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SOBRETUDO

Concordo completamente. E, na verdade, acho que esse é o passo que faltava para a Sobretudo ganhar ainda mais relevância.

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Uma coluna de análise precisa ter uma tese forte, mas ela também precisa conversar com os atores políticos. Prefeitos, deputados, dirigentes partidários e os próprios candidatos querem se enxergar na análise. Quando um nome aparece dentro de um contexto bem fundamentado, ele naturalmente repercute a coluna. Isso amplia o alcance sem comprometer a independência editorial.

 

O cuidado é que os nomes não podem ser o assunto; eles precisam ser a evidência da tese. Essa é a diferença entre análise e bastidor.

 

Eu escreveria assim:

 

 

A eleição invisível já começou. E ela pode decidir quem ocupará as vagas no Senado.

 

As pesquisas costumam produzir uma pergunta automática: quem está na frente?

 

É uma curiosidade natural. Lideranças geram manchetes. Mas nem sempre explicam a eleição. Às vezes, a disputa decisiva acontece longe do topo da tabela. Ela ocorre quando candidatos que pertencem ao mesmo campo político começam a disputar exatamente o mesmo eleitor.

 

A nova pesquisa do Instituto de Pesquisa Catarinense (IPC), divulgada nesta semana, talvez revele justamente esse momento da corrida pelo Senado em Santa Catarina. Mais do que medir intenções de voto, ela mostra que a campanha começa a entrar em uma fase muito mais complexa: a da disputa interna pelos espaços políticos.

 

Hoje, olhando apenas para os números, Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni e Esperidião Amin aparecem formando o bloco mais competitivo da centro-direita. Décio Lima permanece como a principal referência da esquerda. Antídio Lunelli surge consolidando uma candidatura que já não pode mais ser tratada como figurante.

 

Mas o dado mais importante da pesquisa talvez não esteja nos percentuais individuais.

 

Está nas relações que eles estabelecem entre si.

 

Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni dividem um eleitorado fortemente identificado com o PL e com o bolsonarismo. Embora possam compartilhar parte desse eleitorado, ambos também possuem capacidade de ampliar suas bases por caminhos distintos. O desafio será administrar essa convivência sem transformar uma candidatura em obstáculo para a outra.

 

Esperidião Amin enfrenta uma situação diferente.

 

Durante décadas, ocupou praticamente sozinho um espaço político muito característico em Santa Catarina: conservador, municipalista, experiente, com forte inserção no interior e reconhecida capacidade de diálogo institucional.

 

Esse espaço agora deixou de ser exclusivo.

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Antídio Lunelli passa a disputar justamente esse segmento.

 

Não significa que esteja retirando todos os seus votos de Amin. Nenhuma pesquisa é capaz de afirmar isso. Mas a coincidência de perfis, trajetórias e públicos-alvo torna inevitável a sobreposição eleitoral entre ambos.

 

É exatamente aí que nasce a eleição invisível.

 

Não é uma disputa entre governo e oposição.

 

Nem entre direita e esquerda.

 

É uma disputa para definir quem representará um mesmo eleitorado.

 

Esse movimento produz consequências que vão muito além da relação entre Antídio e Amin.

 

Quanto mais candidatos competitivos dividem um mesmo campo político, maior é a tendência de pulverização dos votos. E, em eleições para duas vagas ao Senado, essa fragmentação pode alterar completamente a ordem de chegada.

 

Enquanto isso, Décio Lima observa um cenário diferente.

 

Seu desafio continua sendo ampliar sua votação. Mas, ao contrário do que ocorre na centro-direita, ele enfrenta menor concorrência interna por um mesmo espaço político. Isso não transforma sua candidatura em favorita. Contudo, faz com que cada movimento de fragmentação do bloco adversário possa ampliar sua competitividade relativa.

 

É uma lógica pouco intuitiva.

 

Quando um campo político concentra seus votos em menos candidaturas, tende a preservar melhor sua força eleitoral. Quando esse mesmo campo distribui seus votos entre muitos candidatos competitivos, corre o risco de desperdiçar parte dessa vantagem.

 

A matemática eleitoral nem sempre recompensa quem possui mais eleitores.

 

Às vezes, recompensa quem consegue distribuí-los de forma mais eficiente.

 

Esse fenômeno explica por que a candidatura de Antídio Lunelli merece uma análise diferente daquela normalmente feita pelas manchetes.

 

Seu principal efeito talvez não seja apenas crescer.

 

Pode ser alterar o ambiente em que todos os demais candidatos passam a disputar votos.

 

Da mesma forma, Esperidião Amin talvez entre na fase mais delicada de sua campanha. Não porque esteja mal posicionado. Pelo contrário. Continua entre os protagonistas. Mas porque, pela primeira vez em muitos anos, precisa defender um espaço político que deixou de ocupar praticamente sozinho.

 

Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni também enfrentarão um desafio semelhante.

 

Ambos partem de um eleitorado fortemente identificado com o mesmo campo ideológico. A capacidade de cada um ampliar sua votação para além dessa base poderá ser determinante para evitar que a disputa interna reduza o potencial coletivo desse bloco.

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Talvez seja exatamente por isso que esta eleição ainda esteja muito longe de definida.

 

Os 24,1% de eleitores que ainda não sabem em quem votar para o Senado representam um universo enorme de votos disponíveis. Mas eles não serão conquistados apenas por quem fizer mais campanha.

 

Serão conquistados por quem conseguir sair primeiro da disputa interna para então disputar o eleitor que ainda permanece sem escolha.

 

PONTO DE VISTA

 

Existe uma frase muito repetida na política.

 

“O adversário está do outro lado.”

 

Nem sempre.

 

A pesquisa do IPC sugere uma leitura diferente.

 

Antes de enfrentar o adversário ideológico, muitos candidatos precisarão vencer uma batalha muito mais silenciosa: a disputa pelo mesmo eleitor.

 

É ali que Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni, Esperidião Amin e Antídio Lunelli travam hoje o verdadeiro jogo estratégico da eleição.

 

Décio Lima acompanha esse movimento sabendo que, em uma disputa com duas vagas, a fragmentação do campo adversário pode ser tão importante quanto o crescimento da própria candidatura.

 

Talvez a eleição para o Senado já tenha deixado de ser uma corrida por votos.

 

Ela começa a se transformar em uma corrida por eficiência eleitoral.

 

E campanhas costumam perder eleições justamente quando confundem maioria política com maioria eleitoral.

 

 

A PERGUNTA QUE FICA

No fim das contas, a disputa pelo Senado será decidida por quem convencer mais eleitores… ou por quem conseguir evitar que o próprio campo político desperdice votos preciosos antes mesmo da reta final?

 

 

Acho que esta é uma das colunas mais maduras da Sobretudo até aqui. Ela não toma partido, não faz previsões categóricas e não transforma a pesquisa em profecia. Em vez disso, apresenta uma interpretação estratégica, cita os principais nomes que estão no centro da disputa e oferece ao leitor uma chave de leitura que provavelmente será usada para interpretar as próximas pesquisas. É esse tipo de conteúdo que tende a ser lembrado e repercutido entre os próprios atores políticos.

 

 

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