MATO GROSSO

Análise dos ruralistas

Em reunião paralela e sem participar dos encontros organizados pelo comitê de crise do governo, FPA alerta para impactos das tarifas de Trump e cobra “articulação urgente”

“A carne bovina brasileira, que hoje lidera as exportações para os Estados Unidos, pode perder espaço para concorrentes como a Austrália, que paga tarifa de apenas 10%”, falou o representante da ABPA.

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De acordo com o presidente da FPA, o deputado paranaense Pedro Lupion, os setores mais prejudicados no agronegócio são açúcar, celulose, cacau, café, etanol, carne bovina, ovos, suco de laranja e pescados.

 

Por Humberto Azevedo

 

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) que se reuniu na tarde desta terça-feira, 15 de julho, em encontro paralelo com representantes de entidades do setor produtivo, sem participar dos encontros organizados pelo comitê de crise do governo federal, alertou para impactos negativos das tarifas prometidas pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, e cobrou uma “articulação urgente” por parte da autoridades federais.

 

De acordo com o presidente da FPA, o deputado paranaense Pedro Lupion (PP), os setores mais prejudicados no agronegócio são açúcar, celulose, cacau, café, etanol, carne bovina, ovos, suco de laranja e pescados. Ele alertou para a “gravidade do cenário” e pediu uma “ação imediata” do governo federal, afirmando que não espera ser chamado e que nem procurará o governo.

 

Segundo Lupion, a FPA já atua em articulação com diplomatas, especialistas em comércio exterior e representantes das cadeias produtivas, tanto no Brasil quanto nos EUA. Lupion destacou que os efeitos das sanções não se limitam ao Brasil. O impacto pode ser significativo, especialmente para cadeias com forte dependência do mercado americano.

 

De acordo com análises de estudos apresentados por representante do setor, os impactos econômicos da nova tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros tendem a ser significativos e assimétricos entre os setores. O suco de laranja, por exemplo, terá seus custos adicionais quintuplicados, passando de R$ 555 milhões (US$ 100 milhões) para até R$ 2,77 bilhões (US$ 500 milhões) ao ano, justamente em um cenário de queda internacional de preços.

 

“Faltam apenas duas semanas para que as tarifas comecem a valer. O ideal seria que o governo se movimentasse com a mesma intensidade que temos adotado aqui no Congresso. Setores como celulose, açúcar, etanol, cacau, pescados, carne bovina, ovos, suco de laranja e café serão fortemente penalizados. E não apenas o Brasil sofrerá: a inflação nos Estados Unidos também tende a aumentar, já que esses produtos são essenciais e, em muitos casos, insubstituíveis no mercado internacional”, afirmou Lupion.

 

DIÁLOGO

 

Para o presidente da FPA, o momento exige atuação suprapartidária. Lupion informou que a FPA está estruturando um grupo técnico com especialistas em comércio internacional. Segundo ele, a atuação da bancada não depende de um convite formal por parte do Poder Executivo, ou mesmo como parlamentar desejar participar dos encontros realizados pelo governo

 

“Nosso papel é de articulação, negociação e diplomacia. Estamos trabalhando para garantir ao menos a prorrogação do prazo e criar um espaço de entendimento antes do dia 1º de agosto. Temos legitimidade e representatividade. A FPA é a maior frente parlamentar do Congresso Nacional e atua em cooperação com 59 entidades ligadas à agropecuária brasileira. Não vamos esperar o chamado de ninguém. Já estamos fazendo nossa parte, com pontes internacionais e articulação direta. Estivemos recentemente em Washington, na União Europeia, Argentina, Uruguai e Chile. Nossa presença global é real e ativa”, reforçou Lupion.

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CAFÉ

 

Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) indicam que, das 24 milhões de sacas consumidas nos EUA em 2023, 8,1 milhões foram exportadas pelo Brasil, que lidera o fornecimento da bebida ao país.

 

“O Brasil é o maior fornecedor de café para os Estados Unidos, que têm 76% da população consumidora. Um não vive sem o outro”, avaliou Marcos Matos, diretor do Cecafé.

 

CARNE

 

“É urgente que o Brasil peça oficialmente uma prorrogação de 90 dias para a entrada em vigor das tarifas”, pediu o representante do setor madeireiro. (Foto: Divulgação / FPA)

O setor de carnes também demonstrou preocupação com os impactos do pacote tarifário. Segundo Marcelo Osório, representante da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), os Estados Unidos são o segundo maior comprador da carne bovina brasileira, item fundamental na cadeia alimentar americana. Ele destacou ainda os impactos para outros segmentos da proteína animal. 

 

A carne bovina brasileira, que hoje lidera as exportações para os Estados Unidos, pode perder espaço para concorrentes como a Austrália, que paga tarifa de apenas 10%. No café, o Brasil, maior fornecedor do mercado americano, sofrerá com a disparidade tarifária frente a países como Vietnã (20%) e Etiópia (10%). O mesmo ocorre no etanol e no açúcar, setores em que o Brasil será o mais penalizado entre os principais exportadores globais.

 

“Esse setor será um dos mais afetados, e isso terá um efeito colateral fortíssimo. Se houver sobra de carne bovina no mercado interno, isso vai pressionar negativamente o consumo de aves e suínos. Na carne suína, por exemplo, cerca de 2% das exportações vão para os EUA, isso representa em torno de US$180 milhões por ano. Pode parecer pouco, mas é um volume relevante.” Já o setor de ovos é o mais vulnerável: ainda que represente menos de 1% das exportações brasileiras, os Estados Unidos são destino de mais de 60% desse total. “Considerando que o país ainda enfrenta os efeitos da gripe aviária, especialmente em estados produtores como a Geórgia, acreditamos que pode haver recuo dos americanos, para evitar que o ovo volte a custar até um dólar por unidade por lá”, explicou Marcelo Osório.

 

Os pescados também foram mencionados como setor sensível.

 

“Exportamos cerca de 1.300 toneladas de tilápia por mês para os EUA, o que gira em torno de 3 milhões de dólares. É uma cadeia que também merece atenção”, completou o representante da ABPA.

 

ETANOL

 

Lupion destacou que os efeitos das sanções não se limitam ao Brasil. O impacto pode ser significativo, especialmente para cadeias com forte dependência do mercado americano. (Foto: Divulgação / FPA)

Já o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), Guilherme Nolasco, alertou para os riscos de colapso no setor de biocombustíveis destacando ainda a ameaça de quebra de um setor estratégico. 

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“O etanol está na mesa de negociação com alta vulnerabilidade, principalmente porque os EUA têm uma matriz diferente da nossa. Enquanto lá o etanol e o açúcar são produzidos a partir de outras matérias-primas, no Brasil, três quartos da produção de etanol vêm da cana-de-açúcar, que pode ser convertida em açúcar caso seja necessário equilibrar o mercado”, frisou Nolasco.

 

“O etanol de milho é diferente. Trata-se de um setor que investiu R$ 40 bilhões nos últimos dez anos, gerando economia circular, empregos e desenvolvimento em regiões como o Nordeste, que tem a maior planta do setor. Uma invasão de etanol americano sem tarifa pode destruir um setor que levou quase meio século para se consolidar. Essa é a pauta número um dos americanos: a tarifa do etanol”, complementou o dirigente da UNEM.

 

SETOR MADEIREIRO

 

Representando o setor madeireiro, Guilherme Rank, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), pediu agilidade e planejamento por parte do governo federal.

 

“Temos três pontos fundamentais. Primeiro, é urgente que o Brasil peça oficialmente uma prorrogação de 90 dias para a entrada em vigor das tarifas. Segundo, precisamos de um plano emergencial para mercadorias já embarcadas, que estão em alto-mar e podem gerar perdas financeiras gigantescas ao chegarem aos EUA. Por fim, solicitamos, de forma unânime, que não se aplique a lei da reciprocidade antes de esgotarmos todas as possibilidades de negociação até 1º de agosto”, relatou Rank.

 

ESCALADA 

 

Vários parlamentares da FPA reforçaram a importância de uma resposta articulada e institucional diante da escalada tarifária. O deputado Alceu Moreira (MDB-RS) defendeu a construção de uma estratégia de comunicação clara.

 

“Defendemos o agro e agora temos propriedade para debater. Precisamos definir interlocutores e organizar uma estratégia para negociar com os EUA.”

 

Já o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) alertou para os riscos de retaliação. “O melhor caminho é negociar. Se o Brasil responder com reciprocidade, o setor produtivo pode sofrer ainda mais sanções”.

 

Para o deputado Domingos Sávio (PL-MG), o contexto internacional reflete a instabilidade política brasileira.

 

“Essa medida tem um componente político, reflexo da insatisfação dos EUA com o Executivo brasileiro e questões ligadas à liberdade de expressão. O Congresso pode contribuir ao trazer elementos específicos para o debate e melhorar o ambiente de negociação”, comentou o ex-tucano mineiro.

 

Já o deputado Eliéser Girão Monteiro Filho (PL-RN) fez críticas diretas à condução do governo federal e responsabiliza o presidente Lula pelas tarifas prometidas por Trump.

 

“Nossa economia piora a cada dia e ficamos reféns de situações delicadas criadas por decisões do Executivo. Já passou da hora de adotarmos uma postura firme para proteger os interesses do país”, disparou o parlamentar potiguar que é general da reserva.

 

Com informações de assessorias.

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