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SOBRETUDO

Via Mar inaugura uma nova disputa: agora Jorginho e João brigam pela autoria das entregas

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A troca de declarações entre o governador Jorginho Mello e o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, sobre a Via Mar pode parecer apenas mais um embate entre situação e oposição. Mas, olhando além das frases, talvez ela tenha marcado o início de uma nova fase da eleição de 2026. Até aqui, a disputa girava em torno de pesquisas, alianças partidárias, composição de chapas e projeções eleitorais. Agora, pela primeira vez, governo e oposição começam a disputar um tema que tradicionalmente pesa muito para o eleitor catarinense: a capacidade de transformar projetos em obras e promessas em entregas.

João ironizou o lançamento da Via Mar ao afirmar que “agora só falta lançar um foguete”, numa crítica ao grande volume de anúncios feitos pelo governo. A estratégia é compreensível. Toda oposição procura lançar dúvidas sobre a principal vitrine do adversário. A mensagem é simples: não basta anunciar, é preciso entregar. A intenção é fazer com que cada novo projeto apresentado pelo governo passe a ser observado pelo eleitor com uma pergunta inevitável: isso realmente vai sair do papel ou ficará apenas no discurso?

Politicamente, é uma linha de ataque inteligente. Mas, neste episódio específico, Jorginho Mello encontrou uma resposta ainda mais eficiente. Em vez de rebater a provocação com outra provocação, apresentou o edital de licitação da Via Mar, destacou que o projeto executivo já estava concluído e fez questão de estabelecer uma diferença entre um projeto em fase de contratação e um simples pré-projeto. A diferença parece pequena, mas na política ela pesa muito. Enquanto João apresentou uma crítica, Jorginho respondeu com um ato administrativo. E fatos costumam produzir mais efeito do que opiniões. Um documento oficial normalmente possui mais força política do que uma boa frase.

Isso não significa que João tenha errado. Na verdade, ele parece estar construindo uma narrativa para toda a campanha. Se conseguir convencer o eleitor de que o governo anuncia mais do que entrega, terá criado uma linha de ataque permanente para os próximos meses. O problema é que esse tipo de estratégia produz resultados apenas quando vem acompanhado de uma alternativa convincente. Criticar uma obra é relativamente simples. Convencer a população de que ela seria feita de forma mais rápida, mais eficiente ou mais barata é um desafio muito maior.

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É justamente nesse ponto que entra uma característica histórica do eleitor catarinense. Santa Catarina nunca foi um estado onde campanhas baseadas apenas no confronto costumaram produzir grandes vitórias. O eleitor, em geral, valoriza gestores, acompanha indicadores, observa resultados e costuma premiar quem transmite capacidade de execução. Não significa que rejeite críticas. Pelo contrário. Espera que a oposição fiscalize, cobre e questione. Mas também quer saber qual é a solução proposta, quais são os prazos, de onde virão os recursos e como aquele problema seria resolvido de maneira diferente.

Essa talvez seja a principal mudança revelada pelo episódio da Via Mar. A disputa começa a deixar o campo das alianças e das pesquisas para entrar no terreno da gestão. O governo tentará convencer que faz. A oposição tentará convencer que faria melhor. E essa diferença é importante. O eleitor tende a comparar resultados, não apenas discursos.

Mas se João assumiu o risco de ser visto apenas como alguém que critica, Jorginho também fez uma aposta de grande responsabilidade. Ao transformar a Via Mar na principal resposta ao ataque da oposição, elevou automaticamente o nível de cobrança sobre a própria obra. A partir de agora, cronogramas, licitações, início das obras, ritmo de execução e eventuais atrasos deixarão de ser apenas temas técnicos para se tornarem argumentos políticos. Em outras palavras, ao responder mostrando um edital, o governador também assinou um compromisso público com a execução da obra.

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É por isso que a Via Mar deixou de ser apenas um grande projeto de infraestrutura. Ela passou a representar a credibilidade dos dois discursos. Se avançar conforme o cronograma anunciado, fortalecerá a narrativa do governo de que entrega resultados concretos. Se enfrentar atrasos, paralisações ou mudanças significativas, oferecerá exatamente o combustível que a oposição procura para sustentar seu discurso de que existe mais marketing do que execução.

PONTO DE VISTA

Neste primeiro confronto, Jorginho Mello levou vantagem. Não porque tenha feito um discurso mais contundente, mas porque respondeu de forma diferente. Enquanto João Rodrigues apresentou uma provocação política para levantar dúvidas sobre os anúncios do governo, Jorginho respondeu com um ato administrativo concreto. Em política, ações costumam produzir mais efeito do que ironias e fatos normalmente possuem mais força do que narrativas.

Mas essa vantagem não é definitiva. Ela dependerá da capacidade do governo de transformar um edital em máquinas trabalhando e, depois, em uma obra entregue. Ao escolher a Via Mar como símbolo de sua gestão, Jorginho também aceitou que ela se torne um dos principais instrumentos de cobrança da oposição até 2026.

Se esse episódio indicar o rumo da campanha que está por vir, Santa Catarina poderá assistir a uma disputa mais qualificada do que as últimas eleições. Menos centrada em ataques pessoais e mais voltada à comparação entre projetos, cronogramas, obras e capacidade de gestão. Se isso acontecer, o maior vencedor não será Jorginho nem João Rodrigues.

Será o eleitor catarinense.

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