Sebastião Melo: reconstruir sobre as águas
Quase dois anos após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, o prefeito porto-alegrense abriu o seu coração ao Grupo RDM: “A própria casa foi atingida. Passei noites sem dormir. A solidão do poder”.
Por Humberto Azevedo
Em maio de 2024, quando as águas do Guaíba avançaram sobre 30% do território de Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo (MDB) viveu o momento mais solitário de seus 67 anos. A capital gaúcha, que vinha de uma aprovação de 75% da população, viu-se submersa — e o gestor, no olho do furacão.
Em entrevista exclusiva ao Grupo RDM, o prefeito reeleito com 63% dos votos meses depois da enchente histórica faz um balanço do desastre que desalojou dez mil pessoas, custou R$ 100 milhões só em remoção de entulho e expôs a fragilidade de um sistema de proteção concebido na década de 1940.
“A própria casa minha foi atingida. Minha mulher ficou com meu filho, eu fui para um hotel. Passamos muitas noites sem dormir. A solidão do poder. A crise é muito maior e nós fomos para a linha de frente. (…) Nunca busquei culpado, busquei soluções. No pico, tivemos 15 mil pessoas em abrigos, sete mil animais. Acolhemos todo mundo. A cidade voltou a funcionar”, destacou.
RESPOSTA À CRISE
Melo detalhou os números da reconstrução: R$ 6 bilhões em financiamentos captados, 4 mil unidades habitacionais em regime de compra assistida e um programa inédito chamado “Estadia Solidária”, que pagou auxílio-moradia para as vítimas enquanto a burocracia não avançava.
O prefeito lembra que o sistema de diques de Porto Alegre é da década de 1940, extinto no governo Collor, e que a bacia do Guaíba recebeu água de 200 afluentes. “A chuva de Porto Alegre não foi o problema. Foi a chuva de todo o estado”, comentou.
“Não adianta fazer uma muralha da China em Porto Alegre se o entorno não tem obra. Se na bacia do Guaíba não tem dragagem, não tem desassoreamento. É um conjunto. (…) Me sinto como um pai que tem cinco filhos e só tem dinheiro para dar presente a dois. Essa é a vida do gestor. Não tem recurso para tudo”, complementou.
FUTURO POLÍTICO
Mesmo pressionado por apoiadores para disputar o governo do Rio Grande do Sul em 2026, Melo é taxativo: tem contrato com a população até 2028. O goiano de Piracanjuba que se tornou duas vezes prefeito da capital gaúcha já sabe até a placa que pendurará na saída.
“Se eu não fosse candidato à reeleição depois de ter anunciado, eu seria culpado ou covarde. E não sou nenhuma dessas duas coisas. Fui reeleito com superação. (…) O povo, às vezes, cansa do jeito. A gente tem que saber a hora de sair. Vou pendurar uma placa: ‘Muito obrigado, Porto Alegre’. E depois, pescar no Araguaia”, finalizou, lembrando que disputou o pleito sob os escombros da enchente.
“Levanto todo dia às 5h, durmo meia-noite. Cada dia estou mais entusiasmado. Minha candidatura é essa: entregar uma cidade melhor”, emendou.
ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
Entre a gestão da maior tragédia climática do país e o comando interino da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), Sebastião Melo se vê como parte de um processo coletivo. “O cidadão não mora na União, mora no município”, diz reforçando ao defender mais recursos para as cidades.
Na entrevista, que segue abaixo, o prefeito relembra ainda os desafios do pós-pandemia, quando reduziu 62 impostos para reerguer a economia, e faz questão de exaltar o voluntariado que ajudou a reconstruir escolas e equipamentos públicos após a enchente.
“As crises são momentos em que a gente sofre e aprende. Somos mais fortes. Porto Alegre é uma cidade de povo forte, e a sociedade ajudou. Tenho certeza: entregaremos uma cidade melhor em 2028. (…) A solidão do poder existe. Mas a linha de frente é o meu lugar. E é lá que vou ficar até o último dia”, completou.
RDM: Prefeito, futuro deputado?
Sebastião Melo: Não, não. Futuro deputado, não, não. Já fui deputado.
RDM: Prefeito Sebastião Melo, o senhor está assumindo agora interinamente a presidência da FNP, por conta da renúncia do prefeito Eduardo Paes, que vai se candidatar ao governo do estado do Rio de Janeiro. Como é que vai ser? O senhor vai permanecer interino? Vai ser efetivado?

Sebastião Melo: Bom, primeiro, a alegria está contigo aqui, dizer assim, a Frente Nacional dos Prefeitos representa os municípios de cerca de 80 mil habitantes, evidentemente que nenhuma prefeitura pode estar afiliada a outra entidade também, e ela trata dos temas municipalistas. O cidadão não mora na União, não mora nos estados, ele mora nos municípios. E o Brasil tem um sistema federativo profundamente distorcido, não é? É muito Brasília e pouco Brasil, não é? Ou seja, o recurso centralizado, o poder político, o econômico, e os municípios vêm recebendo, depois da Constituição, transferências enormes de responsabilidades. Mas o dinheiro não acompanha a responsabilidade. Por exemplo, o sistema de saúde, que é uma coisa que deu certo, das muitas coisas que não deram certo na Constituição. Hoje, os municípios no mundo têm que ter 15%. No meu estado, eu hoje boto 21%, mas tem vizinhos meus que botam 22%, 23%, 24%, 25%. Por quê? Porque a tabela do SUS [Sistema Único de Saúde] está profundamente desajustada, e os estados não cumprem também o seu dispositivo constitucional. Transporte coletivo, por exemplo, não é? O problema é grande, que se não botar dinheiro público, não é para o empresário, é para a passagem não ficar tão pesada, as passagens disparam, porque não tem condições de milhares de pessoas pagarem, não é? Então, estou te dando dois exemplos. Eu posso ir para o SUAS [Sistema Único de Assistência Social] e posso ir para várias outras áreas. E aqui também, em Brasília, muitas vezes se votam leis sem combinar com os municípios. E em ano eleitoral isso piora. Ou seja, agora, por exemplo, o teto dos professores.
RDM: O piso salarial, não é?

Sebastião Melo: Isso. O piso dos professores. É justíssimo, acho que o professor tem que ganhar mais do que o piso, não tem nada de injustiça nisso. Mas tem dezenas, para não dizer milhares de municípios, que não tem dinheiro para pagar o teto. Então, tu vota o teto, passa para o município, o município não tem como pagar, mais o teto da enfermagem, daqui a pouco é o teto do gari, tudo tem teto. Então, essas distorções, elas são complexas. Então, reforma tributária, por exemplo, é um tema complexo. Então, a frente, ela está aqui constituída, tem um corpo técnico, que nós temos aqui, mas nós somos uma entidade que tem algumas características diferentes da nossa cor irmã [a Confederação Nacional do Municípios – CNM], porque aqui quem preside é quem está em mandato. Então, por que razão o Paes está saindo? Ele tomou a decisão, e se eu pudesse votar no Rio de Janeiro, eu votaria nele, eu gosto muito dele, ele é competente, grande prefeito, de vários mandatos, e vai para o governo do estado. E nós tivemos uma assembleia [da FNP], e ele anunciou, naquela questão da reforma tributária, em que dizia, ‘eu estou me licenciando’, e nesta condição estarei até o dia 11 de março. Dia 11 de março vai haver uma assembleia para poder escolher o presidente. Eu não reivindico, claro, eu sou vice-presidente, acho que o processo da frente é coletivo, não é individual, não é imperial. Agora, como eu sou o primeiro vice-presidente, se o conjunto dos colegas-prefeitos entender que o Melo tem que ficar, tem um ano ainda de mandato, eu vou cumprir o mandato coletivamente aqui, coletivamente. Então, não reivindico, mas se for uma vontade coletiva, eu sou o primeiro vice-presidente. Mas eu atuei tanto quanto na gestão passada, que eu não tinha nenhum cargo de executivo [da frente]. O Paes, de certa forma, nessa eleição, quando chegou o nome dele, disse, olha, eu vou, mas eu quero que o Melo seja vice. Eu já conheço o trabalho dele, sei que contribuiu, eu fui coordenador do transporte no mandato passado. Então é nessa condição que eu estou aqui, e hoje, inclusive, estou aqui em Brasília para ter a primeira imersão aqui nessa transição, porque você sabe que prefeito sair da cidade é complicado, mas a gente hoje pode governar muitas coisas também um pouco à distância. Então é com esse espírito, mas o espírito de chegar aqui na frente e de ter uma relação boa relação com o governo federal, com os estados, com os colegas prefeitos, com diálogo e construção, e muitas vezes, em divergências, construir consenso. Eu acho que a política está faltando isso no Brasil. Na divergência, não ter mais briga, mas na divergência construir consenso. Mas sempre olhando aquilo que é a razão maior da política, que é o bem comum.
RDM: O senhor falou do piso nacional dos professores, do magistério, que é uma bandeira da FNP que está até agora querendo emendar uma medida provisória já editada, uma luta…

Sebastião Melo: Não, já tem medida provisória. Já tem a medida provisória e eles estão querendo regular ainda mais um pouquinho. A nossa posição aqui é que esse assunto nasceu mal. A maneira que vinha não estava legal também, porque era investimento aluno. Então tinha ano que dava 30, 28, 20. Como deu esse ano agora praticamente quase negativo, aí houve toda uma revolução. Quando deu 30, 20, ninguém falou nada, mas quando deu baixo agora… Então se criou uma regra hoje, que é a inflação, e mais tem um fator ali, tem um mínimo e tem um máximo. Então eu acho que a regra dessa proposta não é totalmente ruim, ela é melhor do que está aí. A emenda que nós estamos postulando é que para aqueles municípios que não têm dinheiro para pagar, que o governo federal pudesse aportar. É isso. Essa é a nossa luta. Os municípios que têm, por exemplo, no caso de Porto Alegre, acho que não tem nenhum professor que ganha fora do teto. Não é o nosso problema, mas tem milhares que não é isso. Então para esses que o governo federal pudesse aportar. Essa é a nossa tese. Mas eu não sei se lograria mesmo, porque eu acho que medidas como essa em ano eleitoral, você sabe que passa correndo no Congresso Nacional. E aí depois vê como fica na Justiça.
RDM: Aí a questão ainda, além do Piso Nacional do Magistério, tem a questão que esse ano vai bater muito, porque até é uma causa que faz um clamor eleitoral, que é a questão da tarifa zero no transporte público. Como que a frente está vendo essa movimentação?

Sebastião Melo: Bom, nós fomos chamados na semana passada, ou retrasada, pelo presidente [da Câmara] Hugo Motta (Republicanos-PB). Nós almoçamos com ele lá na residência da Câmara Federal. O marco legal, eu chamo de SUS do transporte. SUS do transporte, acho que as pessoas entendem um pouco mais. O que é o SUS do transporte? É você dividir essa responsabilidade com a união com os estados, porque hoje está só com o município. Então, esse projeto chama-se marco legal do transporte cotidiano, que vem sendo construído desde o governo anterior, e que passou pelo Senado, acho que foi o senador [ex, atual conselheiro do Tribunal de Contas da União, Antonio] Anastasia, o relator da matéria, e agora está na Câmara. Ele está maduro para votar. O marco legal, nós não vamos misturar ele com o projeto do tarifa zero. O marco legal estabelece uma segurança jurídica, e estabelece também como você pode buscar financiamento. E, fundamentalmente, também os contratos hoje que estamos atualizando da segurança jurídica para os operadores. O [deputado] Gilmar Tatto (PT-SP) estava nessa reunião, eu até me manifestei, eu falei, Gilmar, acho que se nós botarmos esse tema junto, vai contaminar. Por quê? Ninguém pode ser contra tarifa zero.

Agora, quem é que paga a conta? O sistema é muito caro. Então, quem é que paga a conta? Vai se criar? Vai ser uma CIDE [Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico] que vai ser usada? O modelo do mundo tem vários modelos. Tem modelo no mundo, por exemplo, que independente se o funcionário usa ou não, tem países que utilizam e 100% do funcionário, o empregador tem que pagar. Entendeu? Bom, tem outros que adotam, aqui no Brasil, por exemplo, as isenções. É um peso muito grande. A maior isenção no Brasil é a isenção de 65 anos ou mais, 6 bilhões. Então, o cara levanta a carteirinha e diz, olha, tem 65, tem lugar que nem carteirinha tem, tem a própria identidade e sobe o ônibus. E vai e volta, e vai e volta. Então, isso custa 6 bilhões. E esta lei é antiga. Não é do governo Lula, é antiga. E ela vem lá do Estatuto do Idoso, consolidado, vem da Constituição. Só que nenhum governo, com exceção do governo Bolsonaro, botou 2 bilhões e meio no último ano de mandato dele, naquela Medida Provisória do Bem, que envolvia vários setores. E o setor também era um dos setores que estava na desoneração da folha. Então, além do governo não botar recursos, nesses quatro anos, a folha começou a ser reonerada, de novo. Então, ela vai chegar no seu pico ali na frente. Então, hoje, a passagem tem toda a sua defasagem e ainda tem a reoneração da folha. Então, eu acho que a discussão da tarifa zero é uma grande discussão. O que não pode é dizer que a tarifa zero é para os municípios. E não tem como fazer isso. Não tem como fazer isso. Acho que os municípios devem participar. Até porque hoje participam. É uma política tripartite. É o SUS, por exemplo. Só que o SUS hoje, os municípios estão bancando mais. Então, é sempre um debate em ano eleitoral. E isso contamina, não é? Entendeu? Então, volto a dizer, a frente não é contra, eu não sou contra, mas tem um fator decisivo. Como financiar a tarifa zero?
RDM: Até porque uma defesa do projeto da tarifa zero seria usar os recursos do auxílio transporte. Que aí os empresários que pagam esse recurso estariam dispostos… Mas isso paga a conta?
Sebastião Melo: Essa é a questão. Hoje não, não. Está falando do vale-transporte?
RDM: Isso.
Sebastião Melo: Não, não paga. Hoje não paga. Esse modelo que está aí, hoje não paga. Hoje, 60% usa o vale-transportes. Sobra 40% no sistema. E esse valor pago hoje do vale-transporte, ele é insuficiente para o sistema. Por quê? Porque ele fica para o microempresário. Se eu subir a passagem de mais, o cara que tem dois empregados, é um peso. E o informal. Então, o sistema que está aí não paga. Tem que ser um modelo. Ou é recurso de orçamento dos estados e municípios. Ou é criar um projeto de lei onerando o setor privado. Numa lei federal. Nenhum município vai fazer isso. Ou você tem que ter uma fonte perene de financiamento. Mas tu também pode, assim, olha… Outra alternativa é a seguinte. Eu vou tirar tudo da cadeia de ônibus. Por exemplo, o ICMS, que agora vai passar a ser CBS [Contribuição sobre Bens e Serviços], é 17%, 18%, 19%, depende do estado. Então, se tu tirar 17%, tem o motorista, a carroceria, o pneu, a manutenção, a folha de pagamento. Então, tudo isso faz parte da tarifa. E mais o lucro do empresário. Então, se tu tirar todos os impostos federais e estaduais, é um caminho também. Não tem que ir querendo fazer, mas tem que querer fazer. E eu sou totalmente contrário a aumentar impostos. Beleza. O Brasil não aguenta mais máquina pesada.
RDM: Mesmo com a reforma tributária diminuindo um pouco, não é? Mas precisa diminuir mais, é isso?

Sebastião Melo: Eu não tenho essa convicção. Hoje o cidadão paga imposto indireto, ele não enxerga. O que ele vai passar é enxergar agora, não é? Então, uma água dessa aqui deve ter 35% de imposto. Ela vai aparecer na reforma tributária agora. Hoje ela não aparece, não é? Tu toma, ela está embutida. Então, isso agora vai onerar um setor, que é o setor de serviços, esse vai ser profundamente atingido na minha avaliação. Porque vamos imaginar hoje, uma oficina mecânica, um cabeleireiro, um pequeno negócio, paga uma alíquota de 2,5%. Ele vai passar a pagar um IBS de 25%, 27% ou 28%. Então, é o que vai acontecer. E ele, o serviço, dificilmente acredita, porque a reforma tributária criou um sistema de creditar. Então, a indústria hoje, ela compra serviço, compra serviço, ela não credita. Então, para a indústria, eu acho que a reforma tributária vai bem. Para os banqueiros, vai muito bem. Para o governo federal, vai muito bem. Para o agronegócio, eles também criaram mais exceção do que regras, para todos esses setores. Então, é uma reforma que tem muito mais exceção do que regras. E aí, o serviço chegou por último, e o serviço vai pagar uma conta muito alta. Mas ela só vai estar implantada em 2077, na sua totalidade. Então, tem uma transição longa.
RDM: Agora, voltando, vamos abordar a questão da prefeitura de Porto Alegre, o senhor foi eleito prefeito em 2020, no primeiro mandato. Foi reeleito agora em 2024. E nesse meio mandato, não só o senhor, toda a população gaúcha foi pega por uma hecatombe natural, aquela enxurrada de chuvas que inundou o estado do Rio Grande do Sul, a capital, inclusive. E muita gente cobrou, as cidades não estavam preparadas. Realmente não estavam preparadas para aquele excesso de chuva como foi. Mas como o senhor vê isso? O senhor acha que isso vai ser um novo normal, uma nova normalidade, excesso de chuva, ou aquilo foi ocasional, e deve-se repetir daqui a 100 anos, ou não, isso vai acontecer com mais frequência? E o que precisa ser feito para evitar? Para se antever?
Sebastião Melo: Sim. Primeiro, quem acredita na ciência, eu acredito na ciência, há um aquecimento global. E aquecimento global, você tem que enfrentar ele com mitigação e com preparação. Então hoje, mais de 60% do CO2 [gás carbônico] das cidades vem dos carros, dos ônibus, das rotações. Então se você quer fazer uma transição energética, para ter menos CO2, parar o aquecimento global, você tem que partir para o metrô, tem que partir para a VLT [Veículo Leve sobre Trilhos], tem que partir para ônibus elétrico, correto? Então eu fui na primeira vez à COP [Conferência das Nações Unidas sobre Mudança no Clima], em Belém, no Pará. As COPs, elas sempre foram muita falação, assinaturas que não valem um dólar furado e não implementam nada.
RDM: E muito lobby também, não?

Sebastião Melo: Sim. Então, você tem que ter o seguinte, tem que ter um programa climático federativo, com as suas realidades locais. Quem está mais preparado para enfrentar isso são os municípios. Agora, se você não faz, por exemplo, vou pegar a área de risco no Brasil. Só na minha cidade tem 80 mil pessoas que moram em área de risco. Em encosta de morro, beira de arroio, embaixo de fio de alta tensão. Transforma isso para uma grande São Paulo, uma grande Belo Horizonte, uma grande Rio de Janeiro e tal. Então, essas pessoas não estão lá porque querem. Elas foram, vindo do campo, criou-se uma cidade da informalidade, crescimento desordenado. Então você tem a questão da drenagem urbana, você tem a questão de moradias em lugares indevidos, você tem a questão da arborização. Então você tem um desafio enorme climático. Acho que o Brasil precisa urgentemente ter uma política federativa, mas com planejamento e com recurso. Não tem saída. Quanto à questão lá do Rio Grande do Sul, realmente foi uma questão muito dura, acho que talvez um dos desastres maiores do mundo, e no Brasil foi o maior. E eu preciso dizer assim, eu me portei nesse processo nunca buscando culpado, mas buscando soluções. Até porque, nos últimos 30 anos, qual foi o presidente da República que colocou no seu programa de governo a questão climática? Os governadores dos estados, os prefeitos. Então, o sistema de proteção de cheia em Porto Alegre é da década de 70, e ele é parcial. Ele é de 70 e é parcial. Ele não protege toda a cidade. Mas quando tu fala em proteção de cheia, você tem que falar da bacia hidrográfica que representa essa proteção.

Então, a bacia do Guaíba tem 85 mil quilômetros quadrados, tem 200 afluentes que jogam nos rios que chegam no Guaíba. Então, se a chuva de Porto Alegre não foi o problema, o problema foi a chuva que choveu em todo o Rio Grande do Sul, e a metade do Rio Grande do Sul chegou em Porto Alegre. E quando essa água chegou, o sistema que foi concebido pelo DNOS [Departamento Nacional de Obras de Saneamento], que era um órgão federal, concebido na década de 40, e que foi extinto no governo Collor. Então, passaram… Eu sou o 15º prefeito dessa geração de lá pra cá. Então, você tem culpados, todos, não é? Os prefeitos, governadores, presidente, população que bota lixo na rua todo dia, os arrulhos, as bocas de lobo. Então, nós buscamos soluções. Então, a primeira questão era o seguinte, era colocar em pé a cidade. 30% da cidade foi tomada por água. Só pra retirar o botafora dos que perderam as casas, foram mais de 100 milhões. 10 mil pessoas perderam as suas casas. E eu me coloquei nisso o seguinte, eu acho que o mesmo povo que elege um presidente, elege um governador, elege um prefeito. Então, sempre tem que haver colaboração.

E numa crise, não tem um botar a culpa no outro. Se é culpa do Estado, é culpa da União, mesmo que a Constituição diz lá no seu artigo tal, que a proteção de encostas, é do governo federal. Ele pode delegar. Então, da minha parte, eu trabalhei e trabalho bem com o governador, trabalhei e trabalho bem com o governo federal, e nós estamos buscando mais de, em torno de 6 bilhões de financiamentos, boa parte deles, grande parte deles é para fazer obras. Esses recursos são suficientes? Não, mas isso melhora muito o sistema. Então, isso tem governo, tem financiamentos nacionais, quatro financiamentos internacionais. Então tem uma governança, e é desse jeito que nós estamos trabalhando. Então, se por um lado nos trouxe dores enormes, ela também abriu uma janela de oportunidade, porque, hoje, de compra assistida em Porto Alegre, o que é uma compra assistida, que está pronto, que o governo federal foi no mercado, mas antes de ir ao mercado, a prefeitura pagou mil reais para essas pessoas durante todo esse período, chamado ‘Estadia Solidária’, que é um bônus para ele morar com a tia, com o tio, com a sogra, para sobreviver. Os laudos fomos nós que fizemos, os cadastros fomos nós que fizemos, mas a compra foi feita pela Caixa Federal. Então, Porto Alegre está na casa de quatro mil. Ontem [11 de fevereiro] o ministro [das Cidades] Jarder esteve lá anunciando 10 mil no Rio Grande do Sul, dessas 10 mil, quatro mil em Porto Alegre. Graças a essa relação federativa responsável e colaborativa. Então, mas, a questão habitacional é um desafio, porque tem gente que não se adapta. Você imagina alguém que mora numa vila popular, tem dois gatinhos, três cachorrinhos, separa lixo, nunca pagou água, nunca pagou luz, nunca pagou um condomínio, que desde agora só vai morar naquele apartamento. Não é assim, não é? Então, tem aqueles que se adaptam a ser uma compra assistida, tem outros que é o Minha Casa, Minha Vida.

Então, nós estamos trabalhando. Então, tem a macro drenagem, que é tirar água da cidade, colocar para fora. Então, essa é uma demanda que confunde muito isso. E a proteção de cheia é não deixar entrar água na cidade. Agora, Porto Alegre tem várias regiões que é cota baixa. Uma água, quando ela cai aqui em cima, tá vendo? Ou tem queda de nível, ela vai para um lado e para o outro, ou ela fica empacada aqui. Se ela fica empacada aqui, tem que bombear essa água. E aí, tem que ter uma macro drenagem boa, que, às vezes, o mundo inteiro faz isso. Então, choveu, choveu, vai para bacia de condição. E aí, aquela bacia vai escoando depois. Então, tudo isso tá dentro do contexto de memorizar o sistema. Então, nós estamos, acho que a cidade voltou, o crescimento econômico está funcionando 100%, mas com os desafios que tem toda cidade. Não tem recurso para tudo. Então, você tem que escolher. Eu sempre, às vezes, me digo assim, eu me sinto como prefeito, como um pai que tem cinco filhos e queria dar presente no final do ano para os cinco e só tem dinheiro para dois. Qual dos dois eu escolho? Mais novo, mais velho, ou o do meio, porque se eu chego no bairro, o cidadão me fala, eu quero água, eu quero energia, eu quero creche, eu quero isso e tudo aquilo. Se eu botar tudo naquele bairro, o vizinho do lado diz, mas como é que eu fico? E se eu não recolher o lixo? E se eu não acolher o morador de rua? E se eu não pagar a conta da luz? E se não passar o caminhão de lixo? E se a rua tiver esburacada? Então assim, essa é a vida do gestor. Então, é assim que nós vamos tocando a vida. Mas Porto Alegre é uma cidade de um povo forte, a gente criou o escritório de reconstrução, fomos para linha de frente, ficou no gabinete do prefeito, a sociedade ajudou e está ajudando. Então, ali tem recurso financiado, tem recurso próprio, do caixa, já foi 800 milhões do caixa da prefeitura. E teve lá exemplo, por exemplo, escola que o empresário assumiu, outro reformou, voluntariado, entendeu? Então, é um conjunto de uma reação positiva e as crises são momentos que a gente sofre e aprende. Somos mais fortes.
RDM: Das ações que o senhor almejou, quando eleito pela primeira vez em 2020, muitos foram atropelados por conta do excesso de chuva, da chuvarada. Está voltando a sua gestão agora, reeleita em 2024, está conseguindo voltar ao normal, recuperar aquele plano que o senhor tinha em 2020 para agora, em 2024, após ser reeleito para reconstruir a cidade?
Sebastião Melo: Acho que é importante, todos os que foram eleitos em 2020, ou os que foram reeleitos, estavam vivendo uma crise sanitária sem tamanho, que é a do Covid. Em março de 2021, estourou violentamente, tivemos momentos duros. O que fizemos para botar a cidade em pé depois do Covid? Primeiro, nós diminuímos 62 impostos, licenciando rapidamente, acabando com papelada, o alvará, desenvolvimento econômico, porque sem desenvolvimento econômico não tem proteção social. Se não entra dinheiro no caixa, você não paga nem funcionário, nem previdência, e todas as políticas públicas que uma cidade precisa. Eu sou um prefeito muito próximo da população, ou seja, que enfrento problemas e tento todo dia entregar soluções. Então, o desenvolvimento econômico é um papel fundamental. Então, a cidade, aí, por exemplo, meu antecessor tinha tocado multa em todo mundo, acabei com tudo isso, o que veio da pandemia, que alguém estava lá com uma portinha aberta, acabei com tudo isso. Criamos o Conselho de Desenvolvimento Econômico, não tomamos nenhuma decisão sem ouvir os empresários, mas sou um prefeito que aproximo muito das periferias, porque acho que o Brasil tem duzentos desafios, mas gostaria de enfrentar dois, ou seja, se você não enfrentar e dar dignidade às periferias e melhorar a educação no Brasil, o Brasil não tem jeito. O que é dar melhoria? Não pode só o rico ter uma banda larga, não pode só o rico ter o serviço de qualidade de uma cidade. Então é procurar a prefeitura Mais Comunidade, que é um programa que eu tenho muita paixão por ele, que é o seguinte, todos os sábados eu estou em uma comunidade, eu tenho levantamento de todas as demandas, a gente faz uma prévia, elenca três, quatro, cinco, seis, sete, às vezes dez coisas que dá para resolver, o valor em conta da população, o orçamento participativo, a gente decide ali e ali a gente vai fazendo e monitorando, então, por exemplo, chega lá numa vila popular, tem um cadeirante que não tem uma escadaria, isso é vida real, o cidadão vai todo dia com a mãezinha, com o filho, subir, não tem uma escadaria, então vamos lá fazer uma rampa de acesso, não tem um bico de lâmpada, e às vezes tu bota e se quebra a lâmpada, genrando escuridão, então a prefeitura Mais Comunidade, é um governo popular, sem ser populista, um governo que o empresariado confia, sabe que conosco não vai ter insegurança jurídica para investir na cidade, então a cidade voltou, crescimento, desenvolvimento, e cuidar cidade bem cuidada, quando assumi a prefeitura, a grama estava nessa altura [medindo uns 50 centímetros], tinha 26 mil pedidos de poda de árvores, e aí foi o seguinte, ruas esburacadas, então como é que alguém vai investir em uma cidade em que se chega, está escura a praça, não tem limpeza, então é preciso uma cidade bem cuidada, e aí é um desafio que já se passa há cinco anos, que é tentar convencer a cada dia a população que a prefeitura tem um papel, mas sem a colaboração dela não tem cidade boa para viver, por exemplo, separação de lixo, isso é um desastre no Brasil, o cara toma a cerveja, a borra de café, toma o chimarrão e bota tudo junto, e tem um contrato milionário que passa na porta da casa dele, está no site da prefeitura, o dia, o horário, hoje no Brasil, 5% do Brasil separa o lixo, isso é um desastre, então a cidade bem cuidada passa por uma aliança, calçada, por exemplo, mas todos os apartamentos. Então esse foi um outro carro-chefe da eleição, dos quatro anos, desenvolvimento econômico, proteção social, melhorar a educação, nós vamos zerar a fila agora desse segundo mandato, vamos zerar a do infantil, e cidade bem cuidada, e inovação na veia, sem inovação não tem entrega, quem não inova não entrega nada, nem no privado, nem no público. Bom, a gente via a cidade nessa retomada, eu via que antes das enchentes havia uma satisfação muito elevada da população, muito elevada, 75% dos porto-alegrenses estavam satisfeitos com a vida da cidade, aí veio o segundo tombo, e o segundo tombo foram as enchentes, e como era num ano eleitoral, não era eleição para o presidente, não era eleição para o governador, era para prefeito, então o Melo se transformou em Jesus Cristo, parece que toda a culpa da enchente do Rio Grande do Sul era do prefeito. Eu levantei a cabeça, a própria casa minha foi atingida, nunca quis que isso fosse uma matéria jornal, minha mulher ficou com meu filho, eu fui para um hotel, e nós passamos muitas noites sem dormir, a solidão do poder. A crise é muito maior e nós fomos para a linha de frente, linha de frente diuturnamente. No Pico tivemos 15 mil pessoas em abrigos, sete mil animais nos abrigos, 200, 300 abrigos espalhados por toda a cidade. Acolhemos pessoas da Grande Porto Alegre que não tinha cidade como Eldorado, não tinha como acolher, todos vieram de barco para a Porto Alegre, com os seus animais, acolhemos todo mundo. E fomos retomando a cada dia a cidade. Então hoje a cidade está funcionando e bem. Só para se ter uma ideia, por 1.100 km de tubulação entupida, asfalto, mais de 300 equipamentos destruídos, então a gente deu uma volta por cima de novo. Agora, tive reuniões, ao longo desse ano, depois das enchentes, pedindo aos empresários que continuassem investindo, que acreditassem na cidade, e acreditaram, entendeu? Então nós estamos vivendo um momento, eu diria, um boom da cidade. Mas nessas zonas atingidas, é claro que ainda tem muitos problemas. Agora estou entregando o último posto de saúde, falta um só dos que foram afetados, e que foram tantos. Escolas, escolas já estão todas. Então a cidade voltou a funcionar e funcionar bem. E com os investimentos que nós vamos fazer também, nós estamos passando segurança para a população, de que, em termos chegar lá no sistema, hoje está muito melhor, muito melhor. Mas eu estive na Holanda, uma semana lá.
RDM: Países Baixos.
Sebastião Melo: É, e lá a última crise deles foi na década de 50, morreu muita gente. E eles nos levaram e mostraram, é claro, um país que tem dinheiro, um país que trabalha bem com as universidades, o setor privado, e o governo federal banca tudo. Então, mas eles disseram, não, teve obra que demorou 15 anos, teve obra que demorou 12 anos, outras 10, outras 100, assim. Então se faz proteção de cheia também, não, não podia. E não se faz também, como é proteção de cheia numa bacia, não adianta fazer uma muralha da China em Porto Alegre se o entorno não tem obra, se na bacia do Guaíba não tem dragagem, não tem desassoreamento, não tem bacia de contenção, tem plantio indevido na beira dos rios, que também deixa o solo impermeável, entendeu? Então tem um conjunto de coisas. Então, a cidade retomou o seu crescimento econômico e tenho certeza absoluta que nós vamos entregar uma cidade melhor no final, aí em 2028.
RDM: Agora a gente vai para a parte política e finalizando, o senhor foi prefeito e passou por um teste de fogo, não é, em 2024, quando foi reeleito.
Sebastião Melo: Como muitos colegas… 63% dos votos.
RDM: Como muitos colegas do senhor vão tentar a sorte agora na eleição de 2026. O senhor preferiu não querer. Tem algum motivo para o senhor não querer disputar essa eleição de 2026? Ou o senhor vai sair da vida pública ao término do seu mandato, em 2028?
Sebastião Melo: Em política, dois meses é muito tempo. Uma semana é um tempão. Daqui a dez anos… Deixa eu te dizer assim. Eu sou um goiano de nascimento, sou vizinho aqui de Brasília, sou de Piracanjuba, Goiás. Estou a 300 quilômetros daqui, capinador de roça, e que cheguei no Rio Grande em 1978. E a minha identidade política veio pela luta pela democracia. Imagina um goiano se tornar prefeito de Porto Alegre. É uma história, não? Disputei várias eleições legislativas, perdi, depois venci. E fui eleito lá em 2020. Se eu não tivesse dito lá, antes de maio [de 2024], que eu era candidato à eleição, eu fui levado a uma condução por dez partidos para a reeleição antes das enchentes. Então, se eu não fosse candidato à eleição, depois de ter anunciado o que seria, eu seria culpado ou covarde. E eu não sou nenhuma dessas duas coisas. Tanto é que o povo reconheceu isso. Então, se eu não tivesse dito isso, eu não estava falando como prefeito, nem era presidente da frente. Eu não teria concorrido. Porque eu vi tanta mediocridade na política, nas eleições, do não interesse comum. No momento de uma crise, uma disputa política, isso é dolorido. Mas, infelizmente, isso aconteceu. Eu fui reeleito com essa superação. E, portanto, eu tenho um contrato assinado com a população. O meu nome tem sido ventilado muito para que pudesse ser candidato a governador. Eu tenho o entendimento que esse contrato precisa ser cumprido até o final. Então, não é questão de não querer. Eu acho que é honroso ser prefeito de Porto Alegre. Seria honroso ser governador do Rio Grande do Sul. Ninguém ganha eleição antes ou depois. Disputar para ganhar eleição, não é? Porque um dos erros dos políticos é achar que ele ganhou a eleição e não ter prazo de validade. Então, é motivo da derrota. Mas eu vou continuar prefeito de Porto Alegre. Vou continuar. Enquanto ao futuro político, eu já sei até a placa que eu vou fazer no dia. Um discurso curto na minha saída, de um o cara que encerrou o mandato, porque quem tem que fazer discurso longo é quem está assumindo, não é? Às vezes o cara não compreende. Então, discurso curto. Eu vou ter uma placa atrás de mim e dizer: ‘Muito obrigado, Porto Alegre’. Porque o goiano que se torna vereador, deputado e prefeito duas vezes… Então, só tenho a agradecer. E a gente tem que saber também que mandato tem limite. Às vezes os políticos não sabem a hora de sair também. E o povo, às vezes, cansa do jeito. Então, eu acho que o que eu tenho que fazer é ter saúde. Levanto todo dia às cinco horas, às cinco e meia. Todo dia. Vou dormir lá uma meia-noite. É mais ou menos a minha média. E cada dia eu estou mais entusiasmado que o outro. E assim eu vou até o final do ano. Depois, eu quero… Então, depois do meu mandato, eu quero dar uma descansadinha. Pescar. Pescar na Araguaia.
































