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Por trás das estratégias de Kassab

TERÇA DE REPORTAGEM | OS BASTIDORES DA ESCOLHA DO PSD POR CAIADO

PSD aposta no nome do governador de Goiás para romper a polarização, mas bastidores já falam em “cristianização”. (Foto: Reprodução / Youtube)

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PSD anuncia Caiado como pré-candidato ao Planalto, mas bastidores expõem divisão e risco de “cristianização”

 

Partido de Kassab tenta conciliar aposta própria com negociações paralelas com o PT; eventual aliança regional ou até mesmo nacional pode esvaziar a pré‑campanha do ex‑governador de Goiás.

 

Por Humberto Azevedo

 

Em coletiva de imprensa realizada no final da tarde desta última segunda-feira, 30 de março, em São Paulo, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, confirmou o nome do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como pré‑candidato do partido à Presidência da República.

 

A escolha, que colocou fim a uma disputa interna entre três governadores bem avaliados, foi anunciada como “privilégio” pela legenda. Nos bastidores, porém, a decisão acirrou divisões: parte da sigla já articula apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026, enquanto outra ala se aproxima do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré‑candidato da oposição.

 

Caiado, que encerrou nesta terça-feira, 31 de março, o seu segundo mandato como governador – cargo ao qual já renunciou dando lugar ao seu vice, Leandro Vilela (MDB), tentou construir um discurso de “terceira via” e prometeu, como primeiro ato, uma anistia “ampla, geral e restrita”, inclusive ao ex‑presidente Jair Messias Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a mais de 27 anos de prisão como líder da “organização criminosa” que atentou contra o Estado Democrático de Direito e tentou um golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023.

 

“A polarização não é um traço da política nacional; é sustentada por um projeto político. Pode ser desativada por alguém que não é parte dela. (…) Ganhar, ganhar não é a maior dificuldade, vamos ganhar. Agora, saber governar ou querer aprender a governar na cadeira, é diferente. (…) Ao anistiar todos, inclusive o ex‑presidente, estarei dando a amostra de que vou cuidar das pessoas”, afirmou Caiado – que em 1989, na primeira eleição direta após a redemocratização, já concorreu à Presidência da República por outro PSD, atual PRD.

 

OS BASTIDORES DA ESCOLHA

 

Caiado recebeu a missão de representar o PSD na corrida presidencial. O desafio agora é transformar a pré-candidatura em candidatura viável. (Foto: Reprodução / Youtube)

Segundo relatos de dirigentes do PSD, Kassab conduziu pessoalmente o processo que avaliou também os governadores do Paraná, Ratinho Júnior; e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. A decisão, tomada “no avançado da noite” de domingo, 29, foi comunicada a Caiado que não participou do processo decisório.

 

Apesar da tentativa de demonstrar unidade, a legenda segue fragmentada. Parlamentares da ala mais à esquerda e, sobretudo, da região Nordeste e alguns estados do Norte, Sudeste e Centro-Oeste, já sinalizam que podem migrar para a base de Lula, enquanto parte dos prefeitos e deputados do Sul defendem apoio aberto ao pré-candidato do PL.

 

A divisão expõe a estratégia de Kassab de manter o PSD como um partido de “portas giratórias”, capaz de conversar com diferentes polos. Caiado, que fez questão de exaltá-lo como o “maior estrategista político do país”, terá agora de enfrentar uma corrida contra o relógio para consolidar apoios e impedir que sua própria legenda o abandone ainda no primeiro tempo da campanha.

 

“O PSD não foi um partido neutro. Teve a coragem de colocar três governadores na discussão e dizer: siga, terá o apoio da estrutura nacional. (…) Se eu vim para o PSD, foi porque tive a palavra de que teríamos um candidato”, destacou Caiado com esperança que não será rifado e nem “cristianizado”.

 

O RISCO DA “CRISTIANIZAÇÃO”

 

Kassab escolheu Caiado entre três governadores, mas o PSD mantém conversas paralelas com PT e PL para composição regional. (Foto: Reprodução / Youtube)

O movimento do PSD reacende no meio político um temor clássico: o de que a pré‑candidatura de Caiado sofra o mesmo destino do mineiro Cristiano Machado, que em 1950 foi oficializado pelo PSD da época e acabou abandonado por seus próprios correligionários, que migraram em maior peso para a eleição de Getúlio Vargas (PTB) ou para o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN).

 

A expressão “cristianização” volta a ser usada nos bastidores para descrever o risco de um candidato lançado com pompa, mas que, diante das oscilações das pesquisas, vê seu partido esvaziar a chapa.

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Caiado reconheceu indiretamente o perigo ao comentar que “nós não entramos no jogo ainda”. Com pesquisas ainda não consolidadas e uma estrutura partidária que mantém conversas com os dois pólos, o ex‑governador goiano terá de provar nos próximos meses que sua candidatura não será apenas uma peça de um tabuleiro em que o PSD pode, no fim, escolher um lado, ou ainda abandonar a ideia de uma candidatura própria para privilegiar as alianças estaduais.

 

“Esta eleição ainda não tem um fator definidor porque nós não entramos no jogo ainda. (…) O partido não é abstrato, não é dieta de cardíaco. Eu estou pronto para jogar; vesti a camisa 55”, completou Caiado.

 

CANDIDATURA FRÁGIL NAS PESQUISAS?

 

Em coletiva, o ex-governador goiano prometeu anistia e pacificação. Agora precisa mostrar que não será um candidato abandonado pela própria legenda. (Foto: Reprodução / Youtube)

Dirigentes do PSD ouvidos reservadamente admitem que a oficialização da pré‑candidatura de Caiado não garante, automaticamente, que seu nome estará na urna em outubro de 2026. O estatuto da legenda permite que a Executiva Nacional revise a indicação caso as alianças futuras ou os índices de intenção de voto não evoluam.

 

A estratégia de Kassab sempre foi a de manter o partido como protagonista de uma “terceira via” que, na prática, serve como moeda de troca para acordos regionais e nacionais.

 

Nos bastidores, já se especula que o destino da pré‑candidatura de Caiado estará atrelado ao desempenho nas pesquisas até meados de 2026. Se o nome não decolar, o discurso da “independência” poderá dar lugar a um reposicionamento pragmático – incluindo a possibilidade de o PSD apoiar uma das duas principais forças em um eventual segundo turno.

 

“Ganhar do PT é fácil no segundo turno, repito. Agora, vai governar? Vai construir um Brasil capaz de o PT não ser mais opção no país? (…) A experiência tem um peso muito grande. Não cabe improvisação neste momento”, disse Caiado a certa altura da coletiva.

 

KASSAB COTADO PARA VICE DE HADDAD EM SP

 

PSD lança candidato próprio, mas o presidente do partido, Kassab, negocia alianças com o PT em São Paulo. (Foto: Reprodução / Youtube)

Em São Paulo, a movimentação de Kassab adiciona mais um elemento de tensão. O presidente nacional do PSD negocia nos bastidores a possibilidade de ser candidato a vice‑governador na chapa de Fernando Haddad (PT) – uma resposta direta à desfiliação de Felício Ramuth, que trocou o PSD pelo MDB para continuar como vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos).

 

Uma eventual chapa Haddad‑Kassab seria um aceno explícito ao PT, abrindo caminho para uma aliança nacional entre as duas siglas. O movimento, em fase de negociação, é visto por dirigentes petistas como parte de um acordo mais amplo: o PT apoiaria Kassab para compor a chapa ao governo paulista, e em troca o PSD poderia liberar suas bancadas no Congresso para uma aliança formal à reeleição do presidente Lula em 2026 – o que, na prática, inviabilizaria a candidatura própria de Caiado.

 

“Se Kassab for para a chapa do Haddad, o Caiado fica sem o principal articulador da própria candidatura. É o risco real de cristianização”, disse uma fonte reservada do PSD, não presente na coletiva que anunciou a pré-candidatura do goiano à Presidência da República. 

 

NEGOCIAÇÕES COM O PT E O FUTURO DE ALCKMIN

 

O PSD oficializou Ronaldo Caiado, mas o partido mantém o pé em duas canoas: conversa com o PT para 2026 e já ensaia apoio a Flávio Bolsonaro em alas internas. (Foto: Reprodução / Youtube)

Paralelamente, o PSD e o PT avançam em conversas que podem remodelar a aliança presidencial. Uma das apostas mais comentadas nos bastidores é a migração do vice‑presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), para o PSD.

 

Alckmin, que já foi filiado ao partido de Kassab antes de ir para o PSB, poderia retornar para compor uma chapa de reeleição com Lula, agora sob a legenda pessedista. Nesta terça, Lula já anunciou que seu vice para às eleições de outubro continuará sendo Alckmin.

 

Caso esse movimento se confirme, a aliança PT‑PSD ganharia uma consolidação robusta institucional que contrastaria com a aposta isolada em Caiado. Para muitos pessedistas, essa seria a saída que permitiria a Kassab “ter o melhor dos dois mundos”: manter o PSD na base do governo federal, com cargos e influência, e ao mesmo tempo apresentar a candidatura de Caiado como uma espécie de “ala independente” que, na prática, não chegaria a concorrer.

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“A prioridade é construir a reeleição de Lula. Se o PSD quiser vir conosco, terá espaço. A candidatura própria do Caiado pode ser um ativo de negociação, mas não um obstáculo”, comentou um dirigente do PT reservadamente à reportagem do Grupo RDM. 

 

A RESPOSTA A RAMUTH

 

A estratégia de Kassab lança Caiado para presidente, negocia vice com Haddad em SP e mantém diálogo com o Planalto. No tabuleiro do PSD, cada peça tem um movimento. (Foto: Reprodução / Youtube)

Se consolidada, a eventual chapa Haddad‑Kassab também é interpretada como uma retaliação política à saída de Ramuth do partido. O vice de Tarcísio deixou o PSD após intensas negociações e levou consigo uma parcela da estrutura do partido no interior paulista.

 

Kassab, conhecido por seu perfil estratégico e pragmático, vê na aliança com o PT uma forma de manter o PSD competitivo no maior colégio eleitoral do país e, ao mesmo tempo, responder à migração de Ramuth para o MDB. Além de que Kassab sonha a tempos em comandar o Palácio dos Bandeirantes. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro teria vetado seu nome para compor a chapa de Tarcísio. Este mesmo veto teria se repetido agora em 2026.

 

Caso a aliança com o PT se concretize, Kassab estaria colocando na mesa de negociação que o mandato de Haddad, caso ganhe, seria de quatro anos, com ele herdando o poder no estado mais rico do país, em 2030, para tentar sua reeleição no cargo.

 

Nos bastidores, a mensagem é clara: o PSD não será apenas uma legenda de passagem. Ao fechar com Haddad, Kassab garante protagonismo em São Paulo e amplia seu capital de negociação para o plano nacional – ainda que isso signifique, no limite, deixar Caiado sem o apoio efetivo da própria cúpula.

 

CAIADO TENTA ISOLAR A POLARIZAÇÃO

 

Para alguns bolsonaristas ouvidos pela reportagem, a avaliação é que Caiado pode ser considerado um “azarão” e dificilmente conseguirá superar o cenário polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro. (Foto: Zanone Fraissat / Folhapress)

Diante desse cenário movediço, o ex‑governador de Goiás busca firmar seu discurso na gestão e na pacificação. Ele repetiu durante a coletiva os números que lhe garantem 88% de aprovação em Goiás e tentou descolar sua imagem tanto do bolsonarismo quanto do petismo.

 

A aposta de Caiado é a de que o cansaço da polarização abrirá espaço para um nome com experiência administrativa e discurso de resultados. Mas os movimentos no próprio partido indicam que sua pré‑candidatura pode ser mais um capítulo na tradicional dança de alianças do PSD do que o início de uma nova força presidencial.

 

A oficialização de Ronaldo Caiado como pré‑candidato do PSD ao Planalto escancarou, na prática, a complexa equação que Gilberto Kassab tenta resolver como manter o partido como protagonista e negociar com os dois pólos nacionais. Enquanto Caiado discursa sobre romper a polarização, os bastidores já desenham os cenários em que sua candidatura pode ser a primeira vítima da estratégia múltipla do partido.

 

Nas próximas semanas, o desempenho do ex‑governador nas pesquisas, os desdobramentos das negociações com o PT em São Paulo e a eventual migração de Alckmin poderão definir se o anúncio desta última segunda‑feira, 30, foi o pontapé de uma candidatura competitiva ou apenas mais um movimento no jogo de xadrez que o PSD conduz desde que foi fundado em 2011.

 

“Eu sou o mais antigo e longevo adversário do PT”, afirmou Caiado, que ao mesmo tempo defendeu a anistia a Jair Messias Bolsonaro ao qual pesquisas apontam que mais de 70% da população se diz contra.

 

“O partido não é neutro. Não é abstrato. É aquele que não quer colocar o time para jogar? Eu estou pronto para jogar. (…) A política se faz com coragem, mas também com lealdade. O tempo dirá”, finalizou Caiado ao ser questionado sobre risco de a legenda abandoná‑lo.

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