MATO GROSSO

Mesa de negociação

ENTREVISTA DA SEMANA | GERALDO ALCKMIN

O vice-presidente da República e responsável pelo MDICS e também pelo comitê do governo criado para tratar das tarifas de 50% prometidas por Trump para o mês de agosto, Geraldo Alckmin, durante entrevista coletiva após participar de reunião com Abrão Neto, presidente da Câmara Americana de Comércio para Brasil. (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)

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“É evidente que as empresas americanas também vão ser atingidas”, afirma Alckmin

 

Escolhido por Lula para coordenar o comitê interministerial que estuda que respostas o país dará às tarifas de 50% prometidas por Trump em agosto, o vice-presidente do Brasil considera que o país tem duas cartas na manga para forçar um recuo sobre a elevação das tarifas.

 

Por Humberto Azevedo

 

“É evidente que as empresas americanas também vão ser atingidas”. Com essa frase, o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin (PSB), avalia que o governo brasileiro tem duas cartas nas mangas para fazer com que o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, recue em sua promessa de tarifar todas as exportações brasileiras para àquele país em 50% adicionalmente.

 

A decisão de Trump é vista como uma resposta ao que os países dos BRICS, que reúne – além do Brasil – Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, estão promovendo no mundo: a desdolarização em razão dos volumes de negócios começarem a ser feitos utilizando as moedas locais. A decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF) de responsabilizar as plataformas cibernéticas, a maioria de origem norte-americana, por opiniões de terceiros também é visto como algo do ataque que Trump fez ao Brasil no último dia 9 de julho, afirmando que, além disso, a elevação das tarifas decorrem do julgamento “injusto” ao qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vem enfrentando na Suprema Corte por ser acusado de ser o mentor político da tentativa de Golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023 praticado por militantes do seu espectro político e ideológico.

 

Escolhido por Lula para coordenar o comitê interministerial que estuda que respostas o país dará às tarifas de 50% prometidas por Trump a partir do mês de agosto, o vice-presidente, que também acumula a função de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do atual governo brasileiro, considera as duas cartas na manga que o Brasil possui para forçar um recuo de Trump sobre a elevação das tarifas são: mostrar que as tarifas, além do prejuízo ao Brasil, também representará fortes prejuízos para os setores que importam, já que a cadeia produtiva dos países está totalmente “integrada”. Além da população estadunidense, que consome os produtos brasileiros, sentirá no bolso o efeito bumerangue das tarifas, com o aumento inflacionário que já se anuncia em virtude apenas da promessa dos 50% de tarifa adicional. E, por fim, o argumento final é que caso as tarifas se efetivem, o Brasil que possui déficit na balança comercial com os EUA adotará quebras de patentes, sobretudo no setor farmacêutico, em tática já usada no passado e que surtiu resultado. 

 

Os setores prejudicados pelas tarifas Trump são: Avião, aço, alumínio, celulose, máquinas, calçados, sapatos, automóveis, autopeças, suco de laranja, carnes, frutas, mel, couro, e pescados. “São os setores que nós estamos chamando. Estamos chamando as entidades ou, em alguns casos, algumas empresas. Isso não vai se limitar [a um dia de reunião]. E vamos também marcar com entidades e empresas americanas, porque tem uma integração de cadeia”, apontou Alckmin. 

 

“Por exemplo, para dar um exemplo. Nós somos o terceiro comprador do carvão siderúrgico norte-americano. Fazemos o aço semi-plano e vendemos para os Estados Unidos. Que faz o produto acabado. O motor, o automóvel. Então, há uma integração. Você compra o carvão siderúrgico, faz o semi-plano e vende para os Estados Unidos acabar e fazer o produto final. Então, é evidente que as empresas americanas também vão ser atingidas”, observou o presidente dos EUA. 

 

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“O que nós estamos fazendo é ouvindo os setores mais envolvidos e mobilizar também com seus congêneres e parceiros nos Estados Unidos, que você está vendendo para uma empresa americana, para você fazer essa articulação também, e o governo também o fará. A responsabilidade é todo o empenho em rever essa questão. Primeiro porque ela é totalmente inadequada. O Brasil não tem superávit com os Estados Unidos. Aliás, é o contrário. Dos 10 produtos que eles mais exportam, oito, a tarifa é zero, é o que se chama de ‘ex-tarifário’. Nós vamos trabalhar junto com a iniciativa privada”, explicou Alckmin na última segunda-feira, 14 de julho, no dia em que foi anunciado a criação do comitê do governo para enfrentar as ameaças às tarifas de 50% aos produtos brasileiros prometidos por Trump.

 

ENTREVISTA

 

Abaixo, segue a íntegra desta entrevista que o vice-presidente da República deu na última segunda-feira, 14 de julho, ao qual a reportagem do grupo RDM participou. Na oportunidade, Alckmin frisou ainda as demais iniciativas governamentais que estão sendo criadas para desburocratizar a vida dos brasileiros.

 

Imprensa: Vice-presidente, a sua palavra de como vai funcionar este comitê criado pelo governo para ouvir os empresários afetados pelas tarifas de 50% do Trump?

Geraldo Alckmin: Nós somos do Ministério da Indústria, fazendo um trabalho de desburocratização, simplificação e redução de custos. Antes vamos abordar algumas ações importantes do Ministério. Então, fizemos com a licença flex para exportação e importação, você tinha que ter uma licença por operação. Imagine uma empresa que exporta, faça três exportações por semana e três importações por semana. Ela teria que ter 144 licenças por ano. Ela terá agora uma licença para importação, que vale por quatro anos. Ou uma licença para exportação, que também vale por quatro anos. Ninguém mais pode pedir documento. Então, chama-se licença Flex. Depois, o portal para exportação e importação. Você tinha uma infinidade de órgãos para serem consultados e definirem. Agora é um portal só, a gente deve concluir até dezembro. Está faltando só a Anvisa [Agência nacional de vigilância sanitária], Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e MAPA [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] para entrar no portal. Então, apenas um portal para exportação e importação. Isso deve reduzir o custo Brasil em 40 bilhões de reais por ano. Porque uma carga parada no porto ou no aeroporto, um dia, ela custa 0,8% do valor da carga. Então, licença Flex, portal único. Ainda na área do comércio exterior, exportação de frango para o Reino Unido e União Europeia. Você é obrigatório ter um certificado de origem, de onde vem esse frango. Então, esse certificado de origem era de papel. R$ 166,00 por guia. Acabou, não paga mais nada, nada, nada. E é digital, sai na hora. Então, certificado de origem digital.

 

Imprensa: E esse anúncio aqui para os taxistas?

Geraldo Alckmin: Você tinha que fazer a aferição todo ano do taxímetro. O índice de sinistralidade era 0,0 qualquer coisa. Então, não justificava fazer todo ano. E o taxista, às vezes, perdia o dia inteiro para fazer a aferição do taxímetro. Então, a aferição passa a ser de dois em dois anos. Simplificando, desburocratizando, facilitando a vida do profissional e sem taxa. Pagava R$ 52,00, não paga mais nada, nada, nada. Então, a medida provisória assinada pelo presidente Lula, vem ao encontro da desburocratização, da simplificação, da redução de custos. Mais uma medida, esta agora para o taxista, a aferição de dois em dois anos, custo zero. Não tem nenhum custo a mais para o taxista. E o presidente Lula criou um comitê de trabalho formado pelo MDICS, Casa Civil, Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Fazenda. E a primeira tarefa é conversar com o setor privado. Nós separamos em dois blocos. Um bloco, a reunião na terça, dia 15 de julho, no MDICS, com a indústria. Então, nós estamos chamando os setores industriais, que têm mais relação comercial, comércio exterior, com os Estados Unidos. Avião, aço, alumínio, celulose, máquinas. Então, são os setores que nós estamos chamando. Calçados, sapatos, automóveis e autopeças. Estamos chamando as entidades ou, em alguns casos, algumas empresas. E o outro bloco, que é o bloco do agro. Suco de laranja, carnes, frutas, mel, couro, pescado. Então, tem outros ainda. Mesma coisa aqui em Brasília no MDICS. Então, aí a gente convida os outros ministros. Esse do agro, estão vindo mais três ministros, além dos quatro do comitê. MAPA, MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário], Ministério da Pesca e também o Ministério dos Portos e Aeroportos, porque tem a parte aeronáutica. Isso não vai se limitar [a um dia de reunião]. Esse é o primeiro conversa, mas nós vamos dar continuidade a esse trabalho. E vamos também marcar com entidades e empresas americanas. Porque tem uma integração de cadeia. Por exemplo, para dar um exemplo. Nós somos o terceiro comprador do carvão siderúrgico norte-americano. Fazemos o aço-plano e vendemos para os Estados Unidos. Aliás, fazemos o aço semi-plano e vendemos para os Estados Unidos. Que faz o produto acabado. O motor, o automóvel. Então, há uma integração. Você compra o carvão siderúrgico, faz o semi-plano e vende para os Estados Unidos acabar e fazer o produto final. Então, é evidente que as empresas americanas também vão ser atingidas. Então, nós vamos conversar também com as empresas americanas e com as entidades do Comércio Brasil-Estados Unidos.

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Imprensa: Alguém do governo dos EUA já o procurou?

Geraldo Alckmin: Não, a mim não procurou, mas não vejo nenhum problema que haja reunião, enfim. Não vejo nenhum problema nisso. É importante destacar que nós já vínhamos fazendo um diálogo. Eu estive, através de videoconferência, com o Howard Lutnick e com o embaixador Greer. Os dois juntos, que são da Casa Branca. Depois, as conversas continuaram. Aí, no dia 16 de maio, foi encaminhado, até em caráter confidencial, uma proposta para os Estados Unidos de negociação. E não foi respondido ainda. Isso foi feito no dia 16 de maio. E até sexta-feira, antes do anúncio, sem ser essa sexta, a outra sexta-feira estava tendo reunião, no nível técnico.

 

Imprensa: Surgiram várias especulações que saíram, provavelmente dentro do governo, de que já teria decisão de pedir ao governo americano de reduzir de 50% para 30%, de 30% para 25%, e que também o governo pediria uma prorrogação da aplicação dessas tarifas para 60 ou 90 dias. Isso está acontecendo? Essa é a prioridade do governo?

Geraldo Alckmin: Olha, não tem procedência. O governo não pediu nenhuma prorrogação de prazo e não fez nenhuma proposta sobre alíquota, sobre percentual. O que nós estamos fazendo é ouvindo os setores mais envolvidos para o setor privado também participar e se mobilizar também com seus congêneres e parceiros nos Estados Unidos, que você está vendendo para uma empresa americana, para você fazer essa articulação também, e o governo também o fará. A responsabilidade é todo o empenho em rever essa questão. Primeiro porque ela é totalmente inadequada. O Brasil não tem superávit com os Estados Unidos. Aliás, é o contrário. Dos 10 produtos que eles mais exportam, oito, a tarifa é zero, é o que se chama de ex-tarifário. Nós vamos trabalhar junto com a iniciativa privada. Tendo mais informação, a gente passa para vocês. Muito obrigado.

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