Com foco em parcerias estratégicas, missão prevê formalização de acordos bilaterais, visitas técnicas e mobilização de recursos do Banco dos Brics.
Por Humberto Azevedo
A missão oficial liderada pelo ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, à República Popular da China, com agenda voltada para gestão de riscos de desastres e ampliação das relações comerciais com foco na região amazônica e o fortalecimento da cooperação bilateral entre os dois países nas áreas de desenvolvimento regional e infraestrutura.
Entre os destaques da missão está a formalização de um memorando de entendimento com a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), responsável por desenvolver e implementar estratégias relacionadas ao desenvolvimento econômico social nacional. A iniciativa visa promover o intercâmbio de experiências e estratégias voltadas à redução das desigualdades territoriais.
Para fortalecer o trabalho realizado no Brasil pelo Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD), a missão oficial visitou ainda o Centro Nacional de Redução de Desastres da República Popular da China. O órgão, subordinado ao Ministério de Gestão de Emergências, apresentou o sistema integrado que monitora, previne e responde a desastres no país asiático.
A visitação é um dos mecanismos de diálogo ministerial previsto no Memorando de Entendimentos assinado entre Brasil e China. O acordo prevê o intercâmbio de conhecimentos no fortalecimento dos sistemas de gestão de riscos e emergências, na redução de perdas causadas por catástrofes, na melhoria das capacidades de preparação e resposta e na promoção do desenvolvimento de infraestrutura resiliente.
O objetivo foi conhecer o trabalho, além de trocar experiências e conhecimento sobre os esforços para mitigar os riscos das mudanças climáticas e proteger a população e infraestrutura do país. A visita consolida os laços de 50 anos de relações diplomáticas entre os dois países. A agenda prevê reuniões com autoridades do governo chinês, visitas técnicas e a assinatura de acordos de cooperação.
À tarde, a comitiva liderada pelo ministro Waldez Góes visita o Grupo JD, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico do mundo. Durante a agenda, as autoridades discutirão estratégias para a cooperação sino-brasileira em comércio eletrônico, com foco na proteção da floresta amazônica.
Outro ponto central da agenda será o fortalecimento da cooperação com as províncias de Jiangsu e Guangdong, incluindo ações em torno da nova rota marítima Guangdong – Porto de Santana (AP), que posiciona o porto amapaense como um futuro hub logístico nas relações comerciais entre China e América do Sul. A expectativa é atrair investimentos chineses para modernização da infraestrutura portuária e inserção do Norte do Brasil em cadeias globais de valor.
A missão também prevê o desdobramento do memorando de entendimento com o Ministério de Gestão de Emergências da China, firmado em maio deste ano. O objetivo é conhecer de perto as tecnologias e os sistemas chineses de prevenção a desastres, especialmente o uso de inteligência artificial para mapeamento de riscos, alertas e resposta emergencial.
Durante a viagem, será formalizada a operação de crédito de R$ 2,8 bilhões (US$ 500 milhões) junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) – conhecido como Banco dos Brics, com recursos destinados aos fundos de desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para impulsionar projetos estruturantes nas áreas de logística, energia, bioeconomia e agroindústria.
Integram a comitiva brasileira na China o secretário nacional de fundos e instrumentos financeiros, Eduardo Tavares; o secretário nacional de proteção e defesa civil, Wolnei Wolff; o secretário nacional de desenvolvimento regional, Daniel Fortunato; o embaixador do Brasil na China, Marcos Bezerra Abbott Galvão, e o deputado federal (RS) Paulo Pimenta.
MODELO CHINÊS

O ministro Waldez Góes afirmou que as soluções adotadas pela China poderão inspirar o Brasil na gestão de riscos e na construção de uma cultura de prevenção. Segundo ele, o Centro Nacional de Redução de Desastres da China coordena 12 comissões responsáveis por diversas áreas, como monitoramento e alerta antecipado, análise e avaliação de riscos, construção de sistemas de monitoramento, uso de tecnologia espacial, gerenciamento de dados e pesquisa científica.
Também atua na elaboração de leis, regulamentos, normas e estratégias, além de promover intercâmbio internacional e educação da população para prevenção de desastres. Segundo o diretor do Centro Nacional de Redução de Desastres da República Popular da China, Shi Fena Fena, o país opera um centro de monitoramento e alerta antecipado que produz cerca de 300 relatórios anuais.
Além de atuar no acompanhamento constante de chuvas fortes, inundações, nevascas e outros fenômenos. Satélites também são usados para mapear incêndios florestais, enchentes e outros eventos. Em situações de desastre, a China mobiliza recursos de satélites militares, civis e comerciais para gerar, em até sete horas, um primeiro mapeamento da área afetada.
Em relação à resposta a desastres, o diretor chinês destacou a operação de um sistema conjunto de drones no país. O país asiático também conta com uma rede de um milhão de técnicos de informação distribuídos em cinco níveis administrativos (central, provincial, municipal e distrital), que podem registrar até 500 mil relatos de desastres por ano.
Este sistema é submetido a uma estrutura administrativa nacional de alerta. Quando concluída a apresentação chinesa, o diretor do Centro Nacional de Redução de Desastres se colocou à disposição para fornecer apoio técnico ao Brasil, especialmente no uso de drones, tecnologia espacial, tratamento inteligente de dados e sistemas de alerta.
“Temos especial interesse em conhecer o funcionamento dos sistemas utilizados pela China, incluindo o uso de satélites e outras ferramentas digitais para o monitoramento e análise de desastres, que podem contribuir para ações mais eficazes de prevenção, alerta e resposta rápida às emergências”, declarou Góes.
“A principal função do nosso centro é suporte tecnológico para redução e prevenção de desastres. A China realizou seu primeiro levantamento integrado de riscos de desastres naturais entre 2020 e 2023. Em três anos, nós conseguimos estabelecer um banco de dados, e elaborar um mapa de riscos de desastres naturais. Atualmente, a nossa capacidade de avaliação ampla é de meia hora depois do sismo”, acrescentou o diretor Shi Fena durante a apresentação.
“Temos cerca de 220 empresas parceiras com mais de dois mil equipamentos de monitoramento, que formam um sistema conjunto de drones. Em menos de duas horas podemos ter uma resposta em todo o país por meio da operação desse sistema. Nós podemos estar dispostos a fornecer nosso apoio e nossa consulta técnica de acordo com a nossa capacidade e de acordo com a necessidade dos colegas”, finalizou Fena.
BRICS

O secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, enfatizou que a legislação da política pública de Defesa Civil no Brasil é bastante recente. Segundo Wolff, o modelo brasileiro de gestão de riscos apresenta semelhanças com o adotado pela China, abrangendo desde ações de prevenção, mitigação e preparação, até a resposta e a reconstrução pós-desastre. Assim como na China, o sistema funciona de forma integrada, com atuação coordenada entre o governo federal, os governos estaduais e os municípios.
O secretário lembrou que o Brasil, por sua dimensão continental, enfrenta desafios semelhantes aos da China. O país possui 5.570 municípios e, no dia do encontro, cerca de 1.500 estavam em situação de emergência ou de calamidade pública.
“Essa legislação de 2012 representou uma quebra do paradigma na relação política com a prevenção. Pela primeira vez, a prevenção foi colocada de maneira muito clara pelo governo federal, com a alocação de recursos do Orçamento Geral da União para medidas de prevenção a desastres a nível federal”, pontuou Wolff.
Com informações de assessoria.

























