fuso horário não é simples, principalmente no primeiro dia.

 

 

RDM Online: Quais foram os principais desafios que você enfrentou na competição e como conseguiu superá-los?

 

Gabriel Almeida: Acredito que o maior desafio é não desistir, independentemente do resultado obtido. Um professor certa vez me disse que, na luta, você não perde: ou você ganha, ou aprende. Essa frase serve não apenas para o esporte, mas também para a vida.

Para mim, o maior desafio nunca foi enfrentar um atleta difícil ou lidar com o nível da competição. O maior desafio sempre foi manter a determinação e não desistir. Por isso, acredito que o maior desafio para nós, atletas, não é apenas vencer adversários, mas vencer a vontade de desistir. Permanecer firme, mesmo diante das derrotas, é o que realmente constrói um competidor.

 

 

 

 

RDM Online: O Campeonato Mundial reuniu atletas de 80 países. O que mais chamou sua atenção ao enfrentar competidores internacionais nesse torneio?

 

 

Gabriel Almeida: O kung fu é um esporte de origem asiática, e as grandes competições também seguem essa tradição. Nós, atletas do Ocidente, muitas vezes tentamos copiar o estilo deles. Porém, isso pode ser prejudicial.

É prejudicial porque acabamos deixando de lado a nossa essência, o nosso jeito de lutar e a nossa identidade dentro do esporte. Esse foi um dos pontos que, em determinado momento, acabou atrapalhando. Às vezes queremos lutar como determinado atleta asiático, copiar o estilo de outro, mas esquecemos que somos diferentes. Nós somos nós, e eles são eles.

O diferencial está justamente em reconhecer essas diferenças e transformá-las em ponto forte. Em vez de tentar se igualar ou adaptar completamente ao modelo deles, precisamos valorizar a nossa realidade, a nossa formação e a nossa estrutura.

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RDM Online: Qual foi a importância do apoio dos treinadores e dirigentes durante a competição? Como foi sua relação com a equipe técnica que o acompanhou no Mundial?

 

Gabriel Almeida: Acredito que a principal questão tenha sido o apoio. Quando você é atleta e o único representante do seu estado, a sua realidade é diferente. Aqui, na sua escola, você treina com o seu mestre, ao lado dos seus colegas, pessoas que conhecem você, entendem sua personalidade e sabem como você funciona. Existe confiança, proximidade e uma conexão construída ao longo do tempo.

No momento em que você sai desse ambiente para representar a Seleção Brasileira, a situação muda. Você passa a conviver com outros atletas e técnicos que não acompanham sua rotina diária e não conhecem sua trajetória de perto. Da mesma forma, você também ainda não os conhece profundamente.

Não se trata de dizer que os outros atletas ou membros da comissão técnica sejam ruins — pelo contrário, são excelentes profissionais. A dificuldade está na mudança de ambiente e de relacionamento. Você sai de um grupo com o qual já tem uma relação consolidada e passa a integrar outra equipe, ainda em fase de adaptação.

 

 

RDM Online: Como você se sente ao ter participado do Campeonato Mundial e, hoje, servir de inspiração para jovens atletas?

 

Gabriel Almeida: Eu me sinto muito grato. Ao mesmo tempo, estou sempre em busca de evolução. Meu objetivo é melhorar constantemente, para trazer mais visibilidade ao esporte e também me tornar uma referência para os alunos do projeto, para os alunos da escola e da academia, além de outros atletas de Mato Grosso.

O esporte é algo inspirador. Ele nos faz refletir até onde podemos chegar e o quanto podemos mudar por meio dele. No meu caso, muitos fatores da minha vida foram transformados pela arte marcial.

 

 

RDM Online: O que mudou na sua rotina e no seu dia a dia após essa conquista? Que exemplo você procura transmitir a partir da sua trajetória?

 

Gabriel Almeida: Acredito que muito do que acontece na minha vida está ligado ao foco em objetivos. Por exemplo, quando surgem problemas, eu procuro me concentrar nas soluções e manter a clareza para lidar com a situação.

Essa calma e disciplina, adquiridas no tatame, consigo aplicar em diversas situações do meu dia a dia, não apenas no esporte.  Toda a disciplina e a postura aprendidas com a arte marcial me ajudam a enfrentar problemas e a tomar decisões com clareza, mesmo em momentos de risco ou tensão.

 

 

RDM Online: Gabriel, após a participação no Mundial, quais são suas próximas metas? Você está focado no Campeonato Brasileiro ou pretende disputar outras competições internacionais? Como está o planejamento para 2026?

 

 

Gabriel Almeida: Neste ano, 2026, teremos novamente a seletiva da Seleção Brasileira, nos dias 7 e 8 de março. Meu primeiro objetivo é participar dessa seletiva e garantir minha vaga na Seleção Brasileira, porque, como todo ano, a equipe é renovada.

Além disso, já tenho outras competições programadas para este ano, como o Pan-Americano, que será na Argentina, e o Campeonato Brasileiro. Todas essas competições acumulam pontos, pois os atletas que vão para os Mundiais precisam estar entre os mais bem ranqueados. Para disputar o Mundial, é necessário estar entre os cinco primeiros do ranking, independentemente da categoria de peso.

Por exemplo, na categoria 75 kg, há mais de 100 atletas, e apenas os cinco melhores do ranking garantem a vaga no Mundial. Atualmente, estou em terceiro lugar no ranking da minha categoria.

Meu objetivo é participar de todas as competições nacionais e internacionais deste ano, acumulando pontos para poder disputar o Mundial de 2027, que será nas Filipinas. Por isso, minha preparação já começou, traçando todo o cronograma necessário para chegar bem e garantir minha posição entre os cinco melhores.

 

 

 

 

RDM Online: Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para quem está começando no kung fu e sonha em competir em nível mundial, como você?

 

Gabriel Almeida: O que eu posso dizer é que você deve sempre sonhar. Sonhar com o Mundial, por exemplo, é muito bom. Mas o mais importante é nunca desistir, independentemente das situações. A vitória só vem quando você, mesmo diante de derrotas, continua batalhando e se aperfeiçoando.

Na arte marcial, o foco e a disciplina trazem resultados concretos. Quando você se dedica, corrige erros, ajusta técnicas e aprende com cada falha, você melhora continuamente. Cada pequeno passo é um progresso, 1% a mais do que você era ontem. Por isso, a cada dia, a cada momento, é essencial se dedicar um pouco mais para alcançar seus objetivos e evoluir constantemente.

 

 

 

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