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ENTREVISTA DA SEMANA |

MT no centro do debate energético: Desafios, investimentos e oportunidades no setor elétrico

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Mato Grosso entra de vez no radar das discussões nacionais sobre energia. Com potencial de crescimento e desafios estruturais ainda evidentes, o estado será palco de um dos principais encontros do setor. Em entrevista ao RDM Online, o presidente do Sindenergia, Carlos Garcia, fala sobre o cenário atual, as mudanças trazidas pela Lei 15.269/2025 — novo marco legal do setor elétrico brasileiro —, as novas oportunidades e a importância do 14º Encontro da Indústria do Setor Elétrico, que acontece nos dias 12 e 13 de maio, em Cuiabá. A legislação, sancionada em novembro de 2025, acelera a abertura do Mercado Livre de Energia, permitindo que consumidores residenciais e pequenos negócios possam migrar entre 2027 e 2028, além de regulamentar o uso de sistemas de armazenamento, como baterias.

Confira a entrevista:

 

RDM Online: O encontro deste ano reúne especialistas, investidores e representantes de toda a cadeia do setor elétrico. Qual é a proposta central do evento e o que deve marcar essa 14ª edição?
Carlos Garcia: O evento tem como tema “Mato Grosso: o centro energético do Brasil”. A proposta é justamente chamar a atenção da sociedade e das autoridades para o papel estratégico do estado. Mato Grosso tem uma posição privilegiada e um potencial enorme de geração de energia, tanto pelo que já produz quanto pelo que ainda pode produzir. Queremos mostrar que o estado pode contribuir diretamente para a segurança energética do país, mas ainda não é reconhecido ou recompensado à altura dessa importância.

RDM Online: Quando falamos em segurança energética, quais são hoje os principais desafios para garantir fornecimento com qualidade e confiabilidade no estado?
Carlos Garcia: Hoje, o maior desafio não é a falta de energia, mas sim a qualidade do fornecimento, principalmente no interior. A energia precisa chegar com estabilidade e confiabilidade. Para isso, são necessários investimentos elevados, e o problema é que esses custos acabam sendo repassados à tarifa, que já é alta. Estamos falando de uma necessidade de mais de R$ 10 bilhões em investimentos, sem uma solução simples no curto prazo.

RDM Online: Diante desse cenário, que alternativas estão sendo discutidas para viabilizar esses investimentos sem penalizar ainda mais o consumidor?
Carlos Garcia: O caminho passa, principalmente, por ajustes regulatórios da lei 15.269/2025. Há discussões no Congresso e junto ao Governo Federal para ampliar a participação da União nesses investimentos. Também existem articulações para fortalecer a rede básica de transmissão, que é essencial para melhorar a qualidade do fornecimento em todo o estado.

RDM Online: O evento também vai abordar o papel dos biocombustíveis, do biogás e do biometano. Qual é o potencial de Mato Grosso nesse contexto?
Carlos Garcia: Mato Grosso tem um potencial enorme nessas áreas. Nós defendemos que todas as fontes de energia são complementares. Não é possível depender apenas da energia elétrica. A eletrificação total, por exemplo, não é viável no curto prazo por causa das limitações da infraestrutura. Por isso, é importante aproveitar as vocações regionais, como a produção de biometano e o uso de resíduos para geração de energia.

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RDM Online: Essa ideia de aproveitar vocações regionais passa por um planejamento mais estratégico do setor?
Carlos Garcia: Exatamente. O que defendemos é a construção de um planejamento energético regionalizado para Mato Grosso. O estado é muito diverso, com regiões que têm características e potenciais completamente diferentes. Em algumas áreas, há vocação para biomassa, biogás ou biometano; em outras, a energia solar ou pequenas centrais hidrelétricas podem ser mais viáveis. Quando você organiza esse planejamento de forma estratégica, consegue direcionar melhor os investimentos, aproveitar os recursos locais e reduzir a necessidade de grandes obras de infraestrutura elétrica, que são caras e demoradas. Isso traz mais eficiência para o sistema como um todo.

RDM Online: A expansão da rede de transmissão é apontada como um dos gargalos. O que precisa avançar com mais urgência?
Carlos Garcia: Hoje, Mato Grosso já enfrenta limitações importantes na sua rede de transmissão, principalmente na chamada rede básica, que envolve linhas de alta tensão. Esses gargalos acabam comprometendo tanto a qualidade do fornecimento quanto a capacidade de expansão do setor. Existem estudos em andamento, conduzidos por órgãos de planejamento, para a implantação de novas linhas no estado. Esses projetos são fundamentais porque vão aliviar a sobrecarga do sistema, melhorar a estabilidade da energia e permitir que Mato Grosso escoe melhor a energia que já produz e a que ainda pode gerar.

RDM Online: O novo marco regulatório do setor elétrico também será tema do encontro. Quais impactos práticos essa mudança traz?
Carlos Garcia: Essa nova legislação representa uma reforma importante no setor elétrico brasileiro. Um dos principais pontos é a correção de distorções históricas, especialmente na forma como os custos e encargos eram distribuídos. Antes, os consumidores do mercado cativo, geralmente os menores, acabavam arcando com uma parcela maior desses custos. Agora, há uma distribuição mais equilibrada. Além disso, a nova lei abre espaço para novas oportunidades de investimento, como a contratação de energia na região Centro-Oeste, o que pode beneficiar diretamente estados como Mato Grosso.

RDM Online: O crescimento do agronegócio e da indústria pressiona ainda mais o sistema elétrico. Como o setor deve se preparar?
Carlos Garcia: Esse crescimento exige uma mudança de postura. O consumidor, especialmente o industrial, precisa assumir um papel mais ativo dentro do sistema elétrico. A infraestrutura disponível hoje não consegue atender plenamente todas as demandas, principalmente de setores que exigem um nível maior de qualidade e estabilidade no fornecimento. Por isso, muitas empresas já precisam investir em soluções próprias, seja para garantir continuidade operacional, seja para aumentar a eficiência energética. É um novo momento em que a gestão de energia passa a ser estratégica para a competitividade.

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RDM Online: Nesse contexto, tecnologias como armazenamento de energia ganham importância?
Carlos Garcia: Sem dúvida. O armazenamento é uma das soluções mais relevantes hoje. Ele permite que o consumidor gerencie melhor o uso da energia, armazenando em momentos de menor custo e utilizando nos períodos mais caros. Isso reduz despesas, melhora a eficiência e ainda aumenta a segurança operacional, evitando impactos em caso de oscilações no fornecimento. É uma tecnologia que vem se tornando mais acessível e deve ganhar cada vez mais espaço.

RDM Online: E a energia solar, como o senhor avalia o avanço desse segmento em Mato Grosso?
Carlos Garcia: A energia solar tem um papel fundamental e eu sou totalmente favorável à sua expansão. É uma fonte limpa, renovável e democrática, que permite ao próprio consumidor produzir sua energia. O crescimento tem sido consistente em Mato Grosso, impulsionado pela busca por economia e sustentabilidade. Ainda existem desafios, principalmente relacionados ao custo do financiamento, mas, mesmo assim, os projetos continuam sendo viáveis, especialmente no médio e longo prazo.

RDM Online: A combinação entre energia solar e armazenamento pode ser um caminho?
Carlos Garcia: Sem dúvida, essa combinação é uma das mais promissoras. Quando você une geração própria com armazenamento, consegue ter muito mais controle sobre o consumo, reduzir custos e garantir maior previsibilidade. Para empresas, especialmente, isso representa ganho de eficiência e segurança. É uma tendência clara no setor e deve se expandir nos próximos anos.

RDM Online: O debate sobre mobilidade e cidades inteligentes também entra na pauta. Como o senhor vê esse futuro?
Carlos Garcia: Esse é um debate estratégico. Mato Grosso precisa definir qual caminho quer seguir na sua transição energética. Podemos avançar na eletrificação, no uso de biocombustíveis ou em um modelo híbrido. Cada alternativa tem vantagens e desafios. O mais importante é que essas decisões sejam tomadas com base em planejamento de longo prazo, considerando a realidade do estado e sua capacidade de investimento.

RDM Online: Os veículos elétricos devem ganhar espaço rapidamente?
Carlos Garcia: A tendência é de crescimento, impulsionada principalmente pela instabilidade dos combustíveis e pela busca por alternativas mais sustentáveis. No entanto, é preciso cautela. O sistema elétrico brasileiro, e especialmente o de Mato Grosso, ainda não está totalmente preparado para uma expansão acelerada da eletrificação. Isso exige planejamento e novos investimentos em infraestrutura para evitar problemas no futuro.

RDM Online: Para encerrar, qual é a expectativa para o evento em termos de negócios e conexões?
Carlos Garcia: O evento já se consolidou como uma importante plataforma de networking e geração de negócios. A expectativa é reunir todos os elos da cadeia produtiva, desde quem oferece soluções até quem demanda energia, como a indústria e o agronegócio. Esse ambiente favorece a troca de experiências, a construção de parcerias e a realização de negócios, contribuindo diretamente para o fortalecimento do setor energético em Mato Grosso.

Foto: Tchelo Figueiredo

 

Foto: Tchelo Figueiredo

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