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A eleição por um detalhe

ENTREVISTA DA SEMANA | ROMERO JUCÁ

O ex-senador Romero Jucá durante seu último mandato no Congresso Nacional. Em entrevista exclusiva ao Grupo RDM, o parlamentar analisou o atual cenário de empate técnico na sucessão presidencial de 2026. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

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“A eleição está empatada”, avalia ex-líder dos governos FHC, Lula, Dilma e Temer

 

Em entrevista exclusiva ao Grupo RDM, o ex-senador Romero Jucá (MDB) analisa o cenário político para 2026, a polarização nacional, os rumos do MDB e os bastidores da sucessão em Roraima.

 

Por Humberto Azevedo

 

O ex-senador de Roraima, Romero Jucá (MDB), avaliou que o quadro político nacional para as eleições de 2026 está indefinido e caminha para um novo desfecho nos “detalhes”. Em entrevista exclusiva ao Grupo RDM, durante um coquetel para a abertura dos trabalhos da Frente Parlamentar Mista do Ambiente de Negócios (FPN) na noite da última terça-feira, 10 de fevereiro, o emedebista declarou que a atual gestão do presidente Lula (PT) vive um cenário de empate técnico na opinião pública, o que torna o pleito uma disputa de alta imprevisibilidade.

 

Jucá ressaltou que, embora Lula leve “um pouco de vantagem” devido a erros de segmentos da direita, a divisão da sociedade continua sendo o fator determinante. “A eleição de quatro anos atrás foi definida num detalhe. Foram um milhão e oitocentos mil votos, que não é nada para o eleitorado do Brasil”, comentou.

 

“O presidente Lula leva um pouco de vantagem com toda a postura que alguns segmentos da direita fizeram, mas a eleição está empatada. Tanto é que a avaliação do presidente Lula é metade sim, metade não. (…) Quem tem metade sim, metade não, ganha ou perde a eleição num detalhe. A gente espera muita disputa, candidaturas que podem ainda vir a ser apresentadas, vingarem ou não. É um quadro bastante complexo”, observou.

 

BOLSONARISMO NO SENADO

 

Questionado sobre o avanço do bolsonarismo e a disputa pelas 54 vagas no Senado em 2026, Jucá ponderou que a direita já possui um contingente expressivo na Casa, mas evitou cravar uma maioria absoluta. Para ele, o resultado dependerá diretamente da polarização nacional e da unificação, ou não, das candidaturas de oposição.

 

O ex-senador alertou que a divisão entre “bolsonarismo” e “direita tradicional” pode se diluir caso haja um único representante do campo conservador na corrida presidencial. “Se só existir um candidato da direita e for o Flávio Bolsonaro, isso turbina o bolsonarismo na questão do embate na eleição nacional e, consequentemente, na eleição do Senado”, explicou.

 

“Não dá para dividir bolsonarismo e a direita, porque, na verdade, se existirem vários candidatos de direita, é tudo a mesma coisa. Aí essa polarização se quebra um pouco. Mas se só existir um candidato, isso turbina o bolsonarismo. (…) A nível de Senado, é possível que a gente caminhe para ter pelo menos um equilíbrio de forças muito grande, sendo as votações definidas em um detalhe”, complementou.

 

O PAPEL DO MDB

 

Em sua passagem pelo Senado, Jucá construiu uma trajetória de protagonismo. Sobre geopolítica, defendeu que o Brasil mantenha a tradição de “se dar bem com todo mundo” em cenário internacional volátil. (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)

Sobre o posicionamento do MDB na sucessão presidencial, Romero Jucá defendeu que o partido adote, por enquanto, uma postura de independência. Para ele, a sigla deve evitar comprometimentos nacionais precoces para preservar sua capilaridade regional, que varia entre eleitorados de direita nas regiões Centro-Oeste e Sul e de esquerda no Nordeste, e com clara divisão no Norte e no Sudeste.

 

O ex-senador sugeriu que a legenda deve manter-se “liberada” para que seus caciques estaduais façam as alianças mais adequadas a cada realidade. “Não há nitidez política hoje para a gente definir e cravar o posicionamento de uma coligação nacional para o MDB”, palpita.

 

“O melhor caminho para o MDB é não ter um comprometimento direto com qualquer candidatura. Ficar liberado para que o Sul e o Centro-Oeste, que são mais à direita, possam eleger seus parlamentares; o Nordeste, que é mais à esquerda, possa fazer o mesmo. (…) O MDB é um partido plural de muitas lideranças nacionais distribuídas regionalmente”, completou.

 

O BRASIL NO MUNDO

 

Conhecedor profundo dos bastidores do Congresso, Jucá alertou que a disputa pelo Senado, em 2026, será decidida “nos detalhes” e depende da unificação da candidatura de direita. (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Para Romero Jucá, o cenário geopolítico internacional passa por profundas mutações impulsionadas pelo estilo do presidente norte-americano, Donald Trump, que tende a “atropelar as coisas” e colocar em xeque o multilateralismo. O ex-senador avalia que, nesse contexto de hegemonia das grandes potências econômicas e militares, o Brasil precisa se posicionar estrategicamente para preservar seus interesses.

 

Jucá destacou que o presidente Lula conseguiu estabelecer uma relação produtiva com Trump em seu primeiro mandato, o que beneficiou o país, e vê com bons olhos a assinatura do acordo Mercosul com a União Europeia após 27 anos de negociações. No entanto, alertou que o bloco sul-americano precisa ser fortalecido e a relação com os vizinhos da região deve entrar em “outra sintonia de relacionamento político-econômico mais efetivo”.

 

“O presidente Lula conseguiu uma relação com o Trump, que terminou beneficiando o país. Esse acordo com o Mercosul é um acordo importante. De outro lado, outras questões precisam ser colocadas. (…) O Mercosul precisa ser fortalecido. A relação do Brasil com os países do Mercosul, com os países da América do Sul, precisa entrar em outra sintonia de relacionamento político-econômico mais efetivo”, avaliou.

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Mas o ex-senador reconhece que o Brasil enfrenta desafios internacionais significativos, mas manifestou confiança na capacidade histórica do país de navegar por cenários adversos. Para ele, a tradição diplomática brasileira de manter boas relações com todos os blocos e nações continua sendo um ativo fundamental.

 

SITUAÇÃO EM RORAIMA

 

Na entrevista, abaixo, Jucá também abordou os desdobramentos políticos em Roraima, onde seu grupo faz oposição ao governador Antonio Denarium (PP). O ex-senador demonstrou confiança na cassação do atual chefe do Executivo estadual pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que abriria caminho para a candidatura da prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (MDB), ao governo nas eleições do final do ano.

 

Por fim, ao ser questionado sobre um possível retorno às urnas, Jucá desconversou e citou a necessidade de equilibrar a vida pública e pessoal. “Eu estou avaliando com bastante carinho para verificar o conflito entre vida pessoal e vida pública, para ver junto com a família o que nós vamos decidir”, disse, revelando que, mesmo sem mandato, segue atuante nos bastidores por meio de consultoria política e econômica, que vem prestando a consultoria governamental “Blue Solution”.

 

“A nossa expectativa é que a presidente do TSE, Carmen Lúcia, volte para votar e que o governador [Denarium] seja cassado. O governador sendo cassado, o MDB terá uma candidata ao governo, que é a ex-prefeita Teresa Surita (…) Eu não tenho mandato, eu não voto, mas a gente debate bastante, a gente tem amigos, a gente acompanha essas questões todas no Congresso Nacional e no governo federal. Portanto, eu estou um pouco dentro, mas temos que avaliar se os dois pés vão para dentro ou se fico do jeito que estou”, finalizou.

 

Segue abaixo a íntegra da entrevista exclusiva que o ex-senador concedeu a reportagem do Grupo RDM.

 

RDM: Senador Romero Jucá, como o Sr. está vendo o quadro conjuntural da política brasileira desde 2016 para cá? Como o Sr. avalia?

Romero Jucá defendeu que o MDB mantenha independência na corrida presidencial para preservar sua força regional. (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Romero Jucá: Na verdade, a política brasileira de 2016 para cá mudou muito, sofreu muitas transformações. A gente teve operações feitas pelo Judiciário, pelo Ministério Público, depois nós tivemos a polarização das eleições, com o Bolsonaro da primeira vez, a polarização da segunda vez, com o Lula ganhando, é um país dividido. Então, eu poderia dizer que nós temos que buscar uma pacificação, mas não é um caminho simples, porque, na verdade, os polos que polarizam sempre querem chamar mais atenção e levar a mais embate, porque a polarização alimenta os polos que polarizam. Então, ainda está indefinido o quadro nacional da eleição de outubro. É claro que o presidente Lula leva um pouco de vantagem com toda a postura que alguns segmentos da direita fizeram, mas a eleição está empatada. Tanto é que a avaliação do presidente Lula é metade sim, metade não. Quem tem metade sim, metade não, ganha ou perde a eleição num detalhe. A eleição de quatro anos atrás foi definida, também, num detalhe. Foram um milhão e oitocentos e poucos mil votos, que não é nada para o eleitorado do Brasil. Portanto, a gente espera também muita disputa, candidaturas que podem ainda vir a ser apresentadas, vingarem ou não. É um quadro bastante complexo.

 

O ex-senador por Roraima acompanha de perto os desdobramentos do julgamento do governador Antonio Denarium no TSE, que pode mudar os rumos da sucessão estadual. (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

RDM: Sobre o bolsonarismo, sobretudo, que ganhou força nas eleições de 2022, e agora a grande pegada, dizem que não é nem ganhar a eleição para presidente, é, sim, fazer maioria no Senado. O senhor foi senador por três, quatro mandatos. Como o Sr. conhece aquela Casa da Federação como poucos, como o senhor vê a possibilidade do bolsonarismo tomar a maioria, ter mais de 41 senadores, a partir das eleições de 2026?

Romero Jucá: Olha, a direita já tem um contingente bastante expressivo de senadores. E essa eleição, se ela for muito polarizada, a tendência é que a polarização nacional, de certa forma, se reflita um pouco na polarização estadual. Claro, não para governadores, não para deputados federais, porque são muitos partidos, e muitos partidos ensejam a direita, vários partidos ensejam a esquerda, tem partido de centro, ou seja, é um processo muito mais plural. Mas a nível de Senado é possível que a gente caminhe para ter pelo menos um equilíbrio de forças muito grande, sendo também as votações do Senado sendo definidas em um detalhe.

 

RDM: Mas o bolsonarismo, uma coisa é bolsonarismo, outra coisa é a direita tradicional, não é? O bolsonarismo, ele tem chances de assumir a maioria do Senado?

Romero Jucá: Veja bem, não dá para você dividir bolsonarismo e a direita, porque, na verdade, se existirem vários candidatos de direita, é tudo a mesma coisa. E aí essa polarização se quebra um pouco. Mas se só existir um candidato da direita e for Flávio Bolsonaro, isso turbina o bolsonarismo na questão do embate na eleição nacional e, consequentemente, na eleição do Senado. Então, não dá para definir ainda um perfil decisivo sem ter um quadro de candidatos aspirantes à presidência da República sem serem avaliados. Então, a gente vai ter que aguardar mais um pouco.

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RDM: O Sr. é um quadro emérito também do MDB, do PMDB, antigo MDB. O MDB vai como nesta eleição?

Romero Jucá: Olha, o MDB vai discutir muito isso, o MDB é um partido plural de muitas lideranças nacionais que são distribuídas regionalmente. Então, a gente tem aí um quadro que não dá para definir ainda. Eu diria que, hoje, o melhor caminho para o MDB é não ter um comprometimento direto com qualquer candidatura. Ficar liberado para que o Sul, o Sudeste, o Centro-Oeste, que são mais à direita, possam eleger seus parlamentares. O Nordeste, que é mais à esquerda, possa fazer o mesmo. O Norte e o Sudeste, que são divididos, também possam fazer sua escolha. Ou seja, não há nitidez política hoje, nesse momento, para a gente definir e cravar o posicionamento de uma coligação nacional para o MDB.

 

RDM: E com relação às eleições de Roraima, o seu estado, tem a situação do governador Denarium, que pode ser cassado, ou não.

Romero Jucá: A qualquer momento. E, sendo cassado, o quadro é um. Não sendo cassado, o quadro é outro.

 

RDM: Como que o Sr. vê o seu grupo político nessa situação?

RDM: O nosso grupo político, lá, é oposição [ao governador]. Tem a Prefeitura de Boa Vista [capital] e tem uma quantidade expressiva de políticos. A gente está aguardando para ver também como vai se definir essa questão pelo julgamento. O julgamento já tem dois votos pela cassação. O julgamento tem que voltar a ocorrer. Já vence, agora, o pedido de vista do ministro Nunes Marques. Então, a nossa expectativa é que a presidente [do TSE] Carmen Lúcia volte para votar e que o governador seja cassado. O governador sendo cassado, o MDB terá uma candidata ao governo, que é a ex-prefeita Teresa Surita.

 

RDM: E o senhor vai ser candidato nas eleições agora no mês de outubro?

Romero Jucá: Eu estou avaliando com bastante carinho para verificar o conflito entre vida pessoal e vida pública, para ver junto com a família o que é que nós vamos decidir.

 

RDM: O Sr. está com saudade dos corredores da política?

Romero Jucá: Sempre, mas o meu trabalho hoje é também nos corredores da política, pela consultoria econômica e política que eu faço. Então, na verdade, eu estou inserido, de certa forma, na política. Eu não tenho mandato, eu não voto, mas a gente debate bastante, a gente tem amigos, a gente acompanha essas questões todas no Congresso Nacional e no governo federal. Portanto, eu estou um pouco dentro, mas temos que avaliar se os dois pés vão para dentro ou se fico do jeito que estou.

 

Mesmo sem mandato, Jucá revelou que segue atuante nos corredores da política por meio de consultoria e que avalia com a família um possível retorno às urnas. (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)

RDM: Agora, caminhando já para a final da entrevista, essa questão do Brasil encaixado no mundo, a questão da geopolítica, da nova geopolítica mundial, Trump, Putin, Xi Jinping, o acordo do Mercosul com a União Europeia que foi assinado agora, depois de quase 27 anos, parado desde o governo do Fernando Henrique e agora, realmente efetivado, e começa a andar até os parlamentos de cada país aprovarem. Como o senhor vê esse momento da geopolítica e como essas relações impactam na política nacional?

Romero Jucá: Na verdade, a geopolítica internacional está sofrendo mutações pelo estilo do presidente Trump, que é um pouco de atropelar as coisas. O multilateralismo está sendo colocado de lado pela hegemonia das grandes forças políticas do mundo, e quando eu digo forças políticas, são forças econômicas e militares. Então, eu acho que a gente tem também que trabalhar no sentido de colocar bem o Brasil. O presidente Lula conseguiu uma relação com o Trump, que terminou beneficiando o país. Esse acordo com o Mercosul é um acordo importante. De outro lado, outras questões precisam ser colocadas. O Mercosul precisa ser fortalecido. A relação do Brasil com os países do Mercosul, com os países da América do Sul, precisa entrar em outra sintonia de relacionamento político-econômico mais efetivo. Ou seja, a gente tem alguns desafios internacionais para fazer, mas o Brasil sempre foi um país que se deu bem com todo mundo. Então, nós temos que continuar assim.

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