Durante anos, acreditou-se que vencer uma eleição significava dominar os grupos de WhatsApp. As campanhas investiram milhões em estratégias digitais, redes de apoiadores, disparos de mensagens e mobilização permanente. A nova pesquisa Genial/Quaest sugere que essa lógica começa a mudar. Pela primeira vez desde a popularização das campanhas digitais, o eleitor brasileiro dá sinais claros de fadiga política. Não quer mais viver a eleição 24 horas por dia. Quer escolher quando, como e de que forma será informado.
A pesquisa mostra que 87% dos brasileiros afirmam que não pretendem participar de grupos de WhatsApp sobre política durante a campanha eleitoral. Apenas 11% dizem que devem entrar nesses grupos e 2% ainda estão indecisos. O dado, por si só, representa uma mudança importante no comportamento do eleitorado.
Mas o levantamento revela algo ainda mais interessante.
Enquanto rejeita o ambiente de militância permanente, o eleitor demonstra interesse por informação de qualidade. 63% afirmam que pretendem acompanhar entrevistas dos candidatos, outros 63% querem conhecer propostas e planos de governo, e 60% dizem que acompanharão o noticiário político. Em contrapartida, 71% não pretendem participar de eventos de rua, 48% dizem que não acompanharão campanhas pelas redes sociais e 49% afirmam que não assistirão à propaganda eleitoral gratuita.
O que parece contraditório, na verdade, revela uma transformação profunda.
O eleitor não está abandonando a política. Está abandonando a militância.
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
A militância pressupõe participação ativa, compartilhamento constante de conteúdo, defesa pública de candidatos e envolvimento emocional permanente. A cidadania, por outro lado, pressupõe informação suficiente para tomar uma decisão consciente. A pesquisa indica que o brasileiro continua interessado na eleição, mas não deseja mais fazer da política parte da sua rotina diária.
Esse comportamento ajuda a explicar por que as campanhas digitais talvez precisem passar por uma das maiores transformações desde 2018.
Durante os últimos ciclos eleitorais, a estratégia predominante consistia em produzir o maior volume possível de conteúdo para ser replicado em grupos privados. Agora, a pesquisa sugere que esse espaço perdeu parte de sua atratividade. Se o eleitor não pretende entrar nesses grupos, o alcance espontâneo da militância tende a diminuir.
Ao mesmo tempo, cresce a importância dos ambientes em que o cidadão procura informação deliberadamente. Entrevistas, debates, propostas de governo e cobertura jornalística voltam a ocupar posição central na formação da opinião pública.
Isso não significa o fim das redes sociais.
Significa o fim da ilusão de que somente as redes sociais vencem eleições.
As campanhas provavelmente precisarão equilibrar mobilização digital com produção de conteúdo mais qualificado, capaz de responder às dúvidas de um eleitor que demonstra menos disposição para o confronto e maior interesse em compreender o que cada candidato pretende fazer.
Outro dado merece atenção.
A rejeição aos grupos de WhatsApp aparece em praticamente todos os segmentos ideológicos pesquisados. Entre independentes, chega a 91%; entre bolsonaristas, 84%; entre lulistas, 81%. Ou seja, o cansaço com a hiperpolitização parece atravessar praticamente todo o espectro político brasileiro.
Talvez estejamos assistindo ao início de uma nova fase da comunicação eleitoral.
Depois de anos marcados pelo excesso de mensagens, pela disputa permanente de narrativas e pela militância digital intensa, o eleitor parece dizer algo bastante simples às campanhas: menos barulho, mais conteúdo.
PONTO DE VISTA
A pesquisa da Quaest talvez não esteja falando apenas sobre WhatsApp. Ela pode estar sinalizando o esgotamento de um modelo de campanha baseado na mobilização permanente. O eleitor continua interessado em política, mas quer consumir informação quando julgar necessário, e não viver imerso nela. Isso muda a forma de fazer campanha, de comunicar e até de governar. Quem entender essa mudança antes dos adversários pode conquistar uma vantagem que nenhuma corrente de WhatsApp será capaz de produzir.
A PERGUNTA QUE FICA
Se o eleitor está dizendo que quer menos militância e mais informação, as campanhas terão coragem de abandonar a lógica do engajamento permanente para voltar a disputar votos pela qualidade das ideias e das propostas?





















