Autora lança obra sobre Mãe Bonifácia, Maria Taquara e Teresa de Benguela e fala sobre memória, identidade e o apagamento histórico.
A escritora e pesquisadora Cristina Soares acaba de lançar o livro Mulheres na História Africana em Mato Grosso, uma obra que ilumina trajetórias femininas silenciadas por séculos. Em entrevista exclusiva, ela explica como nasceu o projeto, os desafios para reunir registros dessas personagens e por que a valorização dessas histórias é essencial para fortalecer a identidade mato-grossense. Confira a entrevista completa e mergulhe no universo dessas mulheres que marcaram o estado.
RDM Online: Cristina, para contextualizar, gostaria que você começasse contando quem é Cristina Soares, a escritora. Pode falar um pouco sobre a sua trajetória e história pessoal?
Cristina Soares: Eu sou de Mirassol do Oeste, em Mato Grosso. Nasci em Mirassol e sou a caçula de cinco irmãos, filha de Águeda e Ramiro, que faleceu há quase 30 anos. Minha infância e parte da juventude foram vividas em Mirassol.
Minha graduação é em História, pela Unemat, e fiz mestrado aqui na UFMT. Atualmente, estou no doutorado. Além disso, sou ilustradora. É interessante como não dá para falar da ilustração sem mencionar o projeto Simbiose, que faz parte da minha trajetória artística. Sempre desenhei na vida, desde que me entendo por gente. Lembro que, ainda criança, desenhava com carvão nas paredes da minha casa de madeira, e antes disso, morei em uma casa de barro. Recentemente, fui a um Quilombo e vi a construção em adobe, e aquilo me trouxe muitas lembranças da infância.
A ilustração sempre esteve presente na minha vida, mas o projeto Simbiose me trouxe a segurança de afirmar que sou artista. Com Michele, estabeleci uma parceria artística: começamos a pintar telas e a expor nossos trabalhos.
Acho que sou um misto de coisas. É difícil definir exatamente quem sou, mas a arte e a ilustração sempre fizeram parte de mim.
RDM Online: Agora, falando sobre o lançamento do livro Mulheres na História Africana em Mato Grosso, o que motivou a senhora a escrever essa obra, que destaca figuras importantes como Mãe Bonifácia, Maria Taquara e Teresa de Benguela?
Cristina Soares: Esse livro é fruto de uma pesquisa muito intensa realizada durante o mestrado. Minha dissertação abordou três mulheres da história africana: Wangari Maathai, do Quênia; Sojourner Truth, dos Estados Unidos; e a rainha Nzinga Mbandi. Cada uma representa uma temporalidade distinta: rainha Nzinga no século XVIII, Sojourner Truth no século XIX e Wangari Maathai no século XX.
Durante a pesquisa, encontrei um material extraordinário da UNESCO sobre essas mulheres. O mestrado que fiz, o ProfHistória, funciona de maneira específica: além da dissertação, é obrigatório produzir um material pedagógico para uso em sala de aula. Meu orientador, Bruno Pinheiro Rodrigues, me incentivou a criar um material ilustrado, algo que não fazia parte dos meus planos iniciais.
A partir desse desafio, decidi elaborar um material sobre mulheres da história africana em Mato Grosso, seguindo a mesma lógica temporal da dissertação: séculos XVIII, XIX e XX.
No século XVIII, ao pesquisar figuras de Mato Grosso que dialogassem com a história da rainha Nzinga, cheguei a Teresa de Benguela. As duas têm trajetórias semelhantes: a rainha Nzinga governou Angola por 40 anos sem sofrer invasões portuguesas; Teresa de Benguela liderou o Quilombo do Quariterê também por quatro décadas — vinte anos ao lado de José Piolho e vinte anos após a morte dele. Durante esse período, o quilombo permaneceu protegido, sem que invasores conseguissem entrar, o que demonstra sua força e organização.
No caso de Wangari Maathai, apesar de ser do século XX, encontrei paralelos com Mãe Bonifácia, que viveu no século XIX. Wangari liderou no Quênia o movimento do Cinturão Verde, com profundo cuidado pela natureza. Esse cuidado se reflete em Mãe Bonifácia, que era uma mulher alforriada, benzedeira, ligada às plantas e aos saberes tradicionais. Além disso, era uma estrategista: produzia rendas que vendia para a elite cuiabana, tornando-se uma mulher de grande influência. O local que hoje conhecemos como Parque Mãe Bonifácia era um quilombo, e ela atuava ajudando pessoas escravizadas a escapar.
Por fim, a conexão entre Sojourner Truth e Maria Taquara surgiu pela luta que ambas travaram em contextos distintos. Sojourner Truth, nos Estados Unidos do século XIX, questionou publicamente as desigualdades entre mulheres negras e brancas ao perguntar: “Eu não sou uma mulher?”. Já Maria Taquara viveu em Cuiabá nas décadas de 1930 e 1940 e também enfrentou a ausência de direitos básicos, mantendo, contudo, firmeza e presença marcante na sociedade local.
A escolha dessas três mulheres mato-grossenses surgiu da necessidade de contar a história do estado a partir de figuras femininas fortes, cujas trajetórias foram invisibilizadas, mas que merecem ser conhecidas e reconhecidas.

RDM Online: Cristina, por que essas figuras históricas do nosso estado ainda são pouco conhecidas? O que é necessário para que elas sejam valorizadas como merecem?
Cristina Soares: As histórias precisam ser contadas. Por que essas histórias não são conhecidas? Porque houve um processo de apagamento histórico. Um apagamento que funciona da seguinte forma: se a história de alguém não é contada, essa pessoa não reconhece sua própria importância, seus descendentes também não reconhecem, e, sem esse conhecimento, falta a segurança necessária para enfrentar o sistema. Apagar a história dessas mulheres é perpetuar o racismo. Suas trajetórias foram invisibilizadas e silenciadas.
Por isso, considero que trazer essas narrativas é também um ato de letramento racial. Letramento racial significa apresentar aquilo que não foi contado ou foi contado de forma distorcida, devolvendo às populações silenciadas o direito à própria história.
A tradição oficial — seja estatal ou institucional — construiu narrativas que esconderam essas experiências. Houve um esforço sistemático de apagamento. Por isso, é fundamental reconstruir essas memórias e apresentá-las com a profundidade e o respeito que sempre mereceram.
RDM Online: Quais foram os principais desafios que a senhora enfrentou na busca pelos registros dessas personagens? Esse foi um dos maiores obstáculos?
Cristina Soares: É muito desafiador, porque, voltando à sua pergunta anterior, essa história foi apagada. Então, encontrar documentação foi um trabalho árduo. Fui encontrando depoimentos e alguns documentos. Um exemplo interessante é o caso de Teresa de Benguela, pois muito do que se fala sobre ela é de forma negativa. As análises de Vila Bela, por exemplo, a retratam de maneira muito ruim. E é curioso, porque a mesma coisa aconteceu com a Rainha Njinga, que também foi tratada como vilã, como uma mulher malvada. A documentação, portanto, é escassa e difícil de encontrar.
O desafio, porém, não foi só a pesquisa e a escrita, embora tenha sido difícil. O maior desafio foi a publicação. O livro estava pronto desde 2021, quando eu ainda o tinha em PDF. Foi no mestrado que o escrevi. Eu mesma fiz o arquivo no Google Docs e o espalhei para várias pessoas. Chegou até o Brasil, mas nunca consegui imprimir. Este ano, participei de um edital da SECEL, com o apoio da Marília Beatriz, e fui contemplada. Com o financiamento, pude finalmente imprimir o livro.
No entanto, a dificuldade principal está no apoio do poder público. A questão é: como fazer com que o poder público reconheça a importância de investir nesses materiais para as escolas? Um livro é muito caro, e eu não tenho coragem de chegar nas escolas e dizer a um estudante que o valor mínimo do livro é R$ 50. Quando fiz as primeiras impressões, o preço foi de R$ 60 por exemplar. Isso sem diagramação e outros custos. Se fosse impresso em A4, chegaria a R$ 100. Como justificar isso para as escolas?

RDM Online: O que mais surpreendeu a senhora durante a elaboração do livro? Houve alguma história marcante, que a senhora não conhecia antes da pesquisa sobre essas mulheres?
Cristina Soares: É impressionante a história dessas mulheres. Uma parte que aprecio especialmente é sobre Maria Taquara. Sou muito admiradora dela. Há uma curiosidade que considero fascinante: como Maria Taquara passou a usar calça. Ela foi a primeira mulher a usar calça e chegou a ser chamada de “hippie brasileira”.
No livro, há um trecho que menciona que Maria Taquara não utilizava roupa íntima e gostava de beber. Em certa ocasião, depois de beber bastante, chegou a um local onde havia muitas pessoas. Sentou-se no chão, tonta, e acabou deitando com as pernas para cima. Naquele momento, usava uma saia. Um vento levantou a saia e o público ficou escandalizado. “O que é isso? Atentado ao pudor! Chamem a polícia!”, diziam.
A polícia foi chamada. Quando os policiais chegaram e viram quem era, reagiram: “É a Maria Taquara!” Ela era muito conhecida e querida pelo povo. Decidiram que não iriam prendê-la, mas resolveram fazer algo diferente: deram a ela uma calça da própria corporação. Maria Taquara acordou, viu a calça e gostou do visual. A partir desse dia, passou a usar calça sempre.
Essa história revela uma mulher de personalidade marcante, que não se importava com julgamentos e seguia aquilo em que acreditava. Gostou da calça e decidiu usá-la. Foi uma atitude que desafiou o machismo, o controle sobre o corpo feminino e outras formas de opressão. Por isso, essa passagem é uma das minhas favoritas.

RDM Online: Como essas três personagens influenciaram a formação sociocultural de Mato Grosso?
Cristina Soares: Tiveram uma influência extremamente significativa. Teresa de Benguela, por exemplo, no século XVIII, liderou um quilombo organizado em forma de parlamento. Imagine uma mulher conduzindo uma estrutura política tão complexa naquele período. Ela foi, de fato, uma rainha. O Brasil teve uma rainha: Teresa de Benguela. Não é possível afirmar que o país nunca teve uma.
A presença dela mostra o quanto pode influenciar a formação política. No aspecto econômico, o Quilombo do Quariterê era autossustentável. Ali se fabricavam armas de ferro, havia comércio, trocas e um sistema de organização próprio. Essa estrutura revela uma força econômica e política conduzida por uma mulher.
Mãe Bonifácia e Maria Taquara também foram figuras marcantes do empreendedorismo feminino. Mãe Bonifácia produzia e vendia renda, plantava algodão, milho e outros produtos para comercialização. Maria Taquara lavava roupas profissionalmente, percorrendo as ruas de Cuiabá, batendo palmas e perguntando se havia roupas para lavar, carregando tudo na trouxa e garantindo seu sustento.

RDM Online: De que forma o livro pode contribuir para fortalecer a identidade e a representatividade da população do estado?
Cristina Soares: É exatamente isso. A população do nosso estado, não apenas a população negra, tem muito a ganhar com essa obra. Embora o livro trate de mulheres negras e fortaleça a identidade negra, ele também contribui para a compreensão da identidade mato-grossense como um todo. O conhecimento sobre aqueles que vieram antes de nós revela a força desse povo.
Quando Mato Grosso é mencionado fora do estado, em lugares como São Paulo, ainda existe um estigma. Muitas vezes, as pessoas comentam sobre os mato-grossenses como se fossem desprovidos de intelectualidade. No entanto, ao conhecer as mulheres que marcaram a história de Mato Grosso, torna-se evidente que somos descendentes de pessoas extremamente fortes e criativas.
O livro Mulheres na História Africana em Mato Grosso não se destina apenas às mulheres. Homens também têm muito a aprender com essas narrativas. É curioso perceber que, por vezes, alguém pergunta se a obra é exclusivamente para mulheres, como se homens não pudessem aprender com a trajetória feminina.
RDM Online: Cristina, a sua obra será utilizada nas escolas ou há projetos educativos previstos? Como está essa proposta no momento?
Cristina Soares: Como mencionei, obtive um edital, imprimi algumas cópias e todas se esgotaram. Das 500 unidades produzidas, metade foi doada. Foi uma edição bastante limitada.
O objetivo do lançamento foi justamente dar visibilidade ao trabalho, despertar o interesse do poder público e mostrar a relevância do material. A intenção é viabilizar novas impressões gratuitas para distribuição. Durante o mês de novembro, visitei inúmeras escolas e projetos sociais, totalmente de forma voluntária. Realizei apresentações, conversei com estudantes, apresentei o material e fiz conexões com as identidades das crianças, promovendo reflexões importantes.
No entanto, ao final de cada atividade, surgiu o problema central: como entregar o livro para as crianças se já não havia exemplares disponíveis? Por isso, o foco agora é desenvolver um projeto estruturado, com financiamento, que permita a impressão de uma grande quantidade de livros. A ideia é que o material chegue às escolas, aos projetos sociais e à população em geral, porque a linguagem é acessível e o conteúdo é voltado para todos.
RDM Online: A senhora pretende ampliar as pesquisas para outras figuras femininas do nosso estado?
Cristina Soares: Femininas, masculinas… há muitas possibilidades. Para 2026, já existe planejamento. Inclusive, venho conversando com várias pessoas sobre novos projetos. Em Cuiabá, participo de uma iniciativa chamada Rota da Ancestralidade, e dentro dela existe um ponto muito especial: a Rua das Pretas. O nome foi dado porque mulheres pretas caminharam, trabalharam e fizeram história naquele espaço.
Em uma das conversas, a jornalista Juliana Caju trouxe uma proposta linda: pesquisar quem foram essas mulheres e registrar seus nomes na escadaria do Beco Alto, valorizando suas histórias e memórias. Respondi que seria importante ampliar esse movimento e produzir mais obras ilustradas.
Para 2026, está em desenvolvimento um livro ilustrado em parceria com a pesquisadora Eni G. Lacerda — uma referência no ativismo negro, moradora do bairro Pedro 90 e dona de um trabalho artístico e intelectual extraordinário. A proposta é contar a história de G. Lacerda de forma visual, sensível e acessível, destacando sua contribuição e sua atuação tão significativa.
RDM Online: A senhora já comentou sobre a recepção do público e sobre o fim dos exemplares. Mas como foi o lançamento e qual o impacto percebido agora, um dia após o evento?
Cristina Soares: Ainda estou reverberando tudo, porque realmente foi incrível. Muitas pessoas participaram, e quero aproveitar para registrar meu agradecimento a todas que contribuíram para esse momento tão especial. O lançamento teve um caráter profundamente coletivo. Michele Diehl, por exemplo, esteve ao meu lado, ajudando em toda a organização e na correria dos preparativos.
A imprensa abraçou o projeto de uma forma emocionante. Gostaria de destacar isso com muita gratidão. Foi muito bonito ver o compromisso dos veículos de comunicação. De maneira geral, todos que contribuíram ajudaram a transformar um movimento de visibilidade. Mulheres que estavam há tanto tempo na invisibilidade agora ocupam um espaço iluminado. A imprensa representa justamente isso: visibilidade.

RDM Online: Para finalizar, qual mensagem a senhora gostaria de deixar para a população, de modo geral?
Cristina Soares: Não basta apenas não ser racista; é preciso ser antirracista. Isso exige postura, ação e compromisso. É possível transformar muita coisa quando existe união. O coletivo tem força.
A sociedade precisa se enxergar de forma plural, e não individualista. No isolamento, nada avança. Quando existe união, existe movimento, existe construção.
Também deixo uma mensagem importante para a população negra: houve muito sofrimento e muita divisão ao longo da história. Essa divisão enfraquece. Não devemos nos separar por ideologias ou diferenças internas. A união fortalece, cura e possibilita a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
É por esse caminho que podemos avançar. Unidos, fortalecidos e conscientes do nosso valor.
















