“Precisamos estimular a demanda reprimida com subsídios e mais concorrência”, diz presidente da Aena Brasil
Santiago Yus defende ação coordenada entre setores para elevar índice de 0,6% voo per capita atualmente no país; grupo que administra 17 aeroportos no Brasil investe mais de R$ 3 bi em combustível sustentável.
Por Humberto Azevedo
Em entrevista exclusiva ao Grupo RDM, o presidente da Aena Brasil, Santiago Yus, detalhou os planos da concessionária para desenvolver a aviação regional no país, revelou os investimentos em tecnologia para melhorar a performance operacional do Aeroporto de Congonhas e defendeu uma ação coordenada entre governo, Congresso e setor privado para democratizar o acesso ao transporte aéreo.
A empresa, que administra 17 aeroportos no Brasil, registrou um salto na pontualidade em Congonhas: de 64% no final de 2023 para mais de 85% atualmente. A Aenaé a maior operadora aeroportuária do mundo em números de passageiros, responsável pela gestão de 46 aeroportos e dois heliportos na Espanha. Além dos aeroportos administrados no Brasil e na Espanha, o grupo também detém 51% do Aeroporto de Londres e atua em 12 aeroportos no México
“O nosso principal papel como gestor aeroportuário é desenvolver infraestrutura. Desde o momento que a infraestrutura estiver pronta, ela terá a capacidade de atrair aeronaves com mais segurança e de maior porte, o que facilita a captação de novas rotas. A gente participa junto com governo dos estados, prefeituras, trades turísticos e de negócio. Construímos um produto em comum, trazemos inteligência de mercado para ver como os passageiros chegam a cada localidade e fazemos programas de incentivos com descontos para as companhias aéreas tornarem mais atrativos os aeroportos regionais”, comentou.
MALHA REGIONAL

Questionado sobre a expansão da malha aérea no interior e em regiões como o Centro-Oeste e na Amazônia, o ceo da Aena Brasil projeta uma expansão da aviação interiorana e defende subsídios para aumentar a demanda. Atualmente, o país registra 0,6% voo per capita por ano, número muito inferior ao de países como Estados Unidos e Europa, que atingem 4%.
“Hoje, se a gente enxerga o Brasil como um todo, estamos aproximadamente com 0,6 voos per capita por ano. Quando se compara com economias como Estados Unidos e Europa, é muito baixo. Precisamos estimular essa demanda reprimida com programas de subsídios para que as pessoas consigam acessar o modo aéreo, ajudando também as companhias aéreas com acesso a financiamento e tentando trazer o combustível para baixo”, complementou.
FORÇA-TAREFA
Yus citou a iniciativa recente da Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda como passo importante dentro da necessidade do esforço conjunto entre o setor público e privado para destravar regulação e ampliar conectividade.
“É muito importante que trabalhemos todos juntos — parte política, parte regulatória, companhias aéreas e aeroportos — para poder levar perante o Congresso novas oportunidades de regulação”, completou.
R$ 3 BI NO SAF

O dirigente do grupo destacou ainda que a Aena investe mais de 500 milhões de euros (cerca de R$ 3 bilhões) para apoiar a descarbonização do setor e o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis. Yus destacou a posição privilegiada do Brasil na produção de biocombustíveis.
Com a Petrobrás iniciando a entrega de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) ainda este ano, Yus celebra o primeiro passo para a transição energética, mas alerta para a necessidade de acompanhamento contínuo da infraestrutura.
“Como grupo, a gente investe mais de 500 milhões de euros em apoiar o setor por duas razões: não simplesmente para trazer uma diminuição do valor do combustível, mas por uma aposta definitiva na descarbonização. (…) O Brasil está posicionado de forma inigualável. A gente tem o etanol, que pode ser muito relevante para o desenvolvimento do SAF”, finalizou.
Abaixo, segue a entrevista exclusiva concedida à reportagem do Grupo RDM.
RDM: Como você estava falando, esse plano é para ampliar e melhorar os aeroportos já existentes, os principais aeroportos e vai melhorar o entrocamento da aviação regional entre as capitais. Mas e as capitais fora São Paulo, o eixo Rio-São Paulo, o Nordeste, as capitais nordestinas, as capitais da Amazônia. Um grande gargalo no Brasil é a aviação regional interiorana, não é? Isso não está no plano. Como isso está no horizonte da Aena, do próprio governo, como tem sido feita essa conversa com o governo?

Santiago Yus: Bom, o nosso principal papel como gestor aeroportuário é desenvolver infraestrutura. Nós temos aeroportos, dentro da pasta, 17, temos aeroportos que atendem tráfegos como o aeroporto de Congonhas, temos aeroportos de capital de alguns estados, mas também temos aeroportos regionais. No caso de Mato Grosso do Sul, temos Campo Grande, mas também temos Ponta Porã, também temos Corumbá. Aí, desde o momento que a infraestrutura estiver pronta, essa infraestrutura terá a capacidade de poder atrair aeronaves com mais segurança e aeronaves de maior porte, o que facilita de alguma forma poder fazer captação de novas rotas. E aí começa um trabalho onde a gente também participa junto com o governo dos estados, prefeituras, trades turísticos, trades de negócio. A gente constrói um produto em comum, a gente traz inteligência de mercado para ver como os passageiros chegam a cada uma das localidades, fazem programas de incentivos, onde trazemos descontos para as companhias aéreas para fazer mais atrativos aos aeroportos regionais. E precisamos que essas companhias aéreas sejam assistentes ou outras que consigam vir, ou outras que consigam se devolver dentro do Brasil, enxerguem os aeroportos com um potencial relevante. E aí a gente constrói ‘business cases’ sobre aeronave tipo modelo que seria mais ótima para fazer uma rota Corumbá-São Paulo, por exemplo, ou Corumbá-Brasília ou Corumbá-Rio de Janeiro. Ao construirmos a ‘business case’, conseguimos identificar qual era a base de custos, qual seria a tarifa do ticket médio ou construirmos um produto para sentarmos todos juntos, junto com a companhia aérea e tentar trazer aviação para esses aeroportos regionais.
RDM: E além de todo esse trade, essa negociação de trazer novos players, novos locais, qual seria o valor, um montante aproximado para que a aviação interiorana também se tornasse como nos Estados Unidos, de uma cidade do interior do Texas, você vai para uma cidade interior da Califórnia ou da Flórida com muita facilidade. O que seria preciso repetir essa aviação aqui no Brasil?

Santiago Yus: Hoje, realmente, se a gente enxerga o Brasil como um todo, estamos aproximadamente com 0,6 voos per capita por ano. Isso, dentro da comparativa com outros países da região América Latina, mas quando se compara com economias como Estados Unidos e Europa, realmente, é muito baixo. Então, a gente precisa estimular essa demanda reprimida com programas de subsídios para que as pessoas consigam acessar o modo aéreo, ajudando também as companhias aéreas com acesso a financiamento, diminuindo também todos os processos de reclamações, tentando trazer o combustível para baixo para que essa mensagem, que inclusive o ministro falou, de redução da passagem, e já estamos em uma passagem média de R$ 700, segundo os dados da ANAC, para que consigamos continuar empurrando. Tudo isso, com mais concorrência, vai fazer com que a passagem aérea se democratize. E, a partir daí, esse 0,6 passará a ser 1, alguma coisa, ou chegar a números como a Europa, que tem 4%, ou Estados Unidos, que tem também uns 4%. Desde o momento que isso acontece, as rotas, que hoje em dia são Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste, começarão a sair rotas que comunicam ponto a ponto, sem precisar passar pelos grandes hubs de distribuição de conexão que temos hoje no Brasil. Então, é um pouco caminho.
RDM: Então isso é longo, longuíssimo prazo mesmo.
Santiago Yus: É um trabalho que a gente tem que empurrar, nós temos uma concessão também com um limite temporário, então a gente aprimora. Mas tudo isso, temos que… Por isso essa foto que a gente tinha aqui, de parte política, parte regulatória, companhia aérea, aeroportos, isso é muito importante que trabalhemos todos juntos para poder levar também, perante o Congresso, novas oportunidades de regulação. Inclusive, agora, a Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, no final do ano passado, inclusive, até o dia 2 de janeiro, fez uma tomada de subsídios para trazer todas essas ideias e poder construir um melhor clima para a aviação, inclusive a aviação regional, claro.
RDM: Para terminar, você falou da questão do combustível, o preço. Nós estamos num mundo que o preço do combustível sobe, até pelas questões geopolíticas, mas temos a questão, a novidade do combustível SAF, combustível renovável de aviação. Como é que isso está? Como que a Aena trabalha nisso para acelerar a transição e trocar a matriz energética que abastece os aviões?

Santiago Yus: Bom, como grupo, a gente investe mais de 500 milhões de euros [R$ 3 bi] em apoiar o setor por duas razões, não simplesmente para trazer uma diminuição do valor de combustível, mas também por uma aposta definitiva sobre a descarbonização do setor. Então, é muito importante desde o ponto de vista dos eixos. Melhora o valor e também a descarbonização, que é importante. Então, com essa contribuição, a gente tem que ter pronta infraestrutura, não só a companhia aérea para que as aeronaves consigam consumir esse combustível, que já estão bastante adiantadas, mas também os operadores de combustível que estão em cada um dos aeroportos. Então, esse ‘spool’ de combustível tem que ser acompanhado também no desenvolvimento do setor. E o Brasil está posicionado de uma forma inigualável. A gente tem o etanol, que a gente pode ver com o biocombustível, que pode ser muito relevante para esse desenvolvimento do SAF.
RDM: E a Petrobrás vai começar a entregar a SAF esse ano?
Santiago Yus: Sim. Então, esse já é um primeiro passo. Processo longo também, mas é um primeiro passo.

























